17 de junho de 2011

Na sua estante: tia Bia





#068: Tia Bia
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- Entrou por uma porta, saiu por um canivete, seu rei mandou dizer...

- QUE CONTASSE ATÉ SETE!

Beatriz riu, batendo palmas, enquanto as crianças ao seu redor pulavam, ainda excitadas com a história que ela acabara de contar.

- Muito bem! E agora...

- Conta outra, tia Bia? – uma menina de maria-chiquinhas sentada ao lado dela pediu, logo seguida em coro pelos outros.

- Infelizmente, o horário de hoje acabou e temos que desocupar a sala, Flavinha. – ela passou uma mão pela cabeça da menina, voltando-se para o resto do grupo – Mas semanas que vem estarei com uma história ainda mais legal para contar!

- Vai ter princesas?

- Lutas de espadas?

- Duendes!

- Gênios da lâmpada!

- E monstros do mar!

- Conta, tia Bia! – eles pediram quase em uníssono, o que, àquela altura, já era de se esperar: a mesma cena se repetia toda semana.

- Ok, ok, criança, deixem a tia Bia respirar. E é hora de voltar para a escola com a tia Jô. – Joana, a professora da turma, se aproximou – E se ela disser hoje do que se trata a história, que graça vai ter quando vocês forem ouvi-la semana que vem?

- Ah, mas aí tia Bia conta outra.

Beatriz colocou uma mão na cintura.

- E o que vocês acham que eu sou? Um poço sem fundo de histórias?

- É porque Sherazade contou histórias para o sultão por mil e uma noites. – Carol, outra das pequenas, aproximou-se, sentado despachadamente no colo da ‘tia’ e abraçando seu pescoço com as mãozinhas rechonchudas – E tia Bia tem de contar histórias por mil e uma sextas-feiras. E então o mundo vai acabar.

Beatriz piscou os olhos, antes de cair na gargalhada.

- Bem, então é melhor eu começar a faltar uma sexta ou outra para o mundo poder se demorar mais um pouco.

- Ah, não, tia Bia, não pode...

Ela apenas continuou rindo, levantando-se de seu lugar no chão.

- Vamos lá, cambada, semana que vem tem mais de novo.

Joana se aproximou dela enquanto as crianças se organizavam, ainda relutantes, para partir.

- Elas adoram você. É uma sorte que elas tenham alguém como você para lhes contar histórias. Você seria uma excelente professora.

A moça corou.

- É para isso que estou estudando... embora eu goste também da idéia de seguir pelo ramo da pesquisa, como meu pai. – Bia deu de ombros – Eu tenho muito a agradecer a Penélope por ter me sugerido participar desse trabalho voluntário. Adoro a hora de contação de histórias tanto quanto os pequenos

Ela ajudou Joana a arrumar os alunos em fila, já aproveitando para recolher suas coisas e a chave da sala, a fim de devolvê-la para Penélope na frente da biblioteca.

Tia Bia... ela adorava a forma como a turma a acolhera e adotara desde o princípio. André dissera certa vez, ao vê-la brincando com eles, que o motivo para tanta empatia é que ela mesma não tinha crescido.

Fora daqueles momentos em que pesquisava e se preparava para contar histórias, ou quando estava na sala dos fundos da biblioteca com a classe, Beatriz nunca dera muita atenção à idéia de ser chamada de tia – ou, até mesmo, de mãe, um dia.

Depois da bomba do irmão, é claro, ela dificilmente pensava em outra coisa.

Havia momentos em que mal podia caber em si de tanto contentamento. Imaginava como seria divertido ter uma sobrinha, ensinar a ela a infernizar a vida do pai, contar histórias e se vestir de princesas. Ou um sobrinho, com quem brincaria de pirata e faria André andar na prancha.

Em outros, o que ela realmente queria era chutar o traseiro do irmão até a China e depois assistir seus pais conduzindo o funeral num grande churrasco.

Fosse como fosse, era bom que ela se acostumasse com a idéia... Ao final das contas, ‘tia Bia’ chegara para ficar...

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A Coruja


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Um comentário:

  1. Hahahahaha
    Toda vez que leio Na Sua Estante fico rindo sozinha. Hoje então nem se fala...
    As crianças bem que poderiam aparecer outras vez eim? ;)

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