8 de agosto de 2011

Desafio Literário 2011: Agosto - Clássico da literatura brasileira || A Alma Encantadora das Ruas



Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia — o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.
Ganhei esse livro de presente no ano passado, no mesmo pacote em que veio O Queijo e os Vermes. Não toquei nele, por pura falta de tempo, até sair a lista de temas do Desafio Literário 2011 e eu saí caçando pelas minhas prateleiras o que eu tinha que ainda não lera e que cabia dentro das categorias para poder organizar minha cronologia de leituras do ano.


Não conhecia João do Rio até então – pseudônimo, aliás, do jornalista Paulo Barreto. Seu livro é na verdade uma coletânea de crônicas publicadas pela primeira década do século XX e que tratam de cenas cotidianas da vida dos estivadores, das operárias, dos marinheiros, tatuadores, mascates, chineses entregues ao vício do ópio, escritores de tabuleta: o povo miúdo que faz uma cidade funcionar.

Acredito que um dos motivos da Régis ter me dado este livro foi porque visitei o Rio de Janeiro pela primeira vez no ano passo e voltei completamente apaixonada pela cidade – tanto que voltarei pra lá mês que vem, para passar meu aniversário na Bienal do Livro (hohoho...). Nas crônicas de A Alma Encantadora das Ruas, a cidade exerce um papel central, sendo mais que o ambiente em que ocorrem as histórias, para se tornar personagem e protagonista.

Cada uma das crônicas tem seu brilho próprio e o estilo do autor me lembrou muito o de Machado de Assis - considerando que amo de paixão as crônicas do Machado, esse é um dos maiores elogios que posso fazer ao João do Rio. A principal diferença é que enquanto o Bruxo do Cosme Velho usa mais do sarcasmo e circula pelas ruas do Rio de janeiro dando manuais de etiqueta em bondes (adoro, adoro, adoro!), João do Rio enxerga mais da vida cotidiana, tornando o hábito algo singular, único.

É um relato fascinante de uma outra época, de uma cidade que pulsa e encanta com vida própria. E, ao mesmo tempo, são relatos que continuam atuais em sua visão de mundo e sociedade.

Nota: 4
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: A Alma Encantadora das Ruas
Autor: João do Rio
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2008
Número de páginas: 256



A Coruja


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Um comentário:

  1. Conforme o trecho exposto, senti-me transportada ao cenário pretendido pelo autor. Particularmente, gosto muito da linguagem. Bjs

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