6 de dezembro de 2010

Para ler: Carta para Você



Ontem, também, me dei conta de que nunca lhe disse o quanto gosto de você – isto antes do seu texto, aliás. O amor é diferente. O amor é ridículo. O amor pode simplesmente surgir, como aconteceu com você quando me viu e pediu a Ifeanyi para nos apresentar (há exatos dezessete meses e três dias), e comigo quando você tentou me seduzir com seu insípido conhecimento sobre o trabalho de Achebe, mas gostar exige motivos. E ontem me surpreendi com o quanto vim a gostar de você. Gosto que você saiba a hora de ir embora e fecha silenciosamente a porta do meu quarto e, quando faz isso, eu nunca me preocupo se você vai voltar. Gosto da sua comida (nunca o elogiei porque fico imaginando aquelas mulheres idiotas que elogiam demais os homens por cozinhar, e aquelas mães idiotas que gostam de dizer: “Ah, meu filho sabe cozinhar, assim nenhuma mulher vai usar a comida para seduzi-lo”). Gosto do seu traseiro no jeans, daquela elegância simples para a qual você não gosta que eu chame a atenção, gosto que você faça tentativas inúteis na academia de ginástica para desenvolver músculos que ambos sabemos que nunca desenvolverá e gosto que sublinhe frases nos livros para me mostrar. Gosto que você goste de mim e que o seu gostar de mim me faça gostar de mim mesma.
Chimamanda Ngzi Adichie – Carta para Você


Comprei esse livro por um único e apenas um único motivo: um dos autores reunidos na coletânea era Gaiman. Afinal, o que mais diabos eu ia fazer com um livro cujo tema central eram “cartas e mensagens de amor em tempos modernos”?

A princípio, eu imaginei que o livro era assim, uma espécie de manual moderno para escrever cartas de amor, reunindo alguns grandes autores. Como eu achava que isso funcionaria, não faço a menor idéia.

Eu tinha me esquecido que é perfeitamente possível escrever uma inteira história através de uma carta. Ou de trocas de cartas. Você percebe a história nas entrelinhas – mesmo numa série de emails (psicoticamente e obsessivamente hilariante) sem resposta.

Eu tive uma boa surpresa com esse livro. Conheci autores que me deixaram curiosa – como a nigeriana de nome estranho de quem peguei o trecho que abre esse artigo. Outros já eram velhos conhecidos – como o próprio Gaiman (cuja participação é provavelmente a declaração mais arrepiante de todas contidas na obra).

Há mágoas e ressentimentos, provas apresentadas em tribunais, odes às montanhas escocesas (é um dos textos mais poéticos, por sinal), anúncios e uma boa dose de humor.

E há, também, declarações de amor, algumas extremamente elaboradas, arrebatadas e outras mais prosaicas, simples, tranqüilas. Porque o amor é todas essas coisas. Ele pode ser um objeto de auto-sacrifício, de compaixão, de perda, de felicidade.

É um bom livro, não importa muito o que você espera dele. Na verdade, eu aconselho a lê-lo sem esperar nada. Deixe que ele o surpreenda. Que te faça sorrir ternamente ou rolar enquanto solta gargalhadas.
O que esta história significa? Não significa nada a não ser o que ela conta: que o fato aconteceu, que estávamos lá, que nunca acontecerá outra vez exatamente do mesmo modo e que ainda assim acontece o tempo todo.




A Coruja


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