10 de junho de 2011

Na sua estante: um minuto para respirar





#067: Um Minuto para Respirar
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André não fazia idéia de como, exatamente, ele conseguira fazer Beatriz controlar-se o suficiente para deixar o carro, caminhar até a mesa e passar por todo o almoço com os pais sem entrar em estado catatônico ou anunciar histericamente que ia ser tia.

Era uma sorte que o pai estivesse empolgadíssimo com o convite que recebera para participar de uma pesquisa que André não fazia realmente muita questão de saber sobre o que era e o celular da mãe não permitisse que a mulher prestasse muita atenção à expressão de corça assustada de Bia ou de morto-vivo dele.

Na verdade, ela até notara, a julgar pelos olhares preocupados que lançava para o lado deles na mesa... mas estava impossibilitada de agir nesse sentido no momento.

Ele esperava sinceramente que Murphy continuasse do seu lado, mantendo a mãe completamente ocupada – André sabia que jamais conseguiria resistir a um interrogatório dela.

Claro que mais hora menos hora ele teria de revelar toda a história. Não é como se ter um filho aos vinte e poucos anos sendo sustentado pelos pais fosse o tipo de passo em falso que você pode esconder daqueles que pagam suas contas.

Quando sua vida se tornara um episódio de Malhação?

O rapaz deu um ligeiro suspiro, tentando fazer a comida passar pela garganta. Se, de alguma forma, ele descobrisse que tudo aquilo não passava de uma brincadeira de péssimo gosto ou que ele estivera vivendo num pesadelo ao longo da última semana e finalmente acordasse, André jurava que nunca mais colocaria nem uma gota de álcool na boca. E passaria o carnaval em retiros espirituais, rezando. Na China¹.

- Mas eu estou no meio do almoço com a minha família! – a voz da mãe soou indignada, fazendo com que ele levantasse a cabeça do prato – Você não devia ter aceitado!

Ele sentiu o olhar de Beatriz sobre si, mas não ousou se voltar para ela.

- Não, não, não... – a mulher balançava a cabeça enquanto falava – Não é assim tão simples. Você quer criar um incidente diplomático? Se já mandou o aviso, eles estão nos esperando. Mande o carro para casa; ao menos as malas já estão prontas.

Por debaixo da mesa, Beatriz o beliscou. O que ela queria? Que ele vomitasse a grande novidade a momentos de ganhar um período de clemência do destino a fim de se preparar física e espiritualmente para as conseqüências que adviriam daí?

- O que aconteceu? – o pai perguntou, tão logo a esposa desligou o telefone.

- Ganhamos uma carona com sua múmia. – ela respondeu – Mandaram um convite para o escritório, para que acompanhássemos seu amigo professor. Se fôssemos num vôo comercial só poderíamos partir daqui a três dias, mas agora...

- O que esses chineses têm a ver com múmias afinal? – André perguntou – Especialmente com uma múmia deste lado do mundo?

- Existem indícios de que houve, no passado, um movimento migratório entre a Ásia e os países andinos. – o pai respondeu – Esta múmia, em particular, tem características chinesas². O professor Huan participou da equipe que fez os estudos preliminares no Chile e ele pretende aprofundar esses estudos agora.

- Nem toda múmia solta por aí é egípcia. – Beatriz resmungou – André, eu acho que...

- Receio que não possamos continuar até o final do almoço. – a mãe suspirou, levantando-se – Eu gostaria de poder terminar ao menos uma refeição em paz, sem que jogassem uma bomba no meu colo no meio dela.

- Como se você não adorasse isso. – o pai respondeu com um meio sorriso bem humorado.

Por debaixo da mesa houve novo beliscão. Desta feita, André não teve dúvidas: beliscou de volta. Bia praticamente pulou em pé diante da mãe, que circundava a mesa para se despedir.

A mulher arqueou a sobrancelha.

- Está acontecendo alguma coisa?

Beatriz chegou a abrir a boca, mas o irmão foi mais rápido, adiantando-se para abraçar os pais.

- Façam uma boa viagem. Liguem quando chegarem lá. Mas, por favor, prestem atenção no fuso horário. E divirtam-se. Eu cuido da Bia.

Foi uma jogada arriscada – Beatriz cruzou os braços indignada, pronta para lançar-se numa tirada malcriada. Os pais, contudo, estavam acostumados com aquela cena, de forma que apenas os encheram de um furacão de recomendações, desculpas e despedidas, desaparecendo tão logo foi resolvida a questão da conta.

E, pela primeira vez desde que Mariana lhe dera a notícia, André conseguiu respirar – não exatamente aliviado, mas ao menos um pouco mais calmo. Ele se deixou cair sentado de volta à mesa, às pernas já quase sem sensibilidade após tanto nervoso. Beatriz o encarou com cara feia.

- Você não poderá esconder isso deles para sempre.

- Claro que não. Mas também não vejo qual seria a vantagem de jogar a notícia na cabeça deles sem qualquer preparação, quando eles obviamente estão ocupados com coisas tão ou mais importantes. Não haveria nem como explicar como isso aconteceu e...

- Acho que é bastante óbvio como isso aconteceu. – Beatriz o interrompeu, voltando a se sentar – Francamente, André, de todas as burrices que você podia fazer...

- Eu sei, certo? Não precisa jogar na cara. – ele retrucou de imediato – Tenha certeza que na última semana eu não pensei em outra coisa. Não adianta agora ficar imaginando o que eu poderia ter feito diferente. Eu vou ter de assumir as conseqüências dos meus atos.

Ela o encarou por alguns instantes, em silêncio, digerindo todas as informações que recebera na última hora e meia.

- André... a Mariana ainda está morando com o noivo, não é?

O rapaz apenas assentiu. Bia cruzou os braços.

- Como é que você sabe que o filho é seu?

- Ela disse. – ele respondeu, para então se deparar com a expressão absolutamente incrédula da irmã – O quê?

- Desculpa, André, mas eu preciso perguntar... você é BURRO por acaso? A garota dá uma de Madame Bovary o tempo todo e você acredita que o filho é teu simplesmente porque “ela disse”? O quê, você está perpetuamente bêbado quando se refere a qualquer coisa que tenha a ver com essa garota?

- Isso faria sentido se ela tivesse alguma coisa a ganhar ficando comigo, Beatriz. Se ela estivesse querendo dar o golpe da barriga, é óbvio que eu não seria a vítima preferencial. Ela tem muito mais a ganhar ficando com o Marcos. Nessas condições, se ela diz que o filho é meu, eu não tenho motivos para desconfiar que não seja verdade. E, de qualquer forma, não estou a fim de discutir essa história contigo agora e, especialmente, não no meio de um restaurante lotado. Deixa os pais voltarem de viagem. Enquanto isso, vou dizer para a mãe que arranjei uma namorada. Ao menos assim, ela não vai achar que apareci com um filho numa chocadeira ou coisa do tipo. – ele respirou fundo, antes de brindá-la com um sorriso cansado – Não se preocupe, prometo que não vou pedir para você trocar as fraldas.

Beatriz balançou a cabeça, respondendo ao sorriso dele.

- Não seja bobo. É claro que vou trocar as fraldas do meu sobrinho. Não confio muito na sua capacidade de distinguir as extremidades do pirralho.

- Sua confiança faz maravilhas pelo meu ego, Bia.

Ela abriu um pouco mais o sorriso.

- Bem... é para isso que estamos aqui, não?

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¹ Normalmente me abstenho de colocar notas comentando os capítulos de ‘Na sua estante’, mas como essa é uma piada interna, achei justo compartilhar com vocês: na Amaterasu, todos os meus personagens que de alguma forma fazem uma burrada ou se vêem num beco sem saída desejam ir se tornar monges eremitas na China. Deve ter alguma coisa a ver com inconsciente coletivo, eu não sei... em todo caso, isso aconteceu tantas vezes que criamos até um clube:


Eu simplesmente não pude me conter quando larguei o pobre do André nessa situação...

² Isso é verdade. E eu saber disso é conseqüência de assistir muito Discovery Channel...


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A Coruja


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Um comentário:

  1. Carambolas atômicas! Não acredito que o André sequer cogitou que o filho não possa ser dele, êita que o moleque tá bêbado ainda... hehehehehe...
    estrelinhas coloridas...

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