3 de junho de 2011

Na sua estante: adivinhas





#066: Adivinhas
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Beatriz não chegou a passar a semana inteira na casa de Sofia – três dias depois de sua chegada, a mãe ligou para ela avisando que não se preocupasse com múmias, que o pai ia tirar o gesso finalmente e ele sairiam para almoçar logo em seguida, a fim de comemorar o fato de que a vida continuava.

Ela não queria saber como a mãe descobrira a história da múmia. O caso é que André fora despachado para buscá-la e ela se despediu de Sofia e Dani ainda sem ter conhecido o outro primo da amiga – aparentemente, o rapaz trocara o dia pela noite numa série de plantões voluntários com o tio.

Beatriz começara a desconfiar da possibilidade de Davi ser, na verdade, um vampiro. Tal teoria fazia um grande sentido diante das evidências.

Antes, contudo, que pudesse arregimentar mais evidências que corroborassem tal hipótese, ela se deparou com outro mistério a ser resolvido: quando, exatamente, seu irmão se transformara num zumbi?

Ele não a cumprimentara quando ela entrara no carro. Não fizera qualquer comentário cretino às observações dela sobre os três dias na casa de Sofia. Não esboçara reação à idéia de que o pai estivera tentando contrabandear uma múmia para colocar na geladeira. As olheiras sob os olhos dele eram verdadeiramente assustadoras. Aliás, havia qualquer coisa de esquisita nos olhos dele, que pareciam mortiços, opacos.

Mais preocupante de tudo: ele estava dirigindo devagar e cuidadosamente, de tal forma que ela nem precisava se segurar em seu assento com todas as forças, torcendo para permanecer viva até o final do percurso. Isso nunca acontecera, desde que André tirara a carteira.

Perguntar ‘o que aconteceu’ não obteve resultado além de silêncio, de forma que a Beatriz sobrou apenas uma opção: tentar adivinhar e, no processo, encher o saco de seu querido irmão.

Tentou de tudo. Ele se dera mal numa prova. Brigara com um amigo. Levara um fora. Estava de ressaca. Estava doente. Tivera um acidente. Levara uma multa. Comera comida estragada e estava com dor de barriga.

André até tentara mandar ela calar a boca, mas a verdade é que não tinha ânimo suficiente para lidar com a irmã.

A determinada altura, Beatriz começou a enumerar causas como ‘você foi abduzido por alienígenas’ em suas tentativas de justificar o humor do irmão – recebendo apenas um olhar cansado em resposta.

- Já sei! – ela exclamou, enquanto eles já entravam no estacionamento do restaurante onde se encontrariam com os pais – Uma ex-namorada louca apareceu pedindo pensão para o bebê de vocês.

Por um instante, André perdeu o controle do carro, que acelerou indo de encontro a parede. Antes, contudo, que batessem, o rapaz conseguiu retornar ao controle, estacionando o veículo ao mesmo tempo em que respirava como se tivesse acabado de correr uma maratona.

Beatriz estava branca como uma folha de papel, mas nem de longe tão pálida quanto o irmão, que, àquela altura, parecia um cadáver. Naquelas circunstâncias, não era exatamente difícil chegar a uma conclusão acertada.

- Ai meu deus. – Beatriz murmurou com os olhos arregalados – Eu vou ser tia.

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A Coruja


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3 comentários:

  1. Ahhhh eu advinhei o que era hehehehehe... adorei esse capítulo e fiquei ansiosa para saber a reação dos pais deles heheheh
    estrelinhas coloridas...

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  2. Depois de mirabolantes ideias, quenaod a Bia finalmente adivinha a situação toda, o maior impacto que ela consegue perceber na vida da família é o fato de que ELA vai ser tia! hehehehhe

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  3. PAN-PAN-PAN *tema de suspense*

    Eu já te disse que eu quero ver o resto dessa história, né? =P

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