29 de outubro de 2010

Na sua estante: Camelot à moda sertaneja





#034: Camelot à moda sertaneja
---------------------------------------


Tudo começou numa terça-feira. Beatriz tinha terminado seu trabalho voluntário com as crianças que freqüentavam a biblioteca e estava agora dividindo uma mesa com Luís, trabalhando na conclusão de seu trabalho monstruoso sobre messianismo monárquico.

O rapaz se empolgara com o trabalho dela e não apenas ajudava com comentários como se oferecera para fazer uma ilustração para a capa do mesmo – o que rendera um debate sobre a necessidade disso, uma vez que Beatriz não queria dar mais trabalho ao amigo.

Eles estavam no meio dessa discussão, com Luís tentando convencê-la de que não seria trabalho algum e que ele adoraria desenhar para ela – especialmente porque gostava muito do Rei Arthur – quando o outro rapaz chegou.

- Hei, Luís, tudo bem?

Os dois jovens se voltaram para a figura recém-chegada. Luís sorriu, levantando-se.

- Fala, Enrique! Você vai participar da campanha esse fim de semana?

Enrique deu um meio sorriso, assentindo.

- Claro. – ele voltou o olhar para Bia, depois encarando novamente o amigo – Tô atrapalhando alguma coisa?

- De jeito nenhum. Estamos só discutindo algumas coisas sobre um trabalho da faculdade. – Beatriz sorriu para o rapaz – Eu sou a Bia.

- Ela estuda História e está escrevendo sobre o Rei Arthur. – Luís completou, um brilho meio fanático nos olhos.

- Sério? – Enrique sorriu – Cavalaria? Rei Arthur? Por que a gente não tem esses trabalhos interessantes de vez em quando?

- Engraçado, meu irmão disse a mesma coisa alguns dias atrás. – ela retrucou, fazendo uma careta – De qualquer forma, não é nem de longe tão interessante quanto aparenta ser. Eu estou fazendo uma comparação entre a crença messiânica em Arthur com a do rei Sebastião em Portugal.

- O problema são essas perspectivas totalmente batidas de aproximação de um tema. Por que os professores não pedem para a gente fazer coisas novas? Tipo, podiam passar um trabalho para escrevermos sobre... sei lá, a aproximação de Arthur com músicas sertanejas.

Beatriz sentiu o queixo cair enquanto Luís, conhecendo o amigo, ria silenciosamente em seu canto.

- Sertanejo medieval? – ela perguntou num fiapo de voz.

- Claro! Sertanejo medieval é o que há! – Enrique respondeu com bom humor, sorrindo de orelha a orelha como o gato cheshire – Podíamos depois até aproveitar o trabalho para mandar uma proposta de novela para a Globo. Uma coisa assim, estilo Benedito Ruy Barbosa.

- Antônio Fagundes podia ser Uther. – Luís observou.

- E a gente ressuscitava o Raul Cortez para ser Merlin. Ou então, melhor ainda! Sérgio Reis para Merlin, com o Almir Sater como seu pupilo. Afinal, Merlin era um bardo...

- E Excalibur seria um berrante? – Beatriz perguntou, começando a se divertir.

- Exatamente! – Enrique exclamou – Você está pegando o espírito da coisa!

- Podíamos montar a trilha sonora da novela. – Luís observou – Que música você acha mais dor de cotovelo para Arthur diante da realidade da traição de Guinevere e Lancelot?

- Nuvem de lágrimas?

- Nuvem de Lágrimas tá mais para Arthur com Lancelot do que Arthur com Guinevere. – Beatriz interrompeu – E Arthur é resignado. Que tal aquela “não tenho nada pra dizer... só o silêncio vai falar por mim...

- “Eu sei guardar a minha dor e apesar de tanto amor, vai ser melhor assim...” – Enrique continuou.

- “Não aprendi dizer adeus, mas tenho de aceitar que amores vem e vão” – a essa altura, os três já cantavam juntos, parecendo ter esquecido que estavam numa biblioteca - “São aves de verão, se tens que me deixar... que seja então feliz...

É claro que, se eles tinham esquecido de onde estavam, outras pessoas não tinham. Por isso, antes que eles pudessem atacar com o refrão de novo, Penélope estava do lado da mesa deles, com os braços cruzados, fuzilando-os com os olhos.

- Gostos musicais duvidosos à parte, vocês percebem que estão numa biblioteca? – ela perguntou.

- Desculpa, Penélope, a gente se empolgou. – Beatriz assumiu o papel de porta-voz do grupo, mantendo uma expressão extremamente formal no rosto – Prometo que, em compensação, quando recebermos o Globo de Ouro, faremos uma dedicação especial a você e sua paciência.

A mulher arqueou uma sobrancelha. Os dois rapazes tentavam a todo custo segurar o riso, enquanto Beatriz mantinha o semblante sério. Por fim, Penélope apenas suspirou.

- Faça isso. E, até lá, nada de cantorias na biblioteca.

Desta feita, Beatriz sorriu.

- Não se preocupe, vamos agora nos ater apenas ao casting.

Penélope meneou a cabeça.

- Acho que não quero saber...

_______________________

* Agradecemos a participação especialíssima do Enrique, do Coisas Geek de um Hobbit Inútil, sem cuja colaboração este post não teria vindo à vida. Camelot à moda sertaneja foi livremente inspirado numa conversa totalmente sem noção entre nós dois, pelo twitter. Estamos no momento planejando o roteiro da nossa grande novela e prometemos, no futuro, quando formos agradecer pelo Globo de Ouro, mencionar todos os nossos queridos leitores que, apesar de nossas insanidades, não nos abandonaram jamais!

_______________________



Clique na capa para fazer o download da trilha sonora



A Coruja


____________________________________

 

2 comentários:

  1. POr essas e outras que eu não perco uma atualização do Coruja...
    Se elas não alegrarem meu dia, não sei o que mais pode!

    ResponderExcluir

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog