7 de julho de 2015

Atual Conjuntura: Tragédia à Grega


Ninguém escreve tragédias tão bem quanto os gregos – que, ao final das contas inventaram o gênero. É difícil superar o inexorável destino de Édipo, o tormento de Prometeu, a devoção suicida de Antígona ou o ciúme sanguinário de Medéia.

Nos últimos anos, a Grécia vive uma crise digna de suas grandes tragédias, com os outros países do bloco europeu fazendo às vezes de panteão irascível exigindo tributos em sangue. No meio das trocas de acusações e lances de extraordinária audácia política, é difícil entender como a situação chegou a esse ponto - e acabamos perdendo o foco querendo nomear vilões para serem crucificados enquanto se alastram projeções cada vez mais alarmistas.

A questão é que entender como chegamos a esse ponto é fundamental para decidir como seguir daqui em diante. Em outras palavras, vamos começar do primeiro ato em vez de querer ir direto para o fechar das cortinas, ok?

Como muitos outros países europeus, a Grécia recebeu uma grande injeção de recursos após o final da Segunda Guerra Mundial, graças ao Plano Marshall, instituído pelos Estados Unidos para impedir o crescimento do comunismo no Velho Continente. Entre as décadas de 50 e 70, o país teve o seu ‘milagre econômico’, com grandes taxas de crescimento e produção industrial. O turismo tornou-se uma de suas principais atividades e, com isso, o setor de serviços também cresceu.

Então veio o choque dos preços de combustível, em 1973 – o primeiro de uma série que ficou conhecida como Crise do Petróleo. De um dia para o outro, a economia grega foi do céu ao inferno: desemprego, inflação alta, recessão. Ela mal tinha começado a se recuperar quando veio o segundo choque, em 79. O país, que após o fim do governo militar, fora governado pelos conservadores do New Democracy, decidiu que era hora de experimentar a esquerda socialista do PASOK – Movimento Socialista Pan-Helênico.

A partir de 81, quando o PASOK assumiu o governo, uma série de políticas populistas foi posta em prática. A máquina governamental inchou-se de novos servidores, houve grandes aumentos em salários e pensões. Ao mesmo tempo, a produção industrial interna simplesmente parou de crescer.

Questão de lógica aqui: se você aumenta o poder de consumo, mas não investe na produção, o que acontece? Primeiro, você passa a importar mais – desequilibrando sua balança comercial, já que você também está exportando bem menos vez que não consegue abastecer nem o seu próprio mercado. Os produtos importados oferecem uma concorrência desleal aos produtos nacionais, então o pouco que está sendo produzido não é consumido. A indústria perde, por consequência paga menos impostos e o Estado, que depende dos impostos para pagar suas contas, preocupa-se apenas em aumentar mais e mais sua folha de pagamento.

Tome-se ainda em consideração que o funcionalismo público funcionava num misto de nepotismo e patronato: leva o cargo quem paga mais. Escândalos de corrupção estouraram, chegando a envolver o primeiro-ministro Papandreou. A população foi às ruas para protestar e, em 89, o PASOK perdeu as eleições para os conservadores.

Os políticos do New Democracy tentaram então realizar reformas para colocar a casa e a economia em ordem. Mas a farra fiscal de quase uma década deixara marcas e as medidas necessárias para reequilibrar a economia eram (como sempre são) bastante impopulares.

E assim termina o primeiro ato de nossa peça: à beira de um precipício, indeciso sobre o que virá a seguir.

Talvez a Grécia tivesse conseguido se reerguer, forçada pelas circunstâncias a uma reforma radical de seu sistema político e gestão pública. Talvez não. O fato é que, ao assinar em 92 o Tratado de Maastricht, que criou a União Europeia, ela ganhou fôlego e abriu assim o segundo ato da história.

Através do tratado, a Grécia teve acesso a empréstimos mais baratos – através do Banco Europeu, para que sua economia pudesse alcançar a dos outros países do bloco; com investidores privados, porque estes se baseavam na confiabilidade do novo sistema.

O primeiro problema ocorreu porque, com o fim de barreiras alfandegárias, a indústria grega, já bastante maltratada pelas crises de anos anteriores, não conseguia concorrer com o que vinha dos seus parceiros. Suas exportações também eram menos competitivas, concentrando-se em produtos agrícolas.

Temos então a má gestão de recursos, um problema que, como já vimos, vinha de longa data. Em vez de procurar quitar débitos, investir em infraestrutura e assim ganhar competitividade no cenário europeu, o governo voltou aos mesmos vícios que antes o tinham levado à beira da bancarrota.

Por fim, as falhas de administração e escândalos de corrupção tiveram como reação popular sonegação de impostos e evasão de divisas. Considerando que a receita estatal tem por origem os impostos recolhidos, é fácil perceber o quanto a Grécia se encontrava vulnerável.

Em resumo, não havia qualquer planejamento de longo prazo. O Estado não tinha recursos, então pegava dinheiro emprestado. Gastava onde não devia e sem arrecadar. Parte do dinheiro se perdia em burocracia e corrupção. E assim continuava, num círculo vicioso.

Em 2000, a Grécia foi aceita na União Econômica e Monetária da União Europeia – começando a utilizar o euro a partir de 2001. Teoricamente, o país cumprira os critérios para entrar no acordo – inflação, débito público, déficit da balança comercial, todos controlados. Porém, ao ser realizada uma auditoria em 2004, descobriu-se que os dados não batiam. A justificativa é que houvera uma mudança nas práticas de contabilidade do governo exatamente no ano em que o país seria avaliado para entrar na zona do Euro.

Essa não foi uma desculpa muito bem deglutida e foi lembrada por investidores mais tarde, quando a crise internacional estourou em 2009 – especialmente porque neste momento ficou claro que o governo grego escondera e manipulara informações sobre seus gastos e investimentos.

Vulnerável por seus problemas internos e vista com desconfiança pelos investidores, a Grécia se submeteu a um primeiro pacote de austeridade em 2010. Recebeu novos empréstimos e, em troca, comprometeu-se a fazer cortes no orçamento e aumentar impostos.

A situação não melhorou. Houve necessidade de novos pacotes. Mais cortes, e, por resultado, resistência do povo. Sem poder investir para voltar a crescer, a Grécia afundou na recessão.

São cinco anos de arrocho sem conseguir terminar o ajuste fiscal e atender aos credores. A situação chegou ao insustentável, com mais de 30% da população abaixo do nível de pobreza.

É nesse contexto que a Syriza, um partido de esquerda relativamente novo, ganhou as eleições gerais em janeiro, com a promessa de não aceitar ainda mais imposições de cortes e reformas. Eis então que, agora, após as negociações com os credores falharem, Alexis Tsipras, o atual primeiro-ministro convoca um referendo para saber se os gregos aceitam ou não mais um pacote de austeridade.

Digam o que quiserem, mas a decisão de convocar esse referendo foi um extraordinário lance de astúcia política. O que quer que aconteça desse momento em diante, Tsipras pode se eximir da responsabilidade dizendo que cumpriu a exata vontade do povo.

Mais que isso, com o referendo, Tsipras deu a Grécia um inédito protagonismo em toda essa crise. Até aqui, o país era apenas o personagem a quem as coisas aconteciam, forçado a engolir qualquer imposição dos credores. Ao votar ‘não’, os gregos acabaram com o blefe dos credores.

Claro que isso só é possível porque a situação chegou a um ponto insustentável e a Grécia não tem mais o que perder. O que os credores podem fazer então? Eles não podem simplesmente pedir a penhora dos bens e sair com o Partenon nas costas para vender em leilão.

O interesse dos credores é receber o dinheiro que investiram de volta. Se a Grécia quebrar, eles também perdem. E deixar o país à míngua veria o retorno da crise internacional. Eles terão que encontrar uma maneira de fazer um acordo – e esse acordo poderá ser mais vantajoso para a Grécia.

Começa agora o terceiro ato e há vários possíveis finais para a história.

A crise grega pode bem significar o fim do euro – talvez não de imediato, mas a longo prazo. François Hollande já fez comentários a respeito e o exemplo inglês também costuma ser levado em consideração. À médio prazo, a Grécia poderia sair do bloco para não servir de modelo a países como Portugal e Espanha, que também digladiam-se com pacotes de austeridade.

O que quer que aconteça daqui por diante, a Grécia pode usar o fato de que ‘chegou ao fundo do poço’ para fazer as reformas de que tanto precisa. Ou pode continuar no mesmo caminho e quem sabe onde irá parar?

Aguardemos o abrir das cortinas.


A Coruja

p.s.: decidi que meus posts sobre política, de agora em diante, virão sob o título de "Atual Conjuntura" em vez de "Conversas Sobre o Tempo". Primeiro, porque isso me dá uma boa desculpa para fazer essas análises com mais frequência - sim, eu gosto de debater política. Segundo, porque eu não podia perder a piada do samba do crioulo doido...


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