9 de março de 2012

Na sua estante: na sala de espera





#110: Na Sala de Espera
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- Você pode me explicar exatamente como foi que consegui passar quatro anos sem ouvir falar de você e agora não se passa uma semana sem que eu esbarre contigo em algum lugar?

Júlia deu um meio sorriso matreiro. Apesar das palavras, havia qualquer coisa um certo humor resignado no tom de André.

- Hum... você provavelmente anda passando por uma maré de boa sorte. E sua irmã é muito menos inocente do que todos queremos acreditar.

André deu um sorriso de lado, mal acreditando na situação em que Beatriz conseguira metê-lo dessa vez. Se o médico não tivesse olhado todos os raios-x e confirmado o diagnóstico, ele não passaria por cima da possibilidade de que a irmã tinha inventado uma crise de tendinite.

Na verdade, ele também não tinha certeza se passaria por cima da possibilidade de a irmã ter propositalmente organizado as coisas de forma a ficar com tendinite de verdade, levando assim aos encontros duas vezes por semana com o mesmo fisioterapeuta que cuidava da ruiva.

- Eu sempre imaginei que se Beatriz fosse um animal, ela seria algum tipo de criatura inofensiva e de aparência engraçada... aquelas aves cor-de-rosa com pernas longas, eu esqueci agora o nome... – ele balançou a cabeça – Mas começo a achar que ela está mais para uma raposa...

- Você não acredita realmente que sua irmã ficou doente de propósito, não é?

- A essa altura, eu estou acreditando em tudo. – ele retrucou, fechando os olhos, encostando a cabeça à parede atrás deles.

Júlia balançou a cabeça.

- Acho que você está sendo um tanto paranóico. Seja como for, eu gosto da sua irmã.

- Ela gosta de você também.

- E não é assim tão ruim, não é?

André entreabriu um olho, desconfiado.

- O quê, exatamente, ‘não é assim tão ruim’?

A ruiva riu baixinho.

- Isso. Você e eu. Esperando em camaradagem enquanto sua irmã faz fisioterapia. Aliás, ela acertou bem o horário, não? Vocês chegam exatamente no meio da minha sessão e depois passamos juntos metade da sessão dela e ela ainda leva o crédito de se apresentar ao meu pai e entusiasticamente voluntariar você para me levar para casa depois da sessão dela. Tudo pela sustentabilidade do meio ambiente.

- Faz sentido. Rodízio de carros. Em vez de fazer eu e seu pai perdermos tempo esperando por vocês todos os dias, nos alternamos na espera e no trânsito. – André balançou a cabeça, ligeiramente incrédulo – Minha irmã é realmente uma raposa, não é?

- Meu pai gosta da sua irmã.

- Acho que a essa altura, só eu não estou gostando muito da minha irmã. – ele retrucou, suspirando pesado – E isso porque a idéia de Bia sendo uma consumada manipuladora me assusta.

Júlia riu baixinho de novo. André virou a cabeça para observá-la, mais uma vez sentindo, quase inconscientemente, os lábios se curvarem num meio sorriso.

- Você tem razão. – ele comentou após um momento – Não é tão ruim. Na verdade, considerando tudo, ainda me sinto um tanto surpreso de estar vivo. Isso me faz lembrar de... de antes.

A voz dele mudara para um tom de mais cautela, mas André não desviou o olhar. Foi a vez de Júlia cerrar os olhos e respirar fundo.

- Nós éramos amigos antes de toda aquela confusão, André. – ela começou – Fora que não dá para considerar você um babaca depois de te ver cuidando da sua irmã... Além disso, imagino que você tenha crescido um pouco nos últimos quatro anos.

- Fico grato em saber que você não pretende mais fazer me eviscerar e me fazer comer meus próprios intestinos.
Arqueando uma sobrancelha, ela reabriu os olhos para encará-lo.

- Gosto de achar que eu também amadureci nos últimos quatro anos.

André apenas assentiu, o sorriso abrindo um pouco mais.

- Isso é... bom. Digo, - ele se apressou a continuar ao vê-la cruzar os braços - ...já que a Bia está ridiculamente encantada com você e parece que vamos ter de continuar aturando a companhia um do outro por longos períodos de tempo.

Júlia balançou a cabeça, respirando fundo.

- André?

- Oi?

- Acho que essa é a hora em que você cala a boca.



A Coruja


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