15 de abril de 2011

Na sua estante: entre mãe e filha





#059: Entre Mãe e Filha
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Mordendo os lábios, Beatriz afinal chegou a uma conclusão: ela precisava conversar com alguém sobre tudo aquilo antes que se pusesse louca tentando adivinhar exatamente o quê – ou quem – estava por trás de tudo aquilo.

- Como assim, não vai tomar? – a voz de sua mãe soou num tom perigosamente calmo no fim do corredor.

- O comprimido é grande demais. Não passa pela garganta!

- Huummm... Você quer que eu teste essa teoria para você, querido?

Ela revirou ligeiramente os olhos, embora um meio sorriso lhe escapasse. O pai era um doente terrível, reclamando o tempo todo, não querendo tomar os remédios, tentando se levantar escondido quando o médico recomendara repouso absoluto... Era realmente muito azar dele que fosse justo a mãe a ser sua enfermeira, porque ela tinha uma maneira ligeiramente... sadista de mostrar que se importava.

E, claro, cumpria tudo o que os médicos diziam à risca.

Aparentemente, o pai ainda não estava dopado o suficiente (claro, ele não queria tomar o remédio!) para aceitar a oferta dela. Beatriz não duvidava que sua mãe fizesse exatamente aquilo que ameaçara fazer.

Seus pais eram um casal... atípico. Na verdade, a família deles, de uma forma geral, era atípica – no bom sentido, claro. Entre um pai arqueólogo e uma mãe diplomata, em seus vinte anos de vida ela já morara em três países diferentes e sabia tanto identificar crânios de primatas quanto como organizar um campo de refugiados – o tipo de coisa que gente de sua idade nem sonhava entender.

Uma batida à porta despertou-a de seus devaneios e ela se deparou com a figura da mãe sorrindo, encostada ao pórtico.

- Estava pensando em sairmos para alugar uns filmes na locadora. Alguma preferência?

- Qualquer coisa que não seja terror. – Bia respondeu – Mas eu tenho alguns filmes gravados no computador se quiser.

A mulher balançou ligeiramente a cabeça.

- Seu pai tem títulos bem específicos para o que ele quer assistir, e receio que seja o tipo de coisa que você só encontra em locais especializados.

- Ele está melhor?

- Seu pai é um bebê chorão. – ela respondeu, mas com um sorriso afetuoso.

- Eu ouvi isso! – veio a voz do final do corredor.

- Eu esperava que sim, visto que você só quebrou a perna, não a cabeça.

Beatriz riu baixinho consigo mesma, mais resmungos soando no corredor. A mãe, que jogara a cabeça para trás para responder ao marido, voltou-se novamente para ela, girando a chave do carro entre os dedos.

- Bem, vou indo. Avise ao André que...

- Eu vou com a senhora. – Beatriz respondeu, levantando-se rapidamente.

Aquela era a oportunidade perfeita para ter ‘A Conversa’.

- Tudo bem... então vou avisar ao André que...

- Não vai ser necessário, André já ouviu tudo. – o rapaz abriu a porta do quarto pela primeira vez aquela tarde – Na verdade, acho que lá do outro lado da rua, ouviram vocês também.

Beatriz se trocou rapidamente, enquanto André e a mãe conversavam e o pai reclamava de que não precisava de babá, ele podia se virar perfeitamente bem sozinho, obrigado. Dez minutos depois, elas estavam finalmente no carro, saindo da garagem.

- Mãe... – ela começou cautelosa, enquanto esperavam o portão do prédio abrir.

- Oi? – a outra respondeu distraída, mexendo no rádio.

- Como você se apaixonou pelo papai?

Olhos quase idênticos aos dela encararam-na com uma ligeira surpresa.

- Bem... seu tio nos apresentou. Eles eram algo como ‘melhores amigos no mundo inteiro’ e quando Carlinhos veio para casa depois de...

- Essa parte eu sei, mãe. Eu queria... – Boa mordeu os lábios de novo. Se continuasse daquele jeito, ia acabar arrancando sangue - ...queria os detalhes. Se possível, claro. Eu só... não sei... acho que...

Por alguns instantes, a mãe esperou que ela continuasse seu pensamento. Como Beatriz permaneceu em silêncio, ela apenas suspirou.

- Bem, Bia, essa é, na verdade, uma história um tanto quanto... bizarra. Parece mais uma grande piada do que um romance de contos de fadas... ou seja lá como chamam hoje em dia.

- Isso significa que a senhora prefere não contar? – Beatriz não pôde deixar de ouvir o desapontamento na própria voz.

- Eu não disse isso. – sua mãe parecia estar fazendo um esforço para organizar os próprios pensamentos – Muito bem, prepare-se para um conto de ameaças, chantagens, mentiras e muita macarronada.

- Hum... acho que perdi o boletim informativo de que pertencíamos à máfia.

A mãe arqueou uma sobrancelha.

- Você quer ou não ouvir a história?

- Claro que quero ouvir!

- Ok... então, tudo começou quando meu querido e estimado irmão decidiu se juntar a uma missão do Projeto Rondon e foi ser médico numa vila indígena no meio de lugar nenhum, para ‘pesquisar a flora nativa e descobrir a cura para alguma coisa’ nas palavras dele. Por dez meses, ele ficou enfiado naquele lugar, sem dar qualquer notícia de vida. Sua avó já estava começando a planejar uma missão de resgate quando ele reapareceu do nada... com um completo desconhecido a tiracolo.

- O pai.

- Sim, seu pai. Embora, a princípio, sua avó tenha pensado que ele e Carlinhos estavam namorando.

Beatriz quase engasgou na própria saliva.

- Perdão?

Sua mãe riu baixinho.

- Nunca consegui atinar exatamente como ela chegou a essa conclusão, especialmente a se considerar que Carlinhos sempre fora algo como um conquistador. Mas, bem, dez meses sem dar notícias e então ele aparece do nada, abraçado com outro cara, chamando ele de meu querido pra cá, meu querido pra lá – ela balançou a cabeça – Claro que esse sempre foi o estilo do Carlos e se ele realmente tivesse decidido ser gay, ele teria anunciado isso no momento em que ela abriu a porta, e para a vizinhança inteira escutar.

Aquilo fazia sentido considerando a personalidade expansiva do tio. Por sinal...

- Onde tio Carlinhos está agora?

A mãe balançou a cabeça.

- A última vez que tive notícias dele, ele estava como voluntário dos 'Médicos Sem Fronteiras', enfiado em algum canto da África. Sua avó nunca entendeu como pôde dar à luz dois filhos tão nômades quanto nós dois, considerando o quanto ela e meu pai sempre foram caseiros.

- Certo. – Beatriz assentiu – Mas e a senhora? O que pensou quando conheceu o papai?

- Ah, eu estava muito ocupada para perceber que havia um corpo a mais de massa ocupando espaço em casa. Tinha começado a escrever minha tese do mestrado e passava todo meu tempo livre em bibliotecas ou livrarias. Chegava em casa quando todos estavam dormindo e saía antes deles acordarem. Eu provavelmente não teria notado que tínhamos visita ou que Carlinhos resolvera aparecer se não tivesse esquecido uns livros em casa e voltado no meio da manhã para buscá-los, para então dar de cara com um completo desconhecido saindo do meu banheiro, enrolado apenas em uma toalha.

Dessa vez, Beatriz engasgou na própria saliva. A mãe apenas a encarou com um olhar entre divertido e resignado, enquanto paravam num sinal vermelho.

- O que... o que aconteceu?

- Bem, antes que eu pudesse começar a gritar como se o fim do mundo tivesse chegado e ligasse para a polícia, sua avó apareceu e, como se encontrasse desconhecidos seminus no meu quarto todos os dias, apenas fez as apresentações. Carlinhos, que estava na outro banheiro, ouvindo toda aquela comoção, veio saber do que se tratava. Entre o sorriso calmo da minha mãe e as gargalhadas do meu irmão, eu não fazia nem idéia de para onde olhar; apenas não para o seu pai que, aliás, também devia estar mais vermelho que um tomate àquela altura. Claro que eu deveria ter desconfiado da calma com que sua avó levou toda a situação, mas eu apenas resmunguei alguma coisa, peguei minhas coisas e dei o fora o mais rápido que podia, disposta a ir para um hotel, se fosse necessário, para não ter que olhar para nenhum deles.

- Mas como diabos é que o pai foi parar nessa situação, mãe?

- Bem, como eu nunca estava em casa e Carlinhos e ele tinham planejado um passeio cedo aquela manhã, eles se dividiram: Carlinhos foi tomar banho num banheiro e ele no outro. Mais tarde seu pai explicou que tinha esquecido as roupas no quarto e como sua avó tinha saído para ver alguma coisa com a vizinha, ele achou que era seguro se aventurar para pegá-las.

- Certo. O que aconteceu depois?

A mãe respirou fundo.

- Eu provavelmente não teria mais dado as caras em casa até Carlinhos e o amigo irem embora se não fosse pela súbita e inexplicável doença de tia Luísa.

- Tia Luísa, irmã da vovó? – Bia estreitou os olhos - O que ela tinha?

- Eu mesma nunca cheguei a descobrir, o que só corrobora minha teoria de que sua avó inventou essa história para me forçar a ficar sozinha com seu pai.

- Por que ela faria isso? – Bia estava genuinamente surpresa.

- Ela estava começando a ficar desesperada. – a mulher suspirou de novo, rememorando – A filha mais velha estava prestes a se tornar uma balzaquiana e nunca levara um namorado para casa para apresentar, sempre com o nariz enfiado em livros; o caçula parecia mais interessado em tubos de ensaio e vacinas. Se dependesse de nós, na cabeça dela, nunca lhe daríamos netos. Assim, ela decidiu tomar nas próprias mãos a vida amorosa dos filhos, já que éramos obviamente incapazes de resolver isso por conta própria.

- Não!

- Eu disse que era uma história bizarra. – ela deu de ombros – E fica pior. Ela ameaçou me deserdar se eu não voltasse imediatamente para casa e fosse uma boa anfitriã. “Luísa está doente”, ela disse, “e preciso ir visitá-la. Ela é madrinha de Carlinhos, logo, ele precisa ir comigo, pois nunca se sabe.” Do jeito que ela falava, parecia que tia Luísa estava no leito de morte. E, claro, ela morava no interior, uns quatrocentos quilômetros de distância, metade em estrada de barro. Eles levariam pelo menos uma semana para ir e voltar. Mamãe não deixou nada escapar então, o quê, realmente eu podia fazer?

- E o papai, o que pensava disso tudo?

Ela riu de novo, balançando a cabeça.

- Ele só soube quando Carlinhos e mamãe estavam colocando as malas no carro. Cheguei em casa mais ou menos no momento em que ele implorava ao meu irmão para ir a um hotel, mas Carlinhos não queria saber e disse que ficaria mortalmente magoado se ele sequer pensasse em fazer isso... e quando demos por nós, estávamos sozinhos.

- Deve ter sido... constrangedor.

- Há! Seu pai começou a pedir desculpas de cinco em cinco minutos e tudo o que eu queria era enfiar a cara no chão. Era difícil decidir quem estava mais sem graça dos dois. Finalmente, decidimos que era melhor fingir que nada tinha acontecido e que acabáramos de ser apresentados, o que, de certa forma, era verdade. Conversamos um pouco e descobri que ele era arqueólogo e estava trabalhando na mesma tribo de Carlinhos. Como eles eram os únicos da equipe na mesma faixa etária, ficaram amigos. Daí um pouco, estávamos conversando sobre História como velhos companheiros, já que sempre gostei do assunto. Eu o levei para todos os lugares históricos da cidade e quando sua avó e seu tio chegaram, nós tínhamos nossas piadas particulares, e um completava o que o outro falava.

- E onde entra a macarronada?

- Ah, isso é porque macarronada era a única coisa que eu sabia fazer bem na cozinha, de forma que passamos uma semana comendo macarrão no almoço e na janta. Seu pai era educado demais para pedir por variação e eu incrédula demais para aceitar as ofertas de ajuda dele. Hoje em dia, ele me expulsa da cozinha sempre que eu me aproximo de uma panela... E ele nunca, jamais faz macarrão.

- Eu sempre me perguntei o porquê disso. – Beatriz confessou.

- Agora você sabe. – a mãe sorriu – Bem, para terminar a história... eles passaram mais duas semanas de férias e nesse tempo seu pai começou a ir comigo para a biblioteca e me ajudar com a tese... e depois saíamos para passear e conversávamos sobre... bem, sobre tudo, na verdade. Quando eles foram embora, voltaram para a aldeia lá deles, eu pensei que isso seria bom: poder voltar à rotina, ter meu tempo todo para mim, não ter de ficar com mamãe o tempo todo respirando no meu pescoço e me empurrando para seu pai, por mais legal que ele fosse... Mas a verdade é que eu comecei a sentir falta daqueles dias. Sentia falta de alguma coisa que eu nem mesmo fazia idéia do que era. E aí eu caí na besteira de dizer isso para sua avó.

- Bem, apesar de todos os pesares, eu tenho de agradecer a vovó, afinal, se ela não tivesse se metido tanto, eu não teria nascido. – Beatriz brincou – O que ela fez dessa vez?

- Arrumou minhas malas, comprou uma passagem só de ida e antes que eu pudesse entender o que raios ela estava fazendo, estava num avião com uma sacola de livros. “Você terá paz e tranqüilidade lá e poderá trabalhar na sua monografia”, ela disse. Como se tivéssemos uma vida muita agitada em casa, só eu e ela... Passei a viagem inteira pensando que ficaria com meu irmão uns dois dias, teria certeza de que ele não estava fazendo nada perigoso e iria voltar, mas quando desci no aeroporto, seu pai estava me esperando com o maior sorriso que eu já tinha visto na vida e um vidro de repelente de mosquito. O resto, como dizem, é história.

Ela sorriu para a filha, que a encarou algo fascinada.

- Por que nunca ouvi essa versão da história antes?

- Como eu disse antes, não é exatamente um grande romance épico. E você nunca perguntou, é claro. – ela completou – Agora, sua vez. Por que justo hoje quis ouvir toda essa história?

Beatriz respirou fundo.

Continua...

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A Coruja


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Um comentário:

  1. Ah mas como assim isso não é um romance épico! Coisa mais querida isso... amei esse capítulo, a Bia todo insegura querendo saber dos assuntos do coração, êita coisa fofa :)
    estrelinhas coloridas...

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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