9 de setembro de 2010

Da torneirinha de asneiras (e mais crônicas NOVEnianas)


No ano passado, contei a história do nascimento de Luciana-Maria-que-quase-se-chamou-Maria-Angélica. Esse ano vou prosseguir com as crônicas novenianas, dessa vez contando um pouco sobre os anos de formação de nossa cara personagem.

A mãe da pequena tinha uma opinião muito bem formada sobre a criação da filha - a começar pela necessidade de encorajar na mesma o hábito da leitura. Na verdade, ela já tinha essa opinião mesmo antes de reencontrar o homem que viria a ser seu marido e pai de seus filhos.


[A história de como os pais de nossa heroína se conheceram em Mirandiba e anos depois se reencontraram no interior do Mato Grosso e acabaram namorando e se casando daria até uma novela...]

Assim é que, quando a pequena nasceu, a mãe já tinha em casa a completa Enciclopédia Barsa, para quando fosse necessário pesquisar alguma coisa para a escola, bem como todas as obras de Machado de Assis, Jorge Amado, José Mauro de Vasconcelos, Aluísio Azevedo (para ficar apenas em alguns exemplos) - esses eram para quando os filhos (que nesse preciso momento da compra, ainda estavam no calcanhar da avó) fossem fazer vestibular.

[Mamãe é, claramente, uma pessoa que pensa à frente de seu tempo e sabe planejar com antecedência.]

Em todo caso, quando afinal chegou a criança para a qual tantos preparativos estavam sendo feitos, a leitura disponível nas estantes estava um pouco além de seu alcance intelectual. Foi assim que a orgulhosa mamãe se associou ao Círculo do Livro.

Talvez muitos de vocês não tenham ouvido falar da Círculo do Livro... Era uma editora - excelente editora, por sinal, que funcionava como uma espécie de "clube": para participar, você tinha de ser indicado por algum sócio e, depois disso, recebia trimestralmente uma revista-catálogo da qual teria que comprar algum título. Infelizmente, a editora faliu...

Em todo caso, tendo se associado ao clube do Círculo do Livro, mamãe começou a coleção do Sítio do Pica-pau Amarelo e da Biblioteca do Escoteiro Mirim. E essas foram as obras que começaram a formar nossa menina. Com Lobato, ela se apaixonou por mitologia grega; graças aos sobrinhos do Donald e ao professor Pardal - para não falar em todo o resto da turma - ela conheceu grandes personagens históricos: jornalistas, espiões, escritores, governantes, cientistas, azarados e sortudos.

Foram seus primeiros passos dentro do mundo da imaginação.

A esses livros seguiram as Fábulas do Mundo Inteiro - e ainda lembro do brâmane que acordou branco em sua cama - o querido Marcelino Pão e Vinho e os volumes da coleção leia e toque, que tinham um teclado do lado e você ia tocando os símbolos à medida que ia lendo (também tenho na memória o som dos sapatinhos vermelhos da Dorothy...), mais um inteiro mundo de personagens encantados com que nossa menina tinha mais intimidade do que com os colegas da escola.

Não que a pequena fosse um perfeito e precoce anjinho que vivesse com o nariz enfiado nos livros. Ela era um pesadelo por vezes, correndo para todos os lados, pulando por cima das pessoas, tentando arranjar desculpas para falar com quem estava na fila do supermercado.

Seu pediatra a chamava de furacão.

O principal a saber sobre ela, porém, é que nossa pequena heroína tinha em comum com sua personagem favorita uma famosa "torneirinha de asneiras". Mais de uma vez, como a boneca Emília, Lulu se meteu em enrascadas por causa da boca grande e uma certa tendência a falar as coisas antes de pensar.

Como a vez que anunciou no salão de cabelereiro lotado que viera cortar o cabelo porque estava "comida de piolho".

[Criança é feito esponja e repete tudo o que escuta...]

Vinte e poucos anos nos separam desse infame episódio, mas volta e meia a menina ainda mete os pés pelas mãos e deixa escapar alguma coisa que era melhor não escapar - abrindo assim a torneirinha de asneiras.

E é assim que surgem mais histórias para lhes contar.

Vinte e quatro anos... Ano que vem, serão vinte e cinco, um quarto de século. Um inteiro quarto de século.

Devo começar a me sentir uma velhinha decrépita? XD




A Coruja


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5 comentários:

  1. Feliz Aniversário \o/
    Te desejo saúde, felicidade, luz, boa sorte e acima de tudo isso algumas toneladas de livros.

    Parabéns Lulu o/

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  2. Parabéns, Lu!!!

    Eu espero que este ano você consiga resistir a tentação de comprar livros antes de terminar todos os que tem para ler!

    Ah! "Vinte e quatro anos... Ano que vem, serão vinte e cinco, um quarto de século. Um inteiro quarto de século.

    Devo começar a me sentir uma velhinha decrépita? XD".

    Devo me sentir ofendido por esta declaração? xD

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  3. Parabéns, Lulu Coruja.
    Por acaso algumas dessas histórias da torneirinha lembraram-me outras situações. E são sempre uma boa fonte para alguns escritos mais cómicos.
    E um quarto de século já é algum tempo, mas não o suficiente. Mas esse é só para o ano.

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  4. Aewww, pessoal!!!! Obrigada. Fico feliz da vida que se divirtam com minhas histórias...

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