29 de abril de 2011

Na sua estante: retrato de família





#061: Retrato de Família
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Beatriz levantou a cabeça ao ouvir passos se aproximarem. Alguém apertou o interruptor, cegando-a momentaneamente com a luz.

- Argh. – ela gemeu, escondendo a cabeça entre os braços.

- Bia? – era a voz da mãe – O que está fazendo aqui? E acordada a essa hora?

Ela ainda grunhiu baixinho uma vez mais, antes de levantar a cabeça para encarar a recém-chegada.

- Estava sem sono. Aí decidi vir beber um copo d’água. – ela apontou para o copo vazio defronte a si na mesa – E a senhora?

- Está na hora do remédio do seu pai.

- Mas são quatro da manhã! – Bia exclamou, os olhos agora sobre o relógio de parede.

- Bem... o médico disse de oito em oito horas. – foi tudo o que a mulher respondeu, abrindo a geladeira.

Em silêncio, Beatriz observou a mãe encher um copo com água e depois sair procurando pelo armário a caixa de remédios do pai. Ela se levantou quando a mãe voltou pela porta da cozinha, apagando a luz pelo caminho, seguindo-a até o quarto.

Meio inconscientemente, a moça se deixou esparramar na cama, ao lado do pai, enquanto a mãe tentava acordá-lo. Ainda grogue de sono, ele aceitou o remédio, sorrindo ligeiramente com o beijo estalado na testa que recebeu da esposa ao devolver o copo vazio, para então mergulhar de volta em seu sono induzido de analgésicos.

Mais duas semanas e ele poderia finalmente se livrar do gesso.

Beatriz se aconchegou à mãe quando ela voltou a deitar.

- Posso ficar aqui?

No escuro, ela ouviu a mãe rir baixinho.

- Pode, Bia.

Horas depois, com o sol já subindo lá fora, foi a vez de André despertar com sede e descobrir por acaso a porta do quarto dos pais entreaberta. Estranhando – afinal, o ar-condicionado estava ligado – ele se aproximou para fechá-la. Antes, contudo, notou um montinho a mais no meio dos lençóis.

- Três cabeças? – ele murmurou consigo mesmo, talvez ainda não completamente desperto.

Apurando os olhos, reconheceu a pontinha da cabeça de Beatriz, apoiada sobre o ombro do pai.

O rapaz balançou a cabeça. Só sua irmã mesmo... Seria completamente impensável que ele, marmanjo que era, fosse se meter na cama dos pais como quando era criança. Se bem que... Bem, aquilo acabara de lhe dar uma idéia.

Voltando para seu quarto, ele vasculhou algumas gavetas até encontrar a velha máquina fotográfica – substituída pelo celular no ano anterior. Com o fôlego preso, tentou ligá-la. Para seu alívio, a bateria ainda funcionava.

Pé ante pé, André voltou ao quarto dos pais, programando a máquina e depositando-a sobre o gaveteiro, para então ir se sentar na pontinha da cama, ao lado do pai.

A luz vermelha piscou uma, duas, três vezes antes que a foto fosse batida – sem flash, claro, para não correr o risco de acordar ninguém. Então, silenciosa e vitoriosamente, André recolheu a máquina e deixou o quarto, fechando a porta cuidadosamente atrás de si.

Faltava exatamente uma semana para o dia das mães e aquela foto, num belo porta-retrato, o faria ganhar o posto de filho do ano, sem dúvida. Beatriz ia ficar possessa. Não que houvesse, oficialmente, alguma competição, claro. Afinal, era dia das mães e mães têm de gostar dos filhos igualmente – é uma das cláusulas em letras pequenas do contrato de adesão.

Ainda assim... ainda assim, esse ano, definitivamente, o melhor presente seria o dele.

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A Coruja


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Um comentário:

  1. Senti uma ligeira insinuação de que os presentes da Bia costumam ser melhores que os dele...

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