21 de julho de 2015

180º - Cultura de dinheiro

Mostruário de uma loja. Usam-se esses envelopes para presentear dinheiro, invariavelmente. Em alguns empregos, o pagamento do salário, ou da remuneração, é feita não por meio de bancos, mas entregue em mãos, dentro de envelope que tem esse formato – mas com menos enfeites.
Olá. 180º de volta! Esses dias fui ao casamento de um colega de “laboratório”, e notei algumas coisas peculiares. Algumas, eu já tinha notado, mas não havia notado a constância disso; por isso resolvi fazer este post. Num exercício de objetividade (Lu e eu estamos nos forçando a cortar nossa prolixidade), vou direto à moral da edição: a sociedade japonesa é uma sociedade de “cultura de dinheiro” (tradução literal da expressão usada pelas senpais: “okanebunka”).

Antes que alguém pense nisso, não, não se trata de cultivar dinheiro em árvores. Podem tirar o cavalinho da chuva (por que alguém deixaria o cavalo na chuva, pelamordedeus?!), ou a nota de cem reais desse vaso de flores! Estou me referindo à quantidade de atos que se resumem a “dar dinheiro”.

Vamos começar com a seguinte noção: se você acha que regras de etiqueta são um saco, nem pense em vir para o Japão. Tem regra pra tudo por aqui, e alguma delas bastante detalhadas e específicas. A exemplo da cerimônia de casamento, tinha tanta regrinha e restrição, que eu quase desisti de ir. Vou deixar isso para outro dia, mas fica aqui essa primeira lição: não gosta de regras, não venha para o Japão.

Queria que alguém me houvesse dito isso há uns quatro anos atrás... Se bem que, acho eu, não teria dado ouvidos mesmo... >.>

Então vamos lá! Seu amigo vai casar? Dê dinheiro (e muito)! É chefe do noivo? Esvazie a carteira...

Envelope costumeiramente usado para levar o presente de casamento: dinheiro. (Sim, é obrigatório.) É o mais rebuscado dos envelopes de dinheiro, e é o único cujo nó fica para cima. Também é o único em que se pode usar “fita” dourada.
Vai ter filho? Pode cobrar dinheiro de amigos e parentes!

Alguém ficou doente? Mande dinheiro (também há o costume de mandar uma cesta de frutas, mas aí corre o risco da pessoa não poder comer devido ao tratamento, ou coisa assim).

É Ano Novo? Dê dinheiro às crianças!

Seu filho passou no vestibular? Dê dinheiro! Ele(a) se formou? Dê dinheiro também!

Envelope para dar dinheiro como presente de comemoração, só não para casamentos.
E por aí vai. Não que não façamos isso, mas no nosso caso é mais uma escolha que costume mesmo. No começo eu achei que era falta de consideração, mas, agora, acho que pode perfeitamente bem ser o contrário. Existe mais de uma forma de demonstrar por meios materiais que se importa com alguém. Pode escolher um presente para aquela pessoa, mas, no fim, é possível que ela não goste, ou não lhe seja útil. Dinheiro certamente é mais fácil. Especificamente em casas japonesas, que não costumam ser tão espaçosas quanto em outros lugares, como o Brasil (estou me referindo a famílias de classe média, que morem em áreas urbanas!), fica complicado acumular objetos. Eu acho que esse é um motivo pelo qual se assimilou tanto o uso de dinheiro como presente: evitar o acúmulo de objetos... Mas isso pode ser só meu palpite.

Não sei dizer o quão antigo – ou não – é esse costume. É possível ser algo de muito antes, e é possível que seja algo que se desenvolveu durante o crescimento desordenado do Japão na segunda metade do século XX. Lembram quando disse que havia uns costumes muito caros no Natal, criados nessa época? É possível que essa cultura do dinheiro tenha se envolvido simultaneamente.

Havia, então, um consumismo desenfreado naquela época – vi um documentário onde havia japoneses declarando que era normal trocar eletrodomésticos como geladeira e máquinas de lavar todo ano, mesmo sem precisar. O que mais doeu em mim é que os usados – em excelentes condições – acabavam em aterros. Nos meus três anos aqui, descobri que, apesar de haver lojas e lojas de usados, reuso ainda não é algo bem visto, pelo menos para certas coisas.

Por exemplo, descobri numa entrevista para meu mestrado que as roupas que colocamos como recicláveis no lixo doméstico muitas vezes são doadas para o exterior – à exceção de grandes desastres naturais domésticos, como foi Fukushima. Claro que esse “lixo” doméstico vai devidamente separado do lixo úmido e outros produtos contaminados. Quando perguntei ao responsável por que iam para o exterior, esperando que dissesse que havia mais necessidade em países como Indonésia e Filipinas, levei um choque com a resposta de que os japoneses não apreciam coisas usadas – pelo menos não roupas. O que é estranho, porque há várias lojas de roupas usadas (e baratíssimas) aqui. Pergunto-me se são predominantemente estrangeiros que compram lá...

De qualquer forma, muita coisa mudou desde então, uma delas sendo a diminuição do poder aquisitivo de uma família. Talvez por isso tenham aberto diferentes tipos de loja de coisas usadas, embora eu veja mais japoneses comprando coisas novas, que usadas...

Acho que notaram que as imagens dessa edição resumem-se a envelopes, e que são muito parecidos. A edição seguinte tem a ver com isso, pois trataremos da rigidez de alguns costumes, definidos até o último nanodetalhe.

Por hora, porém, apesar de curto, ficarei por aqui dessa vez. Até a próxima!


A Elefanta


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