8 de julho de 2010

Literatura fast-food (ou dos últimos lançamentos nas livrarias)


De alguma forma, sinto que passarei o mês de julho fazendo resenhas literárias. Eu tenho passado todo meu eventual tempo livre com o nariz enfiado em livros e quando não estou lendo, estou tomando notas sobre algo que estive lendo.

Estou alternando livros interessantes – como O dia do Curinga, de Jostein Gaarder (que depois vai ganhar uma resenha só para ele) – com outros livros mais leves, estilo fast-food: você engole de uma vez só, sem compromisso e sem nada de substancial que te faça pensar depois.

Nas últimas semanas, eu li três livros desse tipo, com uma série de coisas em comum: todos têm um pé no sobrenatural, todos são o primeiro livro de uma série e todos são lançamentos.


Ah, sim, antes que eu me esqueça... as protagonistas de todos os três livros são garotas de relativamente baixa auto-estima, filhas de pais ausentes e, em alguns casos, mais ou menos desequilibrados, atraídas por criaturas sobrenaturais. Soa familiar?

Em suma, todo mundo quer ser o novo Crepúsculo. E isso não é um elogio. E, claro, como é necessário extorquir o máximo possível de dinheiro dos leitores, histórias que poderiam perfeitamente caber num único livro se tornam séries de três, quatro, cinco livros.

Dessa leva de literatura fast-food, o primeiro livro que li foi Sussurro, de Becca Fitzpatrick.



Entrar em um relacionamento não estava nos planos de Nora Grey. Pelo menos até a chegada de Patch. Seduzida por seu sorriso despretensioso e pelo olhar que parece enxergar através dela, Nora se sente incapaz de pensar com clareza. É quando uma sucessão de acontecimentos assustadores começam a cercá-la. Enquanto isso, Patch parece surgir em todos os lugares e mostra que sabe absolutamente tudo sobre sua vida. É impossível decidir entre atirar-se nos braços dele ou fugir do perigo que o ronda. Na busca de respostas, Nora se aproxima de uma verdade ainda mais avassaladora que seus sentimentos por Patch. De repente, ela está no centro da eterna batalha travada entre anjos caídos e seres imortais - e quando chega a hora de escolher um dos lados, a decisão errada poderá custar sua própria vida.

A idéia de Sussurro seria bem engenhosa e eu até teria aplaudido todo o lance bíblico épico... se nunca tivesse lido O Livro de Enoch. Como por um acaso do destino eu li, a história de Patch não me convenceu.

Sério mesmo, eu li esse livro por puro acaso. Eu até tenho ele aqui em casa. Por incrível que pareça, comprei o bendito por engano, achando que era uma romance sobre... anjos. Como à época eu estava lendo O Paraíso Perdido e mestrando uma campanha de RPG envolvendo hostes angelicais, achei que valia à pena dar uma olhada, até porque o livro estava em promoção. Qual não foi minha surpresa quando descobri que em vez de um romance eu tinha em mãos um manuscrito apócrifo?

Basicamente, Enoch – que é um dos patriarcas descendente de Adão, bisavô de Noé – escreveu sobre a Segunda Queda. A Primeira, claro, foi quando Lúcifer se rebelou e as hostes angelicais se dividiram e foram à guerra, culminando com a derrota dos rebeldes e seu lançamento direto no Inferno num lago feito de seu próprio sangue.

Sério, minha gente, se vocês querem anjos caídos, porque não vão ler O Paraíso Perdido?

A Segunda Queda teria sido a dos anjos chamados ‘Vigilantes’, liderados por Samyaza: ”os vigilantes têm os olhos cheios de adultério, e são insaciáveis no pecado; engodam as almas inconstantes; têm o coração exercitado na ganância, são filhos da maldição!”. Por essa breve descrição, acho que é meio óbvio porque esses anjos caíram – eles cobiçaram as filhas de Eva, deixando os céus para se tornarem líderes entre os humanos, tomando consortes entre suas mulheres.

Conta Enoch que os vigilantes tiveram filhos com as humanas – e a esses filhos chamamos gigantes ou nefilim. Eu desconfio que Golias, da história de Davi e Golias, era um nefilim sobrevivente, ou pelo menos um descendente dessa raça.

Ei, tia Becca, que tal antes de escrever, pesquisar um pouco os dados históricos? Se seu Patch é um anjo caído, ele é um dos Vigilantes, não um Nefilim, ok?

Fora que, tecnicamente... não deveria haver anjos caídos dessa safra andando por aí. De acordo com Enoch, os Vigilantes teriam ensinado aos homens as artes da guerra, corrompendo de tal forma a humanidade que os arcanjos resolveram interceder junto ao Ancião dos Dias (adoro esse epíteto). Dessa forma, Gabriel teria destruído os nefilim, fazendo-os guerrear entre si; Miguel aprisionou os Vigilantes num dos círculos mais baixos do Inferno, de onde eles só sairiam no dia do Juízo Final e Deus mandou o dilúvio.

Último comentário? Cara, Patch não me convenceu como anjo caído bad boy. Tem alguma coisa faltando nele... não sei... talvez uma boa dose de indignação angélica? Algo que o mostre como uma criatura sobrenatural deslocada de seu hábitat natural?

Quem vai saber?

O próximo da lista faz parte da série Os Lobos de Mercy Falls, de Maggie Stiefvater - Calafrios é o título desse primeiro volume.



Quando chega o inverno, Grace é atraída pela presença familiar dos lobos que vivem no bosque atrás de sua casa. Ela espera ansiosamente pelo frio desde que fitou pela primeira vez os profundos olhos amarelos de um dos lobos e sobreviveu ao ataque de uma alcatéia. Esses mesmos olhos brilhantes ela encontraria mais tarde em Sam, um rapaz que cresceu vivendo duas vidas - uma normal, sob o sol, e outra no inverno, quando vestia a pele do animal feroz que, certa vez, encontrou aquela garota sem medo. Tudo o que Sam deseja é que Grace o reconheça em sua forma humana, e para isso bastaria que trocassem um único olhar. Mas o tempo de Sam está acabando. Ele não sabe até quando manterá a dupla aparência e quando se tornará um lobo para sempre. Enquanto buscam uma maneira de para torná-lo humano para sempre, têm de enfrentar a incompreensão da cidade, que vê nos lobos um perigo a ser combatido.

Olha, se nada mais de positivo vier desse livro além do fato de apresentar ao leitor Rilke, eu já fico satisfeita. Já disse aqui antes que não sou uma aficionada por poesia, mas Rilke é um daqueles raros poetas que te arrebatam. O fato de nosso lobinho volta e meia declamá-lo contou muitos pontos para esse livro.

Dos três livros dessa lista, este foi o que achei que tinha mais potencial. Eu gostei da forma como a autora narra a história, a cadência das palavras – há qualquer coisa de singelo, de terno, quase poético em sua forma de escrever. Não sei se isso é ou não mérito da tradução – talvez eu tenha de dar uma lida na versão em inglês depois para descobrir isso.

Ainda assim, eu tenho um porém com Calafrios. A autora escolheu escrever seu livro em primeira pessoa, alternando os pontos de vista dos protagonistas Sam e Grace. Eu acredito que ela teria acertado mais se tivesse escrito em terceira pessoa onisciente.

A questão é que quando você escreve em primeira pessoa, você dá vida ao personagem; mais que uma personalidade adivinhada através das entrelinhas do texto, ele tem voz e estilo próprios. Um tom que é apenas seu.

Essa é uma diferença que pode ser muito sutil, mas que deveria estar presente. Cada pessoa tem sua forma de pensar (eu, por exemplo, penso em listas e fazendo conexões bizarras entre coisas que não têm nada a ver. Talvez eu devesse dizer que penso em forma de palavras cruzadas...) e de se expressar.

Se há uma alternância de pontos de vista, também deveria haver uma alternância de vozes – o que não acontece entre os capítulos de Sam e Grace. Eles se expressam da mesma forma, no mesmo tom. Não há qualquer diferença de discurso entre os dois, eles são como uma única entidade.

Uma pena, porque, como eu disse, foi o livro que achei ter mais potencial desse bolo. Mas, bem, tem o segundo volume vindo por aí; talvez ele corrija essa pequena falha... Talvez não...

O último título desse meu cardápio literário é Swoon, de Nina Malkin.



Na pequena cidade de Swoon, Connecticut, todos têm orgulho de suas raízes e traduções sulistas. Recém-chegada de Nova York, Candice se destaca terrivelmente ali. No equinócio de outono, porém, suas habilidades psíquicas secretas se tornam úteis quando a prima, a doce Penélope, é possuída pelo espírito de um jovem da era colonial, injustamente enforcado pela morte de sua noiva. Agora, Candice terá que ajudar sua prima e tentar solucionar o mistério que envolve o belo e atraente rapaz.

Com toda a sinceridade? Eu não consegui chegar a uma conclusão se gostei ou não desse livro. Ele me fez pensar assim, numa cruza entre as séries de TV Gossip Girl e Vampire Diaries.

A criatura sobrenatural da vez é um fantasma que vira golem e detém superpoderes afrodisíacos, que usa para se vingar dos descendentes de seus assassinos – ainda que se tenham passado uns duzentos anos desde a questão e os ditos descendentes, tecnicamente, não tenham nada a ver com o assunto.

Nosso fantasma-golem-quase-pinóquio se chama Sinclair – ou Sin, como ele prefere ser chamado – e é simplesmente diabolicamente charmoso (ênfase no diabolicamente, por favor). Ele é manipulador, mentiroso e sem escrúpulos; capaz de transformar a ‘doce’ prima da protagonista de uma garota caminhando para o padrão Stepford de perfeição para uma ninfomaníaca, incitar orgias na casa do grande jogador de futebol da escola para poder revelar que o mesmo é gay e fazer velhinhos asmáticos enlouquecerem com hormônios, culminando com idosos a flambe.

Apesar disso tudo, nossa heroína – que possui misteriosos poderes psíquicos latentes – não consegue fazer muito mais que débeis reclamações com a criatura, ao mesmo tempo em que suspira por ela. Afinal, pobre coitado, Sin sofreu muito, perdeu a mulher que amava e foi enforcado apesar de ser inocente. Há de se perdoar.

Dice, sinceramente, não sei o que fazer da sua compaixão e capacidade de perdão. Você me parece uma excelente candidata para a próxima Madre Teresa de Calcutá.

Ok, depois de tanto fast-food, acho que preciso de algo com um pouco mais de ‘sustança’. Vou ali fazer um lanchinho. Até a próxima, pessoal...



A Coruja


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Um comentário:

  1. Hum... Você acabou de me deixar feliz... Quando fui trocar meu vale-presente na FNAC, peguei o Sussurro, mas juro para você que fiquei olhando, olhando e não tive coragem de pagar os quase trinta paus skaksaoksoakso (Ao invés disso, peguei o "Os Homens que não amavam as mulheres", que ainda não li... E "Orgulho e Preconceito e Zumbis" - por sua causa).


    Mas se tem uma coleção que eu até me surpreendi e gostei é a "House of The Night", que consegue misturar diversas mitologias. Honestamente eu estava com medo de ser mais uma coleção sobre vampiros (E eu ganhei cinco livros dela, então imagina se eu não gostasse!!!!), mas eu gostei de verdade, a ponto de estar com medo do quinto terminar (O sexto ainda não foi lançado no Brasil). Recomendo!

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