5 de novembro de 2015

180º - Saúde


Olá! Outubro Rosa (MEU MÊS!!!! HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA!!!) acaba de passar, mas fica aqui uma última homenagem ao mês do câncer de mama. O tema do 180º dessa vez é saúde.

Vamos convir que os japoneses são famosos por sua longevidade, dentre outras coisas. De fato, a expectativa de vida para aqueles que já têm 65 anos é de mais vinte anos se você for mulher, e mais 18 anos se for homem. Há alguns anos, vi uma pesquisa que mais de metade da população idosa do Japão já é centenária, e a cada ano esse número aumenta extraordinariamente. Por sinal, acabo de descobrir que o homem mais velho do mundo atualmente tem 112 anos, é japonês e mora na minha cidade: Nagoya.

Muita coisa contribui(u) para essa os habitantes dessas ilhas vivam tanto, e o primeiro fator que vem à mente é a alimentação, pois a culinária japonesa é reconhecida como uma das mais saudáveis do mundo. Só tem um problema com isso... A cozinha nipônica atual é diferente da que se consumia algumas décadas atrás. Ou, melhor dizendo, tem cada vez menos gente cozinhando o que é saudável da alimentação tradicional. Em vez disso, inúmeras frituras e comidas pesadas vêm gradualmente substituindo-as mais leves. Quem mora com os pais ainda tem mais possibilidade de ter uma alimentação menos prejudicial, mas muitas vezes, quando se mora só, consome-se o que é fácil e/ou rápido de fazer, trocando uma alimentação saudável por uma cheia de preservantes, sódio, açúcares etc. Isso acontece em qualquer lugar do mundo, e aconteceu comigo, inclusive, quando comecei a morar só.

É bom lembrar também que os japoneses tradicionalmente saem de casa mais cedo, o que significa que passam a se virar sozinhos antes de seus pares na classe média brasileira, por exemplo. Mesmo que aprendam a cozinhar, nem sempre o fazem, vez que, como já expliquei por aqui antes, o dia deles muitas vezes começa e termina no trabalho. Assim, ao chegar em casa – quando vão para casa –, nem sempre há a energia para cozinhar os diversos pratos que correspondam à necessidade da diversidade alimentar. O que muita gente faz é comprar bento (“marmita”, ou “prato pronto”) na conbini mais próxima... O que já foi comprovado não ser saudável a longo prazo.

Também tem mais um detalhe: frutas no Japão são caras, o que significa que o consumo ideal diário desse grupo alimentar provavelmente não é obtido em muitos casos. A título de exemplo, sem ir às frutarias – onde se encontram as frutas de maior qualidade e preço –, num supermercado qualquer, um melão custa tranquilamente mais de ¥3000 (quase cem reais). Há lugares que vendem no atacado, e, portanto, mais barato, mas é preciso procurar tais locais. As frutas mais baratas são maçãs e bananas, que saem na faixa de ¥100 (uns três reais e cinquenta centavos) cada uma daquela, ou um cacho pequeno deste.

Outro ponto que creio contribuir de alguma forma é a atividade física intensiva que fazem os japoneses quando mais novos. Já comentei antes, mas, em muitas escolas, participar de bukatsus (“clubes extracurriculares”) é obrigatório, e boa parte das opções são de algum esporte ou atividade que exija esforço físico (mas não todos os clubes). Assim, boa parte dos japoneses passam da 5a série do fundamental, ao 2o ano do ensino médio regularmente praticando exercícios, vez que as atividades desses clubes são marcadas pelo menos duas vezes por semana, durando umas 3hs cada vez. Em outras palavras, ao menos nessa época, a saúde deles se explica, mas não sei como perdura depois.

Depois da alimentação, temos os serviços médicos, como clínicas e hospitais. A primeira coisa a ser mencionada aqui é que é obrigatório fazer parte de algum tipo de seguro de saúde, e, por consequência, pagá-lo. Uma opção é o Seguro de Saúde Japonês, que é oferecido apenas aos empregados de empresas japonesas, e por cuja papelada são essas que se responsabilizam. O mais comum, entretanto, para estrangeiros que não têm emprego fixo no Japão, é o Seguro de Saúde Nacional. Funciona da seguinte forma: o indivíduo paga um certo valor todo mês, a depender do quanto ganha e de sua idade. Não sei se legalmente é equivalente a um imposto, mas, por hora, assim nós o consideraremos.

Assim, esses “impostos” estando em dia, recebe-se em casa, ou na ‘Secretaria do Bairro’ mais próxima, o cartão do seguro de saúde do respectivo ano fiscal. Esse é um dos documentos mais importantes no Japão. De posse desse comprovante de adesão ao sistema de saúde, sempre que se for a alguma clínica ou hospital, deve-se apresentá-lo (e ele será exigido). É inclusive do interesse do paciente tê-lo em mãos, vez que, com ele, paga-se apenas 30% do valor total da consulta/exame/tratamento etc. Para medicamentos, aparentemente só não se aplica a remédios comprados fora do hospital ou da respectiva clínica, mas não sei se há exceções.

Resumindo, isso significa que 70% dos gastos de saúde são subsidiados pelo governo, o que não é de forma alguma uma taxa baixa. Não sei por quanto tempo poderão manter esse sistema, devido à atual redução da população jovem/trabalhadora e simultâneo aumento da população pertencente à 3ª idade, mas é assim que funciona o sistema aqui. Não é tudo gratuito, como funciona o internacionalmente premiado SUS no Brasil (que é um programa espetacular, diga-se de passagem, embora me lembre um pouco a USSR, e, portanto, não sei se é sustentável a longo prazo, especialmente com essa nova crise).

Adiante, ressalto nesse ponto que a medicina japonesa é de ponta, e é também uma das melhores do mundo. Até aí, creio que não tenha dito nada de novo. A ressalva é que essa medicina é direcionada aos japoneses, os quais têm metabolismos bem diferentes dos nossos, a começar pela concentração dos remédios vendidos por aqui. No Brasil, eu já conheço várias reclamações de farmacêuticos e médicos, principalmente os homeopatas, de que remédios de grandes empresas são muito fortes. Porém, apesar dessas alegações, continuam sendo vendidos tal e qual. Já, aqui, a medicação é bem mais fraca, consequentemente não tendo o mesmo efeito em estrangeiros, ao passo que os japoneses precisam de doses bem menores que as nossas para alcançar o efeito almejado.

Admito, todavia, que, comigo, não houve problema nenhum, vez que, embora eu tome vitaminas diversas desde sempre, remédios eu tomo pouquíssimos. Por outro lado, vários colegas estrangeiros meus já comentaram que precisam tomar o dobro ou mais da dose originalmente recomendada pelo médico japonês, vez que a primeira receita não teve efeito algum.

Creio que tentar introduzir doses mais fracas para as próximas gerações no Brasil (e no mundo) seja um bom passo. Não acredito que os japoneses tenham errado nessa medida. Reduzir a dependência de remédios é uma reivindicação continuamente feita por diversos profissionais de saúde.

Curiosamente, minha recente visita à Rússia – mais precisamente, à Sibéria – permitiu-me ver o processo inverso. Tradicionalmente os remédios daquele país, conforme me informou uma amiga siberiana, são naturais, baratíssimos e de efeito rápido. Muitas vezes são tomados como chá. Porém, a indústria farmacêutica de fora vem penetrando mais e mais o mercado russo, e minha colega descreveu-me um fenômeno reprovável que lá vem ocorrendo: em vez de oferecer os remédios tradicionais aos mais velhos e aposentados, cada vez mais as farmácias os têm enganado, alegando que a versão importada é melhor e que é só essa que têm disponível. O detalhe é que continuam vendendo os remédios tradicionais também, basta saber que eles existem e pedir no balcão.

Lamentável.

Voltando ao Japão, contudo, é necessário apresentar o contraponto: os japoneses adoecem muito fácil. Não sei por que, mas, assim como é retratado nos animes, qualquer chuvinha que peguem, já correm o risco de griparem. E como eu também já mencionei antes, não é fácil tirar um dia de folga, mesmo doente, o que também explica porque tantos personagens vão trabalhar ou cumprir obrigações, mesmo ardendo em febre. Isso significa, portanto, que, mesmo doentes, os japoneses vão trabalhar/estudar. A diferença é que colocam uma máscara para cobrir o rosto, para evitar espalhar a doença.

Essa mesma máscara é usada por gente alérgica a pólen – e como tem japoneses com kafunshou!. Quando chega perto da estação das cerejeiras desabrocharem (março e abril), pessoas cobrindo nariz e boca com esse utensílio aparecem em grande número. Aliás, é tão comum – tanto por ética, quando se está doente, quanto para prevenção – que há inclusive versões estilizadas à venda, como as da imagem abaixo:


Mas há mais algo a ser ressaltado quanto à cultura da saúde daqui. Como mencionei acima, não se pode faltar ao trabalho ou escola só por uma gripe ou febre qualquer. Além disso, há o problema dos horários de funcionamento das clínicas, os quais, relembrando, são reduzidos, muitas vezes abrindo apenas das 10:00hs às 16:00hs, ou menos. Claro que algumas funcionam em outros horários, mas, pelo que observei por aqui, não é a maioria. No caso de hospitais, onde tudo é mais caro se comparado às clínicas, após 17:00hs, é considerado atendimento fora do horário comercial e, portanto, emergência – e cobrado como tal... Ou seja, se ficar doente ou sofrer acidente depois das cinco da tarde, prepare-se para pagar mais caro se for ao hospital.

Escrevendo essa edição do 180º, porém, caiu-me a ficha de que não vi muito(a)s jovens nas clínicas – exceto por grávidas, ou mães acompanhando filhos. E isso me parece relacionado à enorme incidência de alguns cânceres no Japão, principalmente de estômago, de cólon, de pulmão, de colo de útero, de fígado e de pâncreas. O de estômago, inclusive dá ao Japão título mundial em quantidade de casos.

Há diversas explicações para vários desses tipos, como o stress acentuado que sofre a classe trabalhadora e os estudantes, provocando úlceras (a Rainha é vítima também), ou a alta quantidade de fumantes no Japão (gente, é um horror!). O de fígado eu não li a respeito, mas não creio que seja desligado da quantidade exacerbada de álcool que bebem os japoneses, aliada à baixa produção, pelos asiáticos em geral, da enzima que quebra o álcool.

Lulu: Ísis, interrompendo rapidinho só para dizer que não tenho úlcera. Eu tenho hoje em dia uma gastrite leve, que na verdade começou após um tratamento com antibióticos para tratar de uma bactéria filha da mãe que costuma viver no estômago. A longo prazo, a bactéria era um risco, mas o tratamento foi bem problemático... Talvez no Japão eu não precisasse ter entrado no antibiótico... Mas, bem, hoje em dia estamos sob controle aqui...

Eu vou apresentar, contudo, uma das maiores razões de alguns desses cânceres, principalmente o de colo de útero: falta de prevenção. Não é tão diferente em outras partes do mundo, tanto que, por exemplo, há uma campanha mundial pela prevenção do câncer de mama, em homenagem à qual se criou o Outubro Rosa.

A faixa rosa com um único laço é o símbolo da campanha contra o câncer de mama. Foi, em parte, inspirado nesse movimento que criamos o Outubro Rosa aqui no Coruja esse ano

Entretanto, japoneses tendem a ser mais introspectivos, e as japonesas, especificamente, são tradicionalmente criadas como “mocinhas”. Há uma certa quebra disso nas gerações mais novas, mas ainda predomina a doutrina do “mulheres devem agir de forma X, e homens deve agir de forma Y” (vide aqui). Eu creio que seja com base nisso que não haja o costume de ir a um(a) ginecologista, afora o puxado ritmo de trabalho/estudos que não permite folgar nem quando se está doente, e os horários reduzidos de muitas clínicas. Isso tudo leva a um resultado crucial, que é a falta de prevenção de tais cânceres. Já ouvi isso de japonesas, que assim me confessaram, e ficaram atônitas quando informei que, no Brasil, aconselha-se ir pelo menos uma vez por ano ao ginecologista, a partir do momento em que se é uma adulta.

Curiosamente, o câncer de próstata no Japão tem uma das incidências mais baixas do mundo, o que me foi uma surpresa, porque tenho certeza que não fazem prevenção também. Parece que o motivo disso está ligado à alimentação, a qual contém muitos vegetais e peixe, e pouca carne vermelha (essa última é mentira, pelo menos aqui na Universidade de Nagoya).

Pelo sim, pelo não, voltamos ao primeiro item, concluindo o panorama da saúde. Até a próxima... que será muito em breve!


A Elefanta


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