4 de junho de 2010

Na sua estante: um encontro com Austen - Prelúdio






Prelúdio


É uma verdade universalmente conhecida que um professor parte do pressuposto geral de que seus alunos não têm outra coisa a fazer da vida além de estudar sua matéria. Eles marcam trabalhos por cima de trabalhos, esquecendo-se até mesmo do detalhe de que existem outros colegas professores, outras aulas, outros assuntos que compartilham o interesse de seus pupilos.


Felizmente – ao menos, do ponto de vista de Sofia – as provas do primeiro trimestre já eram passado agora, e ela só precisaria voltar a se preocupar com teoria, livros e pesquisas noite adentro pelo final do período.

Claro que, no momento em que ela se reconfortara ao pensamento de paz e tranqüilidade por pelo menos dois meses, o universo começara a conspirar contra os alunos de Apreciação Musical e contra a própria Sofia em particular.

Tudo começou numa quarta-feira cinzenta, típica do início do período das chuvas. Faltavam pouco mais de dez minutos para o término da manhã de aulas; alguns colegas já começavam a guardar o material enquanto ela rabiscava, sem prestar atenção, uma folha de papel.

Foi então que o professor soltou a bomba.

- É praxe, e parece também ser de preferência dos alunos, que as provas de final de período sejam substituídas por trabalhos e seminários. Como eu não gostaria de desapontar vocês... – nesse ponto, o professor deu um meio sorriso – Nosso projeto será bem simples: vocês devem escolher uma história e fazer uma trilha sonora para ela. Ao menos uma das canções deve ser uma composição original de vocês; de resto, podem escolher livremente, do erudito ao pop rock, desde que expliquem o porquê de cada música selecionada se adequar ao texto com que escolham trabalhar. Quero um trabalho escrito, um CD com as músicas escolhidas interpretadas por vocês, juntamente com cópias das versões originais. E, antes que eu me esqueça, não vale escolher uma trilha pronta: quem chegar aqui com Tchaikovsky para falar de Romeu e Julieta ficará com zero, ok?

Mais tarde, Sofia se lembraria apenas de ter piscado os olhos, confusa, enquanto a classe se dissolvia num torvelinho de cores e cacofonia, diante do anúncio do professor e do final da aula. Ela só conseguiu encontrar sentido no que escutara quando já estava a meio caminho do ponto de ônibus e, tão logo compreendeu o que teria de fazer, fez uma careta.

- Ei! O que foi que eu fiz para ser recebida com uma cara tão feia?

Voltando-se para a voz que acabara de interromper-lhe os pensamentos, Sofia suspirou.

- Eu não estou fazendo cara feia para você, Bia. A culpa é do professor Eugênio, que passou um projeto de pesadelo para o final do período.

Beatriz sorriu, passando um braço sobre os ombros de Sofia. Eram amigas desde os tempos do colégio, tendo mantido a amizade mesmo depois de seus caminhos terem tomado rumos diferentes – embora não tão diferentes, uma vez que, embora suas vocações não batessem, ainda estudavam no mesmo campus.

- Eu também tenho um projeto monstro para preparar até o final do período, e não faço a menor idéia de qual tema escolher. – a outra moça suspirou – O que você tem de fazer?

Inconscientemente, Sofia fez uma nova careta.

- Compor uma trilha sonora para uma história.

Bia ficou em silêncio por alguns instantes, um ligeiro sorriso aparecendo em seus lábios.

- Gostei desse projeto. Foi uma idéia legal a do seu professor. Quer trocar comigo? Eu escolho um livro, escolho as músicas temas dos personagens e você faz uma pesquisa para mim sobre alguma coisa que tenha a ver com a Revolução Francesa. O que acha?

- Eu não me lembro de você ser capaz de compor música, Bia. – Sofia respondeu, dessa vez sorrindo ligeiramente – Temo que terá de ficar com a Revolução Francesa.

- Não necessariamente a Revolução Francesa. Eu posso falar até da China se eu quiser, desde que o acontecimento que eu escolha tenha ocorrido por essa época. – Beatriz suspirou – Bem... o que você vai escolher? Já tem alguma idéia?

A essa altura, elas já tinham chegado ao ponto de ônibus, lotado, como sempre, por aquele horário. Sofia se acomodou à sombra de uma árvore próxima, enquanto vasculhava o início da rua, tentando descobrir algum ônibus a caminho.

- Eu não sei sequer por onde começar. – ela confessou – Detesto literatura.

A última parte foi quase sussurrada, num tom de voz magoado. Beatriz não respondeu, apenas encarando a outra com uma expressão ligeiramente tristonha. Ela conhecia o suficiente a amiga para saber o que estava por trás de tal declaração.

- Você podia pedir ajuda ao seu pai. – Beatriz observou – Ele guardou as coisas da sua mãe, talvez ele possa... – ela respirou fundo – Talvez você possa encontrar nesse material algo para te ajudar com o trabalho. E talvez você possa escolher alguma coisa da mesma época histórica do meu seminário. Podemos trabalhar juntas.

Sofia voltou-se brevemente para a amiga, assentindo devagar com a cabeça.

- Eu ia gostar disso.

(Continua...)


A Coruja


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Um comentário:

  1. Crap. Lá se foi Dark Side of the Moon com O Mágico de Oz... Se bem que isso é com o filme, né? Deixa pra lá então. XD

    Quero ver como esse projeto vai se desenrolar e, claro, quero ouvir a trilha sonora. =P

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