23 de setembro de 2011

Na sua estante: confidências





#083: Confidências
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- Ei, Sofia... posso te mostrar uma coisa?

A musicista levantou os olhos do livro que estivera estudando para encarar a amiga, do lado oposto da mesa, parecendo muito nervosa e perdida. Tinham estado a tarde toda estudando – era período de provas afinal. Sofia deixara a prima na aula de desenho e seguira para o apartamento dos amigos, que era mais próximo, onde deveria ficar até dar a hora de ir buscar a prima de novo para ir para casa.

André estava trancado no quarto, enfiado em seus códigos, e elas tinham eleito a cozinha – mais clara e arejada – para esparramarem os próprios livros.

Franzindo um pouco a testa, Sofia apenas assentiu, sem ter certeza de que tipo de coisa Bia queria lhe mostrar.

A caçula tirou uma folha de papel azulada de dentro do caderno, entregando-a silenciosamente para ela. Desta feita, Sofia sentiu-se segurar a respiração. Ela já tinha visto uma folha como aquela antes.

- Você disse que podíamos conversar sobre isso... quando eu quisesse.

Sofia apenas balançou a cabeça em afirmativa enquanto desdobrava o papel – uma simples folha de caderno, versos numa letra de forma quase desenhada. Por alguns instantes, ela apenas se deixou envolver pelo ritmo das palavras e a idéia do romance, antes que preocupação e cuidado retornassem com força.

- Bia... quem é esse Dante?

A outra respirou fundo.

- Eu não sei. É um... eu acho que é um pseudônimo. Uma brincadeira. Dante, como em Dante Alighieri, o poeta, que amava uma Beatrice. Cada uma das cartas dele é uma visita à Divina Comédia, então...

- Peraí... você está me dizendo que... está me dizendo que está se correspondendo com alguém que você não sabe quem é há mais de um ano? Por que da outra vez... Bia! Isso pode ser perigoso!

- Eu já tive essa conversa com minha mãe, Sofia... – Beatriz suspirou – E eu não estou me “correspondendo”. As cartas aparecem no meio do meu material de vez em quando, não sempre. Eu acredito que seja alguém da faculdade... e pela própria escolha dele em ser Dante... não acho que vá deixar algum dia de ser algo platônico. Dante nunca se declarou para Beatrice.

- Bia, você está tentando interpretar isso sob o prisma da história de um autor renascentista e, sério, só mesmo estudantes de História para pegar a referência e achar isso romântico, mas pelo amor de Deus! Se essa pessoa tem acesso ao seu material, é porque está perto de você e poderia te fazer mal se quisesse. Poderia...

- Sofia, calma, ok? Eu não te mostrei isso para você surtar pensando que eu tenho um psicopata como admirador secreto. E, ainda que eu possa admitir que eu seja meio distraída, eu sobrevivi até aqui, mesmo quando vocês não estavam por perto para me guardar, não? Não sou assim tão banda voou quanto vocês acreditam.

Respirando fundo, Sofia encarou Bia com atenção. A amiga tinha razão. Entre ela e André, eles sempre faziam graça na forma como Beatriz parecia às vezes viver fora do mundo e da realidade, mas isso não significava que a caçula não fosse capaz de se virar.

Isso não a deixava menos preocupada. Beatriz era inteligente, isso é verdade, mas era também ingênua; tinha um coração que era uma presa fácil: uma vez que se conquistasse sua confiança, ela não negaria nada a quem amava.

Até então, isso não tinha sido um problema tão grande, porque Bia nunca se envolvera com ninguém que quisesse tirar vantagem dela. Tendo passado boa parte da infância se mudando, a despeito da personalidade vibrante, não estabelecia fácil relações com as pessoas. Ela podia confiar plenamente, é verdade, mas não era tão fácil assim que ela começasse a confiar.

Beatriz também nunca se apaixonara. Ela conhecia romance por livros e filmes. E agora estava sendo ‘serenada’ por uma pessoa que se escondia sob o nome de um personagem histórico morto a mais de quinhentos anos.

Ok, ela trataria aquilo da maneira mais racional possível. Começando do começo.

- Bia... você está gostando desse Dante?

(Continua...)



A Coruja


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