10 de dezembro de 2010

Na sua estante: entrando numa fria





#040: Entrando numa Fria
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Penélope enrolou o fio do telefone entre os dedos, tentando não notar o olhar que Heitor lhe devotava deitado no sofá, como quem diz “eu bem que lhe avisei...”. Do outro lado da linha, Dona Graça falava sobre mais uma filha de colegas da época de escola, que acabara de se casar.

Toda vez que Penélope telefonava para a mãe, a mulher tinha um verdadeiro anal de todos os casamentos que tinham acontecido – entre pessoas conhecidas e desconhecidas. Na verdade, Penélope não passaria por cima da possibilidade de que sua mãe mantivesse registros ainda mais fidedignos que os do padre acerca dos enlaces matrimoniais que ocorriam na inteira cidade.

Claro que, tendo se mudado para o interior a fim de curtir a aposentadoria depois de uma vida inteira de muita atividade, era apenas natural que sua mãe tivesse procurado algum hobby ou nova ocupação. Dona Graça nunca gostara de ficar ociosa. Mas ela realmente precisava recitar todos aqueles casamentos para a filha toda vez que Penélope ligava?

- Ok, mãe, eu já entendi que foi uma festa fabulosa e que você nunca dançou tanto quanto na noite passada... tenho certeza que na próxima festa, a senhora vai dançar ainda mais. Agora será que podemos...

- Ah, não sei, querida, é um verdadeiro milagre conseguir arrastar seu pai para uma pista de dança. Eu não sei o que fazer com ele. Oras, da próxima vez eu talvez tenha de dançar solta!

- Vai ser um escândalo... – Penélope respondeu, cansada.

- Com toda certeza. Mas agora, diga-me, querida... você poderá vir para o Natal?

- Esse ano não, mãe. É uma viagem muito longa para passar só o final de semana com vocês. Como o feriado é só na sexta-feira... Mas vocês virão para o ano novo, então, tenho certeza que poderemos compensar.

- E o que você fará no Natal então? Você não vai passar o Natal sozinha, não é, filha?

- Hã... Bem, tem o Heitor e...

- Penélope! Não é possível que você esteja me dizendo que pretende passar o Natal sozinha em casa com seu gato!

- Mãe, eu garanto a senhora que Heitor é uma excelente companhia.

Ao ouvir seu nome, o gato levantou dolentemente a cabeça para encará-la. Penélope perguntou-se se aquilo significava que Heitor tinha outros planos para o período de festas além de lhe fazer companhia.

- Isso é um absurdo! Filha, eu sei que você se magoou com o que Leo fez, mas a vida continua! Será possível que você vai passar o resto da vida enfurnada em casa?

- Mãe, eu...

- Você não está ficando mais jovem, sabia? E o que será de você então? O que será de mim? Eu quero netos, Penélope, netos!

E finalmente sua mãe abandonara qualquer pretensão de sutileza – não que fosse muito sutil viver recontando casamentos para ver se a filha tomava vergonha na cara e desencalhava de vez – para dizer o que realmente pensava.

- Será que você vai me privar de vê-la feliz, querida? Vai me mandar para o túmulo sem saber o que será de você? Sem saber o que será do seu futuro?

Ela já esperava, é claro, a chantagem emocional. Por que ainda assim se sentia culpada?

- Nunca vou conseguir descansar... Nunca terei paz, serei uma alma perdida...

- Mãe, pelo amor de deus, a senhora nunca acreditou em fantasmas!

- Bem, talvez agora eu tenha começado a acreditar, já que vou virar um! E depois vou ficar puxando seu pé de noite!

Aquela conversa estava começando a tomar rumos assustadores.

- Mãe...

- Eu vou assombrar você até você me dar um neto!

- MÃE! Fica calma, certo? Eu não queria dizer antes, mas eu estou saindo com alguém.

Como? De onde aquilo saíra? Por um instante, Penélope sentiu vontade de desligar o telefone e ir se esconder debaixo da mesa. Ela acabara de dizer a maior mentira da vida para a própria mãe. Como pudera fazer aquilo? Dar-lhe esperanças daquela maneira?

Oh, o horror, o horror... ela ia queimar no inferno por isso, ah, se ia...

- SEU GATO NÃO VALE, PENÉLOPE!

A mulher piscou os olhos. Como assim sua mãe não acreditava que ela era capaz de arranjar um encontro? Um namorado? Acompanhante? Qualquer coisa?

- Não é o Heitor! Que absurdo, como a senhora pode pensar que eu, que eu...

- Qual é o nome dele então?

Ela respirou fundo. E disse o primeiro nome que lhe veio à cabeça.

- Arquimedes.

Arquimedes? ARQUIMEDES? Por que ela não falara um nome comum, de alguém que sua mãe não conhecesse? Ela era uma idiota! A qualquer momento sua mãe cairia na gargalhada e ela sairia daquela conversa totalmente mortificada.

No entanto, ela apenas ouviu a respiração compassada da mãe do outro lado da linha, como se a outra mulher estivesse absorvendo o que ela acabara de dizer.

- Você finalmente saiu com o Arquimedes? – Dona Graça perguntou finalmente.

Penélope piscou os olhos, ligeiramente confusa com a clara ênfase que a mãe acabara de dar no ‘finalmente’ e assentiu por um instante, antes de se lembrar que estava no telefone.

- Exatamente. – ela respondeu com a voz fraca.

Mesmo a quilômetros e quilômetros de distância, Penélope podia sentir o sorriso que estava se abrindo no rosto da mãe.

- Ótimo! Eu tenho planos a fazer. Tchau, querida, ótimo conversar com você.

- Mãe, eu, peraí, eu...

Não houve tempo para mais nada – sua mãe desligara em sua cara. E não precisava ser nenhum gênio para descobrir o que ela faria a seguir.

Afinal, Dona Graça e Dona Roberta tinham sido vizinhas e amigas a vida toda. Nada as faria mais felizes que juntar os filhos.

- Oh, merda...


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A Coruja


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