9 de setembro de 2011

Na sua estante: clube do filme





#081: Clube do Filme
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- O que diabos eu tô fazendo aqui?

Beatriz fez uma careta enquanto se virava para ele.

- Pára de resmungar, André. Você vê os outros reclamando? A Dani e o Davi não estão fazendo nenhuma comoção por serem incluídos em nossa programação de clube do filme.

Foi com certo esforço que o rapaz não respondeu que ao menos o outro tinha um motivo para estar ali – ao menos a julgar pela atenção que ele dedicava a Bia desde que tinham chegado. Quanto à irmã, ele não a vira abrir a boca desde que tinham chegado, então não tinha realmente como saber o que a garota pensava.

Ele lançou um olhar para Sofia, que, sentada ao piano, dedilhava distraidamente uma melodia enquanto o observava com um meio sorriso de mofa.

Ambos sabiam perfeitamente bem que Beatriz o forçara a vir com ela para sua ‘noite de filme’ a fim de tentar – pela milésima vez – jogar o irmão e a melhor amiga nos braços um dos outro. E não adiantava dizer a Bia que aquilo não tinha a menor chance de dar certo, porque ela simplesmente não escutava.

Às vezes André sentia vontade de revelar à irmã que eles sabiam daquilo não por mera intuição. Mas ele bem podia adivinhar que tipo de confusão Beatriz armaria se soubesse o que tinha acontecido durante o tempo em que ela estivera no intercâmbio, antes de começar a faculdade...

- Isso é Casablanca, não é? – foi o outro rapaz quem perguntou, parando junto à prima no piano.

Sofia levantou os olhos para ele.

- Você conhece? Pensei que filmes em preto e branco tinham saído de moda.

Davi deu de ombros.

- É um clássico.

Com um meio sorriso, a moça voltou a atenção novamente para o piano, desta feita cantando suavemente ao mesmo tempo que dedilhava.

- You must remember this... A kiss is still a kiss, a sigh is just a sigh. The fundamental things apply, as time goes by...

André estreitou ligeiramente os olhos, enquanto Bia batia palmas.

- Podíamos assistir Casablanca hoje!

- Não mesmo. – Sofia voltou-se para ela, cruzando os braços – Você me obrigou a ler aquele calhamaço para podermos ter essa sessão. Não é você mesma quem diz que todo o objetivo desses encontros é poder comparar livro e filme?

- Do que vocês estão falando? – Davi perguntou, observando com curiosidade as duas garotas.

Bia deu um meio sorriso, coçando a ponta do nariz.

- Bem, veja... nós começamos nosso ‘clube do filme’ no ano passado, quando tivemos que fazer um trabalho que envolvia música, literatura e história. Quer dizer, a Sofia tinha que fazer um trabalho sobre música e literatura e eu tinha de fazer um trabalho sobre história e literatura, então...

- Você não tem a menor capacidade de síntese, né? – André ohou para a irmã, balançando a cabeça.

- Não enche... – ela mostrou meio palmo de língua para ele – O caso é que... nós lemos os livros da Jane Austen... e aí assistimos os filmes... e desde então, começamos a nos encontrar uma vez por mês para assistir um filme inspirado num livro que lemos antes e assim podemos discutir a adaptação e... é, deu para entender, não?

- Então, finalmente, qual é o filme que vamos assistir hoje?

Dani, que até então estivera entretida entre observar os quatro e rascunhar quase furiosamente em seu bloco de desenho, foi quem respondeu.

- O Senhor dos Anéis. Era o que a Sofia estava lendo até semana passada.

André encarou com um pouco mais de curiosidade a caçula do grupo. Ele quase se esquecera dela, pensando que ela era tímida demais para se misturar com os mais velhos... Bem, entre a tagarelice de Beatriz e a ironia de Sofia, era um pouco difícil prestar atenção em muita coisa, incluindo aí notar a silenciosa desenhista.

Talvez ele devesse acrescentar ao seu rol mental silenciosa e observadora desenhista.

Foi quando ele se tocou do que a garota acabara de dizer e voltou-se incrédulo para a irmã.

- Você está brincando, não? Vamos assistir só um dos filmes, não é?

Bia sorriu candidamente.

- Na verdade... vamos fazer uma maratona. Uma noite inteira de hobbits!

Por alguns instantes, ele sentiu vontade de enfiar a cabeça em alguma parede ou coisa do tipo. Mas então respirou fundo, pensando com seus botões que, no final das contas, Beatriz estivera tentando o mês inteiro fazê-lo se distrair e ‘voltar ao mundo dos vivos’. Não era apenas uma estratégia de jogá-lo em cima de Sofia, mas uma tentativa sincera de ajudá-lo.

- Eu espero que haja algo forte para virarmos a noite nisso.

- Nós providenciamos coca-cola, mas posso ver se tem café para você na cozinha da Sofia. – Bia deu de ombros.

- Eu estava pensando em algo mais forte... – André suspirou – Vamos começar logo com isso...



A Coruja


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Um comentário:

  1. Parabéns, Lulu!

    Desejo que você consiga ler todos os livros da sua interminável lista! =D

    Beijos!

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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