29 de outubro de 2009

Para ler: Os Diários do Vampiro





O corvo se chocou com o alto de um carvalho imenso e a cabeça de Stefan se voltou repentinamente por reflexo. Quando viu que era só um pássaro, relaxou.

Seus olhos caíram na forma branca e flácida em suas mãos e ele sentiu o rosto contorcer de arrependimento. Ele não pretendia matá-lo. Teria caçado alguma coisa maior do que um coelho se soubesse que estava com tanta fome. Mas é claro que era isto que o assustava: jamais saber a intensidade de sua fome, ou o que poderia fazer para aplacá-la. Ele teve sorte por, desta vez, matar só um coelho.

Ele estava embaixo dos antigos carvalhos, a luz do sol infiltrando-se até seu cabelo ondulado. De jeans e camiseta, Stefan Salvatore parecia exatamente um aluno normal do ensino médio.

Mas não era.

(Diários do Vampiro: O Despertar - Lisa Jane Smith)


Alguns de vocês provavelmente já assistiram a série baseada nesse livro, que estreou na Warner semana passada (mas eu já assisti até o sexto episodio, cortesia dos links para download na rede, é claro). Vamos começar então nossa discussão de hoje por um pequeno aviso...

Se você - como eu - estiver assistindo a série e ficou curioso em saber como acaba (já que só tem capítulo novo uma vez por semana e é mais fácil e rápido se for direto à fonte)... esqueça a possibilidade de fazê-lo com os livros. Exceto por alguns pontos, tais como os nomes dos personagens e quem é vampiro ou humano, as duas histórias não têm quase nada em comum.

Feita essa observação, que fique claro que não estou dizendo que a série é uma grande porcaria ou coisa do tipo. Caso não tenham prestado atenção, ela é baseada na obra de Lisa Jane Smith, não é uma 'adaptação' fiel dos livros.

Por cima, a essência da história é a seguinte: temos dois irmãos, ambos vampiros, que, por terem, no passado, se apaixonado pela mesma mulher, se odeiam.

Stefan, que é quem escreve o diário, é torturado por sua natureza, dia após dia lutando contra o desejo de sangue. Ele é pura gentileza, um verdadeiro cavalheiro em cada possível aspecto.

Damon, por sua vez, é instinto e sedução. Cínico, egoísta, ele faz aquilo que quer, sem se importar com as conseqüências, transformando todos ao seu redor em peças dentro do seu jogo.

Ambos se apaixonaram por Katherine, que era uma vampira. Ela, por sua vez, gostava dos dois, de forma que decidiu por transformá-los - a ambos - para que fossem seus companheiros para o resto da eternidade.

Infelizmente, os dois irmãos não gostavam muito da idéia de dividir a namorada, de modo que a história meio que terminou em tragédia. No livro, Katherine se suicida e os dois irmãos se matam... para então acordarem na cripta da família, já transformados.

Anos e anos depois, Stefan, tentando recomeçar a vida (ou não-vida, se formos ensar direitinho), dá de cara com Elena, uma garota que é exatamente a cara de sua amada Katherine.

E, claro, é aí que começam os problemas.

Essa é a linha, por assim dizer, essencial, da história, tanto na série quanto nos livros. De resto, como já disse, são narrativas muito diferentes. Para começar Stefan e Damon são italianos no livro, tendo sido humanos à época renascentista, em Florença. Já na série de TV, ambos são um pouco mais novos - apenas 145 anos de idade - e eram, originalmente, da cidade de Mystic Falls (onde toda a ação ocorre), tendo vivido a Guerra Civil nos EUA (e Katherine morreu queimada na Igreja da cidade, numa das batalhas).

Vou parar por aqui, antes que eu comece a fazer uma lista das diferenças entre ambas as mídias (mas, se quiserem, eu faço depois). Em vez disso, vamos ao que há de importante, o que eu achei de Vampire Diaries.

Já falei um bocado de Lisa Jane Smith aqui no Coruja, e bem antes de começar a sair informações sobre ela aqui no Brasil (até uns três meses atrás, se você digitasse o nome dela no google, praticamente só apareciam links em inglês). Gosto da forma despretensiosa como ela escreve - ela prende nossa atenção, ela nos surpreende e ela nos faz, às vezes, até torcer pelo vilão.

Smith criou muitos bons personagens, especialmente nos nove volumes da série Night World (cujas resenhas vocês podem ler em 01, 02 e 03). Mas eu a achei meio fraca em Vampire Diaries.

Talvez isso se deva ao fato de que li apenas o primeiro livro, e ele termina completamente em aberto. Bem, vou ler o segundo ainda essa semana (minha versão é a em inglês, com os dois primeiros livros num único volume) e talvez me anime mais, até porque Damon realmente não integra muito da história em O Despertar.

A série, contudo, me conquistou, especialmente pelo contraponto na relação entre os irmãos Salvatore. Tive algumas intensas crises de riso. Inesquecível o diálogo de Damon e Caroline no quarto episódio, em que ele aparece folheando Crepúsculo:

Damon: O que essa Bella tem de tão especial? Edward está tão vidrado.

Caroline: Precisa ler o primeiro livro antes. Assim não faz sentido.

Damon: Ah, eu sinto falta da Anne Rice, ela estava tão certa.

Caroline: Por que você não brilha?

Damon: Porque vivo no mundo real, onde vampiros queimam no Sol.

Caroline: É, mas você sai no Sol.

Damon: Tenho um anel. Ele me protege. Longa história.

Caroline: Essas mordidas vão me transformar em uma vampira?

Damon: É um pouco mais complicado que isso. Você tem que se alimentar do meu sangue, então morrer, então se alimentar de um humano. É todo um processo... Esse livro, aliás, está todo errado.

A bem da verdade, há um bom bocado de coisas que a Meyer parece ter tirado diretamente da Smith. Sim, vocês leram certo. Se houve ou não inspiração de uma parte a outra (ou plágio, a depender do ponto de vista), foi da autora de Crepúsculo, porque Vampire Diaries data do início da década de 90 (foi redescoberto agora com a febre vampiresca, mas é quase mais velho que meu irmão).

Quem tiver a curiosidade de ler vai perceber essas certas semelhanças, como na cena em que Stefan demonstra sua força para Elena, de forma a que ela entenda que ele é um caçador, e ela, a presa.

No aspecto vampire angst-ridden, ninguém ganha de Edward Cullen, é claro. O Stefan é bem mais pró-ativo que Edward, ele não fica se comprazendo em sua miséria indefinidamente.

Como eu já disse antes, um dos pontos altos é a relação e o contraste dos irmãos, que têm em comum apenas o amor por Katherine/Elena. Damon pode ser selvagem e totalmente devotado ao seu instinto predador em muitas partes, mas ele também é capaz de demonstrar ternura; da mesma forma que Stefan é capaz de agir no típico pensamento maquiavélico de que os fins justificam os meios.

A série ainda está longe de terminar, seja em sua forma televisiva, seja em livros. Ao término da trilogia original (e, se você quer mesmo saber, Elena se torna vampira ao final do segundo volume e Katherine reaparece viva no terceiro...), diante da insistência dos fãs, a Smith decidiu escrever uma nova trilogia, cujo segundo volume deve chegar em março do ano que vem.

Não sei se me animo muito com essa segunda trilogia... Pelo pouco que li em resumos da história, Elena vira vampira, morre, retorna como anjo, depois desaparece de novo para então voltar como humana, enquanto Stefan sai à caça de uma cura e aparecem uns insetos carnívoros e japoneses e uma raposa kitsune e... hein?

Enfim, a coisa tá meio enrolada e eu não sei se essa imensa mistura dá algo palatável. Mas vamos ver, não é? Quando eu terminar o segundo livro, vou encomendar o outro volume com o final da primeira trilogia e o início da outra.

Até lá... Divirtam-se!

Tricks or Treats?



A Coruja


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