30 de setembro de 2011

Na sua estante: os manuscritos do mar morto






#084: Os Manuscritos do Mar Morto
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- Bia... você está gostando desse Dante?

Era inevitável que aquela pergunta surgisse em algum momento após sua confissão. Beatriz a estivera esperando, para ser sincera, ainda que não se sentisse suficientemente preparada para respondê-la. Ao menos, não da forma como Sofia gostaria que ela respondesse, com um simples sim ou não, direto ao ponto.

- Eu gosto da... da idéia de toda essa situação. – Beatriz começou – A idéia platônica de um amor cortês medieval alimentado com versos simples e pequenas mostras de consideração. Gosto da forma como me sinto, como ele me faz sentir. Mas não acho que esteja apaixonada.

Sofia observou-a com atenção, cruzando os braços por cima da mesa.

- Você acha?

Beatriz deu de ombros.

- Falta alguma coisa.

- Um rosto e um nome, para começo de conversa. Um nome verdadeiro.

- Você não tem como saber se Dante não é o nome verdadeiro dele.

- Você não conhece ninguém chamado Dante ou já teria matado a charada e acho que já chegamos à conclusão de quem quer que seja essa pessoa, é alguém que te conhece e que você conhece. E Dante pode ser um nome ‘dela’ também, já pensou nisso?

A caçula estreitou os olhos.

- Na verdade, essa possibilidade não tinha me passado pela cabeça...

- É, eu me pergunto o que tem se passado na sua cabeça, considerando que ainda não chamou a polícia nem nada do tipo.

Dessa feita, Bia revirou os olhos.

- Sério, Sofia, se isso fosse trabalho de algum tipo de psicopata, não acho que ele teria me dado tantas provas e pistas para a polícia seguir, nem tanto tempo para que eu espalhasse a história por aí. Teria marcado um encontro no primeiro bilhete para dez minutos depois de eu recebe-lo, contando com minha curiosidade para me atrair para algum ermo escuro e fazer... o que quer que psicopatas medievalistas com interesse no primeiro período do Renascimento fazem com suas vítimas.

Sofia arqueou a sobrancelha.

- Não estou achando graça.

- Minha mãe achou. E foi bem mais racional sobre o assunto do que você está sendo. E olhe que você costuma se gabar de ser a pessoa mais racional da minha família.

Isso desarmou a musicista.

- A tia sabe?

- Sabe. E, como pode ver, não estou andando com escolta armada.

- Quem está precisando de escolta armada? Beatriz? – a voz de André as interrompeu da entrada da cozinha – Só se for para defender o resto do mundo dela, não é?

- Haha, tô morrendo de rir. – Bia retrucou, encarando o irmão enquanto ele passava por elas até a geladeira.

- Eu sei, sou muito engraçado. – ele respondeu com um sorriso cretino, servindo-se de um copo d’água – Uma pena que para ganhar dinheiro como comediante dê tanto trabalho.

- É, ta bom, dá para dar o fora?

André olhou um tanto desconfiado para a irmã, antes de dar de ombros, voltando-se para Sofia, que ainda tentava se recuperar do último comentário da amiga.

- Minha irmã me ama. Ela não vive sem mim, percebe?

- ANDRÉ!

- Certo, certo, tô voltando para meu covil, podem voltar às fofocas. – ele balançou a cabeça, enquanto sumia de novo pela porta, resmungando consigo mesmo sobre irmãs mandonas.

Beatriz esperou o irmão desaparecer pelo corredor para virar-se novamente para Sofia, apoiando os cotovelos sobre a mesa e o queixo sobre as mãos cruzadas.

- Ninguém está me esperando na esquina com um cutelo, Sofia. Se fosse para acontecer algo... mas não vai acontecer. Na verdade, não acredito realmente que algum dia eu venha a saber quem é o autor dessas cartas.

- Não haveria propósito algum nessas cartas se essa pessoa não estivesse planejando se revelar. – Sofia retrucou afinal.

- Isso é porque você está pensando com a mente prática de uma garota do século XXI que não tem nenhuma noção do amor românticos estilo bardo medieval. – Beatriz contra-atacou – Os poemas falam de resignação, perda, do consolo de observar de longe. O nome, a situação, nada foi escolhido por acaso. Sofia, eu penso, investigo e destrincho isso dezenas de vezes toda vez que recebo um novo bilhete. E você pode me achar ingênua, o que não discordo totalmente, mas sou uma futura medievalista e posso perceber o quanto tudo isso é característico de um ideal romântico que é apenas isso: um ideal.

- Desculpa, Bia, mas eu não consigo ver porque alguém investiria tanto de si e tanto tempo numa relação fadada a terminar em brancas nuvens.

- É, eu também não entendo essa parte muito bem, mas estou em processo de desenvolver alguma teoria. – Bia coçou a ponta do nariz, pensativa – Talvez... talvez se ele tivesse se revelado antes, eu poderia me acreditar apaixonada pelo autor das cartas. E teria quebrado a cara, porque, realmente, a coisa não vai além de Platão. É o mito da caverna. Dante é intelectualmente muito estimulante.

Sofia sentiu o queixo cair ao compreender afinal o que significava todas as baboseiras que Beatriz falara – e continuava falando. E a amiga a acusara de não ser romântica? Bom Deus, Beatriz estava completamente iludida!

Agora ela podia perceber que Bia nunca encarara toda aquela situação a sério. Gostava, como dissera antes, da idéia, do princípio de ser objeto de uma paixão – mas no meio do caminho ela perdera qualquer noção do sentimento imbuído naquelas cartas, em vez disso dissecando-as como documentos históricos!

Céus, ela agora sentia pena desse pobre ‘Dante’, cujos esforços em se tornar suficientemente interessante para uma maluca como sua amiga o tinham transformado nos Manuscritos do Mar Morto! O que Beatriz interpretava como um intricado jogo de palavras e significantes nada mais deveria esconder que alguém dolorosamente tímido, que só encontrara aquela forma de demonstrar sua afeição e que teria o coração triturado se algum dia arranjasse coragem suficiente para se declarar pessoalmente.

E o pior de tudo é que Beatriz sequer perceberia o que estaria fazendo quando isso acontecesse!

Tivesse ele agarrado Bia de uma vez, teria sido mais efetivo. Agora, a pobre alma não tinha qualquer chance; fora relegado a um conceito filosófico.

E ela se preocupara com Beatriz? Ela tinha de se preocupar é com os pobres incautos que caíam no caminho de Bia e acabavam por se tornar vítimas de seus olhos de corça assustada!

Platão! Bom Deus! Como é que Beatriz conseguira distorcer tão completamente toda a situação?



A Coruja


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