sexta-feira, 22 de abril de 2011

Na sua estante: o correspondente de Beatriz





#060: O Correspondente de Beatriz
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- Como eu disse antes, não é exatamente um grande romance épico. E você nunca perguntou, é claro. – ela completou – Agora, sua vez. Por que justo hoje quis ouvir toda essa história?

Beatriz respirou fundo.


- Começaram com pequenas notas dentro do meu caderno. Isso já faz uns meses. Desde o ano passado. – a menina iniciou – Citações. Gracejos afetuosos. Cumprimentos. Pouco tempo depois foram os poemas. Alguns eu conhecia, outros pareciam ter sido escritos por alguém que realmente me conhecia. Comecei a vigiar minhas coisas para descobrir quem é que colocava aqueles papéis no meio delas. Então... vieram as cartas, pelo correio. Flores secas prensadas, bombons, conchinhas. Pequenas coisas.

Tinham chegado à locadora. A mãe estacionou, desligando o carro para em seguida voltar-se para a ela.

- Você não sabe quem é?

Beatriz meneou a cabeça.

- Não. Não faço nem idéia.

A mulher balançou a cabeça.

- Não sei se gosto disso, Beatriz.

- Já faz meses, mãe. – ela respondeu – Eu não acho que quem esteja por trás disso queira me fazer algum mal. Ele nunca... nunca passou dos limites. Todas as mensagens são muito... bem, muito ternas. Não há nada de inapropriado nelas. Acho que, quem quer que esteja por trás delas, é apenas alguém muito tímido.

- Ainda assim... – a mais velha cruzou os braços.

- Ele assina todas as cartas dele como Dante.

A mãe piscou os olhos.

- Dante? Como em Dante Alighieri? O Dante que era apaixonado por Beatrice?

- Creio que é esse, sim.

- Bem, pelo menos, seja quem for, é alguém suficientemente inteligente para usar tal tipo de coincidência. E o amor de Dante por Beatrice sempre foi platônico. – ela apoiou o cotovelo sobre o volante, depositando o rosto sobre a mão em concha – Não que isso me deixe mais tranqüila, claro. Não gosto da idéia de que minha filha tenha algum tipo de ‘stalker’.

- Acho que a expressão mais acertada é ‘admirador secreto’, mãe.

- Seja como for...

- E eu não contei isso para você ficar preocupada com minha segurança ou coisa do tipo.

- Eu sou mãe, Bia. – ela sorriu – Faz parte da descrição do trabalho ‘ficar preocupada’. De qualquer maneira, o que está incomodando você?

A caçula suspirou, cerrando os olhos por um breve momento ao mesmo tempo em que encostava a cabeça à janela.

- Eu fiquei... lisonjeada, a princípio. Com a idéia de ter um admirador secreto, quero dizer. Depois fiquei obcecada com descobrir a identidade desse Dante. – ela deu um meio sorriso nesse ponto – Tentei descobrir pelas digitais. Espalhei pó de grafite em cima de todas as cartas.

- É, você não nega de quem é filha. – a mãe também riu, balançando a cabeça de novo – Alguma sorte?

- Fora a sujeira, a única coisa que consegui identificar foi minha própria digital. De toda forma, depois de um tempo, isso parou de importar tanto. Embora eu ainda queira saber quem é.

- O que importa agora então?

Nesse ponto, a expressão de Beatriz ficou mais séria e ela se aprumou na cadeira, respirando fundo.

- Eu acho que estou me apaixonando.

A última palavra saiu quase num sussurro. Por alguns instantes, as duas permaneceram em silêncio, Beatriz observando as mãos cruzadas sobre o colo e a mãe encarando-a atentamente. Finalmente, a mulher suspirou.

- Eu gostaria que existisse um curso que nos ensinasse o que falar em momentos como esse.

Beatriz riu fraquinho.

- Tudo bem, mãe. Eu só... acho que queria desabafar.

- Não, esse é um momento importante, um momento do qual toda mãe quer fazer parte. Mas, sendo bastante sincera, eu esperava que demorasse um pouco mais. – ela sorriu, passando uma mão pelos cabelos da filha – Por mais clichê que possa soar, pais nunca percebem que os filhos cresceram. Eles sempre os imaginam pequenos, debaixo de suas asas.

- Eu gosto quando estou debaixo da sua asa, mãe.

- Embora esse clichê me deixe com a imagem mental de uma galinha gigante. – ela acrescentou.

- MÃE!

- Ok, ok, vou ficar quieta. – a mulher riu – Não fiquei assim.

Bia revirou os olhos.

- A senhora, às vezes... De toda forma... a senhora acha estranho que eu me apaixone por alguém que não conheço?

- Não. Não estranho. Pelo contrário, não? Era algo mais ou menos esperado.

- Como assim?

- Seja quem for esse rapaz, Bia, ele prestou atenção a você. Aos detalhes. Ele sabia como te atingir. Sabia que você não deixaria escapar a referência literária. Ele observou o suficiente para saber que você não se deixaria levar por bajulações adocicadas. É claro que tal demonstração de interesse acabaria por balançá-la. – ela sorriu mais vez, de forma afetuosa – É romântico... algo como você vê nos livros. Mas, até que você o conheça de verdade, Bia; conheça além de suas palavras, o seu coração, você estará apaixonada por um personagem, alguém que existe apenas numa história. – ela fez uma careta – Acho que acabo de soar como um cartão da Hallmark.

Beatriz assentiu.

- Sim, um daqueles cartões clichê sobre o amor e apaixonados. Mas a senhora está certa. – ela sorriu – Obrigada, mãe. Acho que era exatamente isso que eu precisava ouvir.

- Bem, fico feliz que não tenha estragado o momento ao final das contas. Agora... – ela acenou com a cabeça – Acho que é hora de irmos fazer o que viemos fazer, não? Daqui a pouco seu pai e André estão ligando, preocupados, achando que fomos seqüestradas. Ou talvez agradecendo aos céus por termos sido seqüestradas.

- Acho que eles estão agradecendo. – Beatriz riu – Bem, o que estamos esperando?

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A Coruja

Um comentário:

  1. Feliz páscoa para você!! Espero que tenha gostado do seu ovo de chocolate porque gostei muito da sua palha italiana!!
    Nos vemos em breve!!

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