23 de dezembro de 2011

Na sua estante: resoluções de final de ano






#098: Resoluções de Final de Ano - Parte I
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Um tanto nervosamente, ele recebeu a sacola de presente das mãos da atendente, mal ouvindo os agradecimentos dela antes de sair para a rua, ainda meio zonzo com o que acabara de fazer.

Se alguém lhe dissesse que era cedo demais para aquilo, ele teria rido na cara da pessoa – afinal, para ele, aquilo durara uma vida inteira e, para ser bastante sincero, até um pouco mais do que isso, considerando que boa parte desse tempo fora passada de forma platônica e silenciosa.

Mas, bem, exatamente por isso é que talvez fosse cedo demais, porque, ainda que a rotina de casal lhes tivesse ajustado como uma luva, o relacionamento deles era relativamente recente.

Arquimedes suspirou. Talvez ele estivesse metendo os pés pelas mãos. Ou talvez estivesse fazendo uma tempestade em copo d’água. Ao final das contas, ele praticamente se mudara para o apartamento de Penélope sem que fosse necessário sequer uma pré-aquiescência ou coisa parecida. Simplesmente tinha acontecido.

Bem que essa parte da história também podia simplesmente acontecer, sem que ele precisasse suar frio e ensaiar discursos. Ir dormir num dia solteiro e acordar no seguinte...

Ele balançou a cabeça para si mesmo. Sua nova resolução de ano novo era ser mais resoluto. Agir positivamente. Fazer o que era necessário...

E conseguir pedir Penélope em casamento.


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#099: Resoluções de Final de Ano - Parte II
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Ela sorriu para si mesma ao divisar da cozinha sua mãe e Dona Roberta trocando histórias enquanto terminavam de arrumar a mesa para a ceia de natal, cada qual mais animada que a outra, num burburinho de fofocas e segredos de molhos.

Do outro lado da sala, Heitor, o pai dela e Arquimedes compartilhavam a TV, comentando qualquer coisa sobre a programação natalina enquanto tentavam se fazer o mais inconspícuos possível, a fim de não atrair a atenção das senhoras e de repente se verem intimados ao serviço pesado: abrir vidros de conserva, garrafas de vinho, ronronar carinhosamente e outras miudezas do tipo.

Os Natais sempre tinham sido animados em sua casa – a mãe era uma devota da época, que adorava enfeitar a casa toda, erguer a árvore, arrumar o presépio, embalar presentes com cuidado e escrever cartões que quase ninguém mais respondia. A ceia era sempre um banquete e a casa ficava cheia de vizinhos, primos e o quem mais estivesse disposto a comer bem.

Aquela era talvez a primeira vez, desde que saíra de casa, em que em vez de ela viajar para ficar com os pais, eram eles que vinham vê-la. Sem fanfarras ou serpentina. Apenas a família.

Penélope deu um meio sorriso. Família. Ela gostava dessa palavra. Gostava da forma como ela soava. Gostava da idéia de ter uma. A sua família. E não apenas seus pais, seus tios, seus primos e seu gato, mas também Arquimedes.

Ela colocou uma mão protetoramente sobre a barriga. E pensar que ela acreditara que seu tempo, para aquilo, já passara. Que teria de se resignar com ‘filhos de segunda mão’, como certa vez Beatriz lhe dissera, ao afirmar que a estava adotando como sua mãe postiça, uma vez que a biológica vivia ocupado e o pai estava fascinado com múmias – o que quer que isso quisesse dizer.

Sua nova resolução de ano novo era ter mais esperança. Acreditar no melhor das pessoas. Ser mais aberta. Deixar o passado para trás...

E conseguir dizer a Arquimedes que ele ia ser pai.



A Coruja


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Um comentário:

  1. Aaawww... Que lindo!! *__*

    Que bom que (pelo menos) esses dois se ajeitaram!

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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