9 de setembro de 2009

A História de Maria Angélica (e outras crônicas NOVEnianas)


As dores começaram de madrugada, por volta das três, e, quando o quase-novo-pai já se preparava para carregar a esposa para o hospital, sua sogra o mandou parar de se preocupar porque “ah, isso não é dor de nascer menino ainda não!”.

Às oito, o resto da casa se levantou. Tomaram café enquanto a futura mãe se revirava. Passaram pela loja para deixar a cunhada no trabalho. Só então seguiram para o hospital.

Era o dia nove do nono mês do ano (e da gestação, embora haja pessoas que questionem se a coisa toda não se deu em sete meses). A rua se chamava nove de julho e o hospital, nove de julho.

[Era de se esperar que no futuro, ela considerasse nove seu número da sorte].


Finalmente, às 13 horas e vinte e um minutos pelo horário da maternidade (ou, ao menos, é o que está escrito no álbum do bebê) – umas dez horas depois de a pobre mãe ter começado a sentir as dores do parto – nascia uma menina.

[A avó se sentiu muito surpresa quando o genro orgulhoso, do lado de fora da sala de cirurgia, disse que tinha nascido uma menina. Ela não percebeu a luz vermelha em cima da porta, ao lado da luz azul apagada e o novo-pai não viu muita necessidade de acabar com a ilusão da sogra de que ele era capaz de prever as coisas].

Por conta de uma promessa feita durante a gravidez meio complicada – nossa orgulhosa mamãe quase perdeu seu bebê – a recém-nascida necessariamente se chamaria Maria.

Mais tarde, a mãe se decidiu a chamá-la de Maria Angélica.

Naquele dia, o pai de Maria Angélica tomou seu primeiro e último porre em comemoração. Quase uma garrafa de vinho, sozinho, enquanto o cunhado ria dizendo que aquilo era “bebida de moça”. A coisa não terminou muito bem e desde então, ele nunca mais colocou uma gota de álcool na boca.

Por sorte, eles já estavam no hospital.

Maria Angélica nasceu como nascem todos os bebês. Não, ela não era uma coisa rosada e fofa. Ela era completamente careca e tinha cara de joelho.

[Uma das grandes decepções da vida da mãe de Maria Angélica foi o fato de que a menina tinha o cabelo tão ralinho e tão fininho que todos os lacinhos, tiaras e frufrus que ela tinha comprado durante a gestação, morrendo de vontade de brincar de boneca com a bebê, nunca seguravam. Maria Angélica cortou o cabelo pela primeira vez aos três anos. E nunca teve cachinhos].

Além de ser careca e ter cara de joelho, Maria Angélica nasceu com três sinaizinhos que eram seu charme na bochecha esquerda. Eles formavam um perfeito triângulo isósceles.

[No ensino médio, os colegas de Maria Angélica atualmente mediram o triângulo para tirar a dúvida. E tentaram fazer o Teorema de Pitágoras também. Sem muito sucesso, é claro. O resultado final foram algumas caneladas, um ou dos puxões de orelha e até alguns tabefes].

A mãe de Maria Angélica costumava brincar, na época do São João, de que a filha já nascera caipira. Ela só precisava ter de pintar um lado do rosto para ir brincar de matuta.

[Até os seis anos de idade, Maria Angélica acreditava piamente na teoria de que seus sinais eram resultado da mãe ter tomado muito achocolatado quando estava grávida dela. Seus sinais eram bolinhas de chocolate que tinham pregado em seu rosto. Não uma única vez, ela tentou alcançar o sinal mais próximo com a língua].

Esqueço-me porém de narrar que Maria Angélica não atendeu por Maria Angélica por tanto tempo. Como de hábito, meio que me adiantei aos fatos...

Um mês depois do grande acontecimento, foi época de eleições. Os pais de Maria Angélica foram votar e, tendo nomes diferentes, que começavam por letras não tão comuns, não enfrentaram qualquer fila: suas seções estavam vazias.

As Marias, em compensação, tinham uma seção só delas e a fila lá quase não tinha tamanho. Observou então o pai para a mãe: “olhe ao que você está condenando sua filha para o resto da vida. Aonde quer que ela chegue, ela sempre terá de enfrentar fila”.

Assim, quando finalmente descobriram onde ficava o cartório no Brás (três anos depois do nascimento, três anos de inexistência para o pobre bebê) – em janeiro de 1989 – registraram a menina como Luciana Maria.

O que foi muito bom, porque Luciana Maria soa muito melhor que Maria Angélica... ou Angélica Maria.

Feitas estas considerações iniciais (cara, eu sou uma cretina...), vamos à parte mais importante do post de hoje...

PARABÉNS PARA MIM
PARABÉNS PARA MIMMMMM
PARABÉNNNNNSSSSSS PAAARRAAA MIIIIMMMMMMM...
PAAAAAAAARAAAAAAAABÉNSSSSSSSSS PAAAAAARAAAAAAAAA MIMMM!


23 anos depois, cá estamos nós. Cara, como eu adoro fazer aniversário... Não, não é tanto pelo fato de ficar mais velha, mais experiente, porque outro ano se passou com saúde *pigarro* e felicidade... embora, claro, eu agradeça por isso também.

Não, também não é por causa dos presentes... ainda que eles sejam um importante fator. O fato de eu ganhar uma mini-biblioteca no meu aniversário é apenas a cereja no topo do sundae.

O que realmente me deixa batendo palmas e rindo como louca – às vezes, também, com os olhos cheios d’água – é como minha casa parece central de delegacia quando alguém faz aniversário aqui.

De manhãzinha até de noite, o telefone quase não pára de tocar. Parentes, amigos, vizinhos, todo mundo telefona para desejar todos os velhos clichês de aniversário: paz, saúde, felicidade, fortuna, muitos anos de vida. Há algumas variações, é claro... Uma abençoa com uma sorte feliz (porque sorte é também sinônimo de sina, destino e, como tal, pode ser trágica...), outra, com um marido bem bom.

São ligações de todos os lados do país, emails do outro lado do atlântico, mensagens, gestos... Apesar de acordar super cedo, mesmo já tomada banho e trocada, eu volto para a cama e espero a mãe vir me “acordar” com um sorriso no rosto, cantando parabéns para você, passarinha. Depois, vem o abraço do pai, as palavras sábias, o diálogo mais monólogo que qualquer coisa, quando ele costuma dar um ano a mais a gente e deseja que tenhamos juízo.

Entendam... quando você tem um pouco mais de quatorze tios por parte de mãe (afinal, seu avô não apenas s casou três vezes como ainda teve os quebra-galhos quando estava viúvo) e doze por parte de pai, uma carrada de primos em todos os graus e um monte de gente que, de uma forma ou de outra, se tornou sua segunda família... E saber que toda essa gente se lembrou de você e reservou cinco minutos do dia dela para te dar parabéns... é difícil você se sentir mais querida, mais amada.

E é por isso, claro, que eu também aproveito o espaço para dizer o meu muito obrigada. Obrigada pelo carinho, pela lembrança, pela consideração, pelo amor. A vida não pode ficar muito melhor do que isso...

E amanhã voltamos ao normal, com nossas vidas mundanas, de volta ao corre-corre de trabalho, estudo e o que mais houver para fazer. Mas hoje... hoje eu me permito a ilusão de que o mundo parou para mim. Vou ir ver a banda passar cantando coisas de amor... e talvez dançar sob as estrelas e depois dar cambalhotas na grama.

Isso, claro, se eu for capaz de ver estrelas na cidade e encontrar algum gramado razoavelmente limpo pelo caminho... Mas vamos nos prender à metáfora do momento e deixar a realidade para lá. Hoje, eu definitivamente mereço. Huhauhauhauhuahua...


Soneto de Aniversário
(Vinícius de Moraes)

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.



A Coruja


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10 comentários:

  1. Os telefonemas realmente são o que há... Feliz aniversário, te desejo tudo de bom! ^^

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  2. Felicidades, Lulu. Fazer anos é algo fantastático que só se repete uma vez por ano. Aproveita bem o dia.

    (Já os meus aniversários sao... bem, deixa para lá, não vai querer saber, mesmo.)

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  3. Parabéns, Luciana! Felicidades para você. Tenho acompanhado seu blog há algum tempo, ele é muito bacana. Abraço.

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  4. Parabeeeeeeeeeeeeeeeeeens, titia Luuu!!!

    Que - lá vem os clichês - essa data se repita ainda uma porção de vezes, que todos os seus sonhos se realizem e que você um dia tenha a biblioteca igual a da Fera no A Bela e a Fera! *-------*

    E que um dia a gente possa comemorar algum aniversário juntas!!!


    Milhões de beijos!
    Belle Lolly, Babbi e Carlos Daniel.

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  5. Parabééééns, dona Luciana Maria! ;D

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  6. Parabéns!!!!
    Muitos anos de vida e tudo o que você desejar! =D

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  7. Parabéns Lulu! tudo de bom e muitos anos de vida e muitos livros de presente!
    conitnue sempre sendo essa escritora maravilhosa!!!
    bjos

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  8. Parabéns!!!! Muitas alegreias e felicidades e muitas outras histórias!!! ^-^ Feliz Aniverasário!!!

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  9. Parabéns Maria Angélica..ops..Luciana Maria!!! kkk
    Muita paz, alegria, saúde e um MARIDO BEM BOM(Adorei issso)kkk
    Bjs

    Grasiela

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  10. Achei tão fofo ler isso *_*
    Espero estar aqui no próximo!!!

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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