terça-feira, 3 de abril de 2012

Desafio Literário 2012: Abril - Escritor Oriental || As Boas Mulheres da China



A carta que recebi do garoto Zhang Xiaoshuan foi a primeira a apelar para a minha ajuda prática e me deixou muito confusa. Informei o chefe da minha seção e perguntei o que devia fazer. Ele sugeriu, com indiferença, que eu entrasse em contato com o Departamento de Segurança Pública. Telefonei e contei a história de Zhang Xiaoshuan.

O policial do outro lado da linha me disse que me acalmasse. ''Esse tipo de coisa acontece muito. Se todo mundo reagisse como a senhora, morreríamos de tanto trabalhar. E de toda forma é um caso perdido. Temos pilhas de relatórios aqui e os nossos recursos humanos e financeiros são limitados. Se fosse a senhora, eu pensaria bem antes de me envolver. Aldeães como esses não têm medo de ninguém nem de nada. Mesmo que fôssemos até lá, eles poriam fogo nos nossos carros e espancariam os nossos oficiais. Eles fazem o impossível para garantir que suas famílias se perpetuem, pois deixar de produzir um herdeiro seria uma ofensa contra os ancestrais.''

"Então o senhor está me dizendo que não vai assumir responsabilidade por essa garota?"

"Eu não disse isso, mas..."


"Mas o quê?"

"Mas não há motivo de pressa, podemos ir passo a passo."

"Não se pode deixar alguém morrer passo a passo!"

O policial deu uma risadinha. "É por isso que dizem que os policiais apagam incêndios e os jornalistas ateiam fogo. Qual é mesmo o seu nome?"

"Xin... ran", respondi, rilhando os dentes.

"Sim, sim, Xinran, um bom nome. Está bem, Xinran, venha até aqui. Eu vou ajudá-la", disse, como se me fizesse um favor e não como se cumprisse o próprio dever.
Esse não foi um livro vira-página que a gente termina num dia – na verdade, eu mal sei como foi que o terminei. Por várias vezes, estive a ponto de chorar enquanto lia, e a cada capítulo que terminava, eu me perguntava como a autora conseguiu escrevê-lo até o fim, imaginando toda a carga emocional de lidar não apenas com as histórias, mas com as pessoas por trás das histórias contadas em As Boas Mulheres da China - considerando o quanto eu me sentia drenada com cada capítulo, para mim, o esforço dela pareceu algo quase sobre-humano.

Todos os relatos trazidos no livro são reais – a vida de meia dúzia de mulheres que representam diferentes estratos, diferentes formações, diferentes gerações de chinesas. São meia dúzia de histórias, mas poderia ser uma só – um longo relato de abusos físicos, emocionais, sexuais; de opressão, de humilhação, de objetificação, de perda de identidade.

Não é um livro ‘fácil’ ou confortável de ler. Está bem longe disso, na verdade: é um daqueles livros que parece te dar um soco direto na boca do estômago. Que incomoda... e incomoda muito.

Curiosamente, eu comecei a ler As Boas Mulheres da China exatamente no dia das mulheres. Não foi uma escolha proposital – eu já estava saindo de casa quando lembrei que ia passar o dia na rua e corre para tirar alguma coisa da estante para os momentos em que estivesse em filas e salas de espera (estou sempre com um livro para essas ocasiões). Só mais tarde, me toquei que era o dia da mulher.

Coincidências ou não, o fato é que não haveria leitura mais certa para tal dia. As Boas Mulheres da China é um bom lembrete de todo o caminho que tivemos de percorrer até chegar onde estamos. E de que ainda há muito a ser feito – muito, antes que possamos realmente falar nem em igualdade, mas simplesmente em humanidade (como qualidade), porque, francamente, algumas das histórias que li nesse livro só nos fazem desesperar de que haja alguma esperança para a humanidade (como substantivo).

Ou talvez haja... a coragem de contar essas histórias – pelas pessoas que as viveram e pela própria autora – bem nos mostra que nem tudo está perdido.

Nota: 4
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: As Boas Mulheres da China
Autor: Xinran
Tradutor: Manoel Paulo Ferreira
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2003
Número de páginas: 288



A Coruja

4 comentários:

  1. Olá!
    É um desafio, realmente, mas também tenho vontade de tentar um escritor oriental. Pelos filmes que já vi, acho que o ritmo da narrativa deve ser bem devagar.
    Mas tenho notado que as livrarias estão cheias de livros de autores chineses e japoneses, então pelo menos temos mais opção. É bom para sair um pouco do eixo EUA-Europa que estou tão acostumada. Tenho que ler mais latinos também. Africanos então... ;)
    bjs,
    Amanda

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  2. Eu li As Boas Mulheres da China alguns anos atrás e me impressionou muito. Até hoje fico tocada ao lembrar das histórias dessas mulheres. E a autora teve que sair da China para conseguir publicar o livro...ora essa!

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  3. No que toca a nossa sociedade impermeável ao espanto, há momentos em que precisamos de choque. Boa escolha!

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  4. Ainda não li o livro, mas fiquei interessada, é bom às vezes a gente ter esse choque com a realidade e sair do mundo da fantasia, perceber que o mundo tem um lado sombrio e quem não conhece o passado, não constrói um futuro melhor. A autora já fez sua parte em denunciar o problema, só nos resta ser solidários e abraçarmos as causas femininas.

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