5 de novembro de 2010

Na sua estante: Regras de Cavalaria





#035: Regras de Cavalaria
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Se fosse se comparar a um personagem literário, Arquimedes diria que ele estava mais para Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro da triste figura do que, digamos, D’Artagnan dos três mosqueteiros ou Hamlet, o Príncipe da Dinamarca.

Ele não era nem um herói trágico nem um galante cavaleiro, mas vivia de acordo com certos códigos que, se poderia dizer, eram regras de cavalaria.

Arquimedes estava sempre pronto a salvar uma donzela em apuros.

E era por isso que ele acabara de se meter naquela absoluta enrascada.

Penélope estava do lado dele, o braço enfiado no seu, olhando de forma quase beligerante para Leonardo, o ex-noivo, que tivera o desplante de plantar-se à porta da biblioteca para conseguir acostar a mulher.

Como ele fora parar ali no meio? Bem, fora necessário apenas um telefonema quase desesperado de Penélope pedindo por tudo que era sagrado que ele a ajudasse a sair da biblioteca sem ter que conversar com Leonardo e ele se apresentara quase que imediatamente, imaginando se a história terminaria em alguns sopapos e, se assim fosse, como a diretoria da faculdade reagiria à história.

O que ele não esperava é que Penélope anunciasse em alto e bom som que Leonardo a deixasse em paz porque ela estava saindo com ele.

Era a realização de um sonho. Era um pesadelo. Arquimedes gostava de Penélope desde... bem, desde que se entendia por gente. Contudo, ser o namorado imaginário dela – ou como quer que se chamasse a situação em que ele agora se encontrava – não estava exatamente em seus planos.

- Você está mentindo. – Leonardo cruzou os braços, encarando os dois com uma expressão descrente.

Arquimedes se perguntou se deveria se sentir ofendido com isso. Qual era a de caras como Leonardo? O que, só porque o cara era bonito e tinha conseguido algum sucesso, ele podia fazer o que quisesse? Ele traía Penélope e depois queria conversar com ela nem que fosse à força e ainda agia como se fosse impossível que alguém como Arquimedes – que era um vara-pau de óculos e professor – pudesse sair com Penélope.

Como Penélope antes, ele próprio começou a se sentir ligeiramente beligerante. Talvez pela primeira vez na vida, Arquimedes pensou em liberar seu Neanderthal interior.

O que ele realmente precisava, contudo, era parar com esse monólogo idiota dentro da própria cabeça e fazer alguma coisa além de ficar parado ali com cara de tolo, permitindo que Leonardo o ignorasse como se ele fosse de menor conseqüência enquanto deixava Penélope mais magoada.

Afinal, ele fora chamado ao resgate, não?

- Agora, olhe aqui, seu... – ele começou a dizer, já se preparando para uma longa tirada sobre princípios, respeito, consideração e todas as outras coisas que sua mãe martelara em sua cabeça a vida inteira com discursos intermináveis.

Infelizmente – ou felizmente, a depender do ponto de vista – Penélope decidiu tomar a situação em mãos e Arquimedes foi obrigado a se calar. Afinal de contas, é muito difícil você exercer grandes dons de oratória quando estão segurando seu rosto e prensando a boca contra a sua.

Ele não teve muito tempo para registrar que Penélope o estava beijando, porque quase que logo em seguida ela o soltou, voltando-se para olhar para Leo – que Arquimedes quase esquecera que ainda estava ali.

- Satisfeito? – ela perguntou num tom controladamente feroz – Agora some daqui, Leonardo; eu não quero conversar com você, obrigada, então, some, desaparece, me deixa em paz.

- Você ainda vai se arrepender dessa escolha, Penélope. – foi tudo o que ele disse antes de girar nos calcanhares e desaparecer pelo corredor.

Arquimedes fez uma careta. Carinha arrogante. Ele se achava tão superior assim?

O professor ainda estava com a expressão fechada quando sentiu uma mão pousar sobre seu ombro.

- Desculpe por isso, Arquimedes. Eu não queria ter colocado você nessa situação.

Ele se virou para Penélope, que lhe deu um sorriso cansado. Bem, o que ele estava esperando? Que ela se atirasse em seus braços e dissesse que tinha esquecido Leo e que o amava perdidamente e queria ter seus filhos?

- Tudo bem, Penélope. Estamos aqui pra isso.

O semblante dela abriu-se um pouco.

- Obrigada. Você é um grande amigo, Arquimedes.

Ele respondeu com um sorriso resignado. E o que mais poderia fazer? Não era como se ele tivesse qualquer chance de verdade – conhecendo a mulher por toda a vida, era apenas esperado que ela o visse como... como o quê? Um irmão? Um cavaleiro andante?

Certamente, não como o cavaleiro de armadura brilhante montado num cavalo branco.

- Sempre que precisar, Penélope. Sempre que precisar...


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E aproveitando o ensejo já que estamos por aqui, não deixem de participar da pesquisa de opinião para o balanço de final de ano de D. Lulu!





A Coruja


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4 comentários:

  1. É... Não sei o que foi pior pro coitado: o beijo ou o "amigo".

    Isso não se faz com um homem!!!

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  2. O problema maior do mundo é que sempre surge apenas um Arquimedes a cada 250 Leonardos...

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  3. E os coitados dos "Arquimedes" sempre tem as suas "Penélopes"...

    Ê vida dura, viu! =P

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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