21 de outubro de 2011

Na sua estante: o convite





#087: O Convite
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Completamente alheia às conseqüências que aquela aproximação traria num futuro próximo, Beatriz sorriu...

- Pessoas queridas, tenho um convite a fazer a todos vocês. – ela disse num fôlego só, sem deixar que ninguém se cumprimentasse ou mesmo voasse nos pescoços uns dos outros – Minha turma está organizando uma festa para arrecadar fundo para a formatura e sou obrigada a vender ingressos. Mas mesmo que eu não fosse obrigada a vender e vocês, por conseqüência, obrigados a comprar, tenho certeza que iam querer ir porque É UMA FESTA À FANTASIA!

- Sim, e isso é uma biblioteca, então, por favor, abaixe o tom, Bia. – Penélope falou logo às costas da menina, com as mãos na cintura.

Sem deixar de sorrir, Beatriz se virou para a bibliotecária.

- Mas você não entende, Penélope! É necessário empolgação para falar disso! É uma festa à fantasia! Temática! COM MÁSCARAS! Você vai, não vai?

- Biblioteca, Bia, BIBLIOTECA!

- Quem está gritando agora? – André perguntou de lado.

- Ah, eu não me meteria se fosse você... – Júlia sorriu de orelha a orelha, encarando o rapaz, acrescentando a meio tom – Dedé.

André empalideceu. Alheios ao desenrolar dos acontecimentos à sua volta, Luís e Sofia encaravam-se por cima da mesa, ele já tendo puxado as folhas azuis incriminadoras para debaixo do caderno, ela cruzando os braços com cara desconfiada.

- Qual é o tema dessa festa? – Enrique, que era o único presente não envolvido em conversações verbais e não-verbais paralelas, perguntou sorrindo amistosamente para a caçula do grupo.

Bia voltou-se para ele.

- O tema da festa é “Roma: Burn Baby, Burn”.

- Hum... é um churrasco? Se for um churrasco, eu tô dentro. – ele balançou a cabeça para si mesmo, pensativo - De preferência aquelas festanças gaúchas com trocentas costelas assando lentamente durante quinhentas e tantas horas, até ficar quase derretendo e aí você corta ela e coloca no prato, e junta com mandioca cozida também quase derretendo e arroz de panelão, ou carreteiro, e ainda farofa, e aquele molho de churrasco apimentado, mas não muito e... e...

- Bem, não é um churrasco... – Bia o interrompeu antes que ele pudesse se afogar em delírios culinários – O epíteto é mais uma referência a Nero, sabe? Mas a idéia é que seja uma festa à fantasia e um baile de máscaras e você pode ir fantasiado de qualquer coisa que faça referência à Roma, sabe? Qualquer período histórico, qualquer referência bizarra e...

- Do que você vai fantasiada, Bia? – Penélope foi quem perguntou, cruzando os braços, encarando a moça com certa curiosidade.

- Acho que... hum... uma dama medieval ou renascentista de Florença.

A bibliotecária arqueou a sobrancelha.

- Que tal a musa de Dante na Divina Comédia?

Ela conseguiu o efeito que queria: Bia corou. O que Penélope (nem ninguém mais além de Sofia) não notou é que Luís também acabara de corar até a raiz dos cabelos.

- Talvez... ou Mona Lisa, quem sabe?

- Eu acho que vou de bárbaro. Conan! Com tanga de pelúcia e espada laminada! – Enrique observou, quebrando o momento que poderia ter se estendido constrangidamente – Ou de centurião. Quanto é o ingresso, Bia? Já começou a vender? Aproveita que estou num raro momento de ter dinheiro na carteira.

- Sim, sim, deixa eu pegar os ingressos aqui na mochila... – ela respondeu, abrindo a bolsa ao mesmo tempo em que se voltava para Penélope – Você vai também, não é?

- Uma festa de faculdade com todos fantasiados e mascarados e com álcool consumido livremente? Eu provavelmente cometeria suicídio. – ela respondeu com um meio sorriso – Mas me avise se sobrar algum ingresso no final. Eu compro para usar de marcador de livro. – com uma expressão indulgente, ela se voltou para os outros jovens presentes – E vocês? Do que pretendem ir fantasiados?

- A Bia provavelmente vai escolher para mim, então não me darei ao trabalho. – Sofia deu de ombros – Ela até já deve ter alguma coisa na cabeça.

- Nada ainda, mas não se preocupe, vamos achar. – Bia respondeu com a voz abafada, a cabeça quase enfiada dentro da bolsa – Onde eu enfiei mesmo aqueles ingressos?

- Ele deve ir fantasiado de comediante. – Júlia observou, apontando com a cabeça para André – Que tal Calígula?

Dois pares de olhos surpresos se voltaram para ela.

- Não é que você tem razão? – Sofia observou.

- De onde você conhece meu irmão? – Beatriz completou.

André se levantou da cadeira.

- Licença um minutinho... – ele não esperou resposta para sair quase carregando a ruiva pelo braço, sob os olhares atônitos não apenas dos presentes à mesa, mas de muitos rostos na biblioteca que tinham acompanhado com certo interesse científico o desenrolar da novela.

- Hum... – Enrique observou filosoficamente o casal desaparecer pela porta da biblioteca – Então, mas... quanto é o ingresso?



A Coruja


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Um comentário:

  1. Uhhhh... the plot thickens... AGAIN! =D

    Pq eu tenho a impressão que meu xará está levemente f*****? =P

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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