23 de julho de 2010

Na sua estante: Casamenteira





#020: Casamenteira
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- Por que você não namora o Luís?

A sugestão veio de forma tão brusca e inusitada que, por um instante, Beatriz congelou em seu lugar.

- Perdão?

- O Luís. – Penélope repetiu – Ele é um bom garoto.

Beatriz sentiu que precisaria de toda a sua concentração para a conversa que viria a seguir. Largando a caneta, ela fechou o caderno, para então encarar firmemente a bibliotecária do outro lado da mesa.

- Há algum motivo pelo qual estamos tendo essa conversa? – ela perguntou ao final – Porque o rapaz sentado do outro lado da pilastra esquerda também me parece um bom rapaz. Eu devo namorar com ele?

Penélope sorriu,

- Acho que você não entendeu meu ponto.

- Você tem um ponto? – a moça arqueou uma sobrancelha.

A mulher assentiu.

- O Luís gosta de você.

Beatriz sentiu o queixo cair.

- Como é?

- O Luís gosta de você. – Penélope repetiu com um sorriso de gato que comeu o canário.

Possivelmente estivera treinando aquele sorriso com Heitor...

- Eu entendi essa parte. Só não entendi como você chegou a essa brilhante conclusão. – Beatriz retrucou, sarcástica.

- Até seu irmão percebeu.

Se Bia precisava de mais alguma coisa para saber que aquela conversa sem pé nem cabeça não tinha futuro, aquilo era a cereja no topo do sundae.

- E com que diabos de autoridade André chegou a essa conclusão? – ela perguntou, sem perceber que levantava a voz, quase tremendo em sua indignação – A garota de quem ele gosta tem namorado, pelo amor de deus! André é uma besta!

Ela sentiu alguma coisa se chocar contra sua nuca, seguida de uma voz muito conhecida.

- Dá para falar mais baixo? Precisa que o mundo inteiro saiba? Isso era para ser segredo, sua imbecil! – André quase vociferou, tentando controlar a ânsia de esganar a irmã.

- Bem, estamos quites! – Beatriz respondeu de pronto, virando-se na cadeira para encarar o rapaz – O que você estava pensando...

- Mais do que você certamente...

- Ah, é, você não pensa...

- Você não tinha o direito...

- Porque você é devagar como uma tartaruga...

- E você é cega como uma porta...

- E eu não...

- CALEM-SE, CALEM-SE, VOCÊS ESTÃO ME DEIXANDO LOUUUUCA!!!

- Foi ela que começou! – André disse, apontando para a irmã e escapando por pouco de ser mordido – Ei, seu animal!

- Nem mais uma palavra vocês dois! – Penélope se levantou, interrompendo qualquer resposta que Beatriz tivesse na ponta da língua – Ou estão suspensos da biblioteca!

Beatriz cruzou os braços. André, por sua vez, parecia prestes a virar uma chaleira fumegante, com direito até a fumacinha saindo das orelhas. Penélope sorriu.

Nenhum dos dois irmãos parecia ter se dado conta que eram universitários e dificilmente ela poderia simplesmente suspendê-los como se estivessem na escola.

- Bem, ao menos vocês estão no lugar certo. Madame Penélope resolverá todos os seus problemas amorosos. – ela voltou a se sentar – Agora vamos começar por...

- Você não deveria se preocupar primeiro consigo mesma? – André a interrompeu, para então simplesmente bufar e girar nos calcanhares – Eu to saindo daqui. A gente se acerta em casa, Beatriz.

- Eu to morrendo de medo... – ela retrucou entre dentes.

Penélope suspirou, balançando a cabeça.

- O caso é pior do que eu pensava. O que eu vou fazer com vocês?...



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A Coruja


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2 comentários:

  1. O que ela vai fazer com eles???
    Estou CURIOSAAAAAAA!!!

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  2. Acho que já disse isso, mas não custa nada repetir: "discrição" definitivamente não é algo que possa ser usado para descrever Penélope =P

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