7 de outubro de 2011

Na sua estante: em busca do banheiro perdido





#085: Em Busca do Banheiro Perdido (ou ‘meu reino por uma privada’)
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- Ah, não, não é possível, não pode ser...

Àquela altura, Beatriz talvez tivesse começado a chorar, não fosse o fato de ter de usar toda a sua concentração e força de vontade para continuar se dominando. Precisava manter-se em pé, caminhando, em movimento, sempre em movimento para não correr o risco de perder o controle sobre a bexiga.

- Não é possível que não exista um único banheiro nessa faculdade que tenha mínimas condições de funcionamento!

Ela começara sua peregrinação pelo departamento de história. O prédio de ciências humanas e sociais, contudo, estava em reforma, e todos os registros de água estavam fechados. Suas paradas seguintes foram a biblioteca central, cujos banheiros estavam interditados e o restaurante universitário, que estava sem papel.

De lá até o próximo prédio – dos cursos de artes e comunicação – eram dois quarteirões entre jardins e um riacho que ia desembocar no lago próximo ao prédio do hospital-escola da turma de medicina. Não muito auspicioso, mas não era como se tivesse muita opção.

Entre correndo e pulando, ela conseguiu chegar, mordendo os lábios e quase explodindo, ao seu destino final, entrando no banheiro quase derrapando para então descobrir que todas as portas tinham os trincos quebrados.

- Eu não sei o que é pior; se o fato de os estudantes terem feito isso ou se a faculdade não cuidar do problema. – uma voz observou simpaticamente às suas costas.

Beatriz se virou, dando de cara com uma garota um pouco mais alta que ela, de cabelos ruivos cheios e – detalhe mais importante de todos quando você está num banheiro cujas portas não se fecham – uma máquina fotográfica a tiracolo.

- Hum... – Beatriz apenas resmungou, incapaz de fazer qualquer discurso inteligível àquela altura.

- Eu posso segurar a porta para você se quiser. – a desconhecida ofereceu.

Bia respirou fundo. Quais eram exatamente suas alternativas? Arriscar-se a ser fotografada por uma maluca no banheiro ou fazer xixi nas calças. O que era pior no momento?

- Eu... Hã...

- Aqui... – a ruiva começou a empurrá-la para um dos reservados antes que ela pudesse dar uma resposta, para em seguida lhe dar as costas, fechando a porta com a mão no alto para segurá-la.

Uma vez que a decisão fora tirada de suas mãos e, com toda a sinceridade, àquela altura Beatriz não se importasse muito com o que aconteceria a seguir, ela apenas se dispôs a obedecer e resolver seu próprio problema.

Cinco minutos depois, refeita e com todas as sinapses funcionando em ordem, Bia se viu novamente diante de sua salvadora.

- Desculpe pela falta de articulação antes. – ela deu um meio sorriso – Eu estava um tanto fora de mim. Tive de caminhar por quase meio campus para encontrar um banheiro e aí levei um susto com a sua máquina fotográfica.

- Você achou que eu fosse alguma espécie de voyeur tarada?

- Bem... considerando que eu não te conheço e você simplesmente apareceu aqui já praticamente me empurrando... – Bia deu de ombros, estendendo a mão – Meu nome é Beatriz a propósito.

A ruiva sorriu abertamente.

- Júlia. Tô escrevendo uma matéria sobre a odisséia dos banheiros da faculdade. Acho que fica meio óbvio que sou de jornalismo, não? Eu apertaria sua mão, mas...

- Ah, certo. – Bia sentiu-se corar enquanto abaixava o braço, já se dirigindo à pia – Ao menos aqui tem água. Eu faço história, lá no meu prédio estamos com todos os registros fechados.

- É um problema geral. – Júlia assentiu – Você se importaria se eu te entrevistasse?

- Contanto que este começo embaraçoso não seja citado... – Bia terminou de lavar as mãos – Quer dizer, você não precisa colocar nada do tipo ‘meu reino por uma privada’, não é?

A ruiva riu.

- Sabe que essa daria uma boa manchete?

Bia suspirou.

- No que eu fui me meter...



A Coruja


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