22 de julho de 2011

Na sua estante: fuçando o lixo atrás da verdade





#073: Fuçando o Lixo atrás da Verdade
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Beatriz observou o táxi se afastar para então se voltar para o prédio. Ok, ela estava ali. Agora só precisava achar o apartamento de Mariana, convencê-la a conversar e tentar de resolver aquilo de uma vez por todas antes que seu irmão fosse obrigado a pagar terapia pelo resto da vida.

Se bem que ela achava que era um pouco tarde demais para fazer alguma coisa sobre a terapia...

Dando um ligeiro suspiro, ela caminhou até a portaria, tentando chamar a atenção do porteiro, que estava mais preocupado em ouvir noticiário esportivo no radinho de pilha.

- Com licença. Ei, com licença... – ela deu um passo para o lado quando o portão se abriu, provavelmente para deixar algum morador sair – Você pode interfonar para o apartamento 1101 da Mariana?

- Você é amiga da Mari?

Não fora o porteiro que falara, mas alguém as suas costas. Um tanto surpresa, Bia se virou, dando de cara com um rapaz um pouco mais velho, que a observava com curiosidade.

- Sou sim. – Bia respondeu mais que rápido. Não chegava a ser uma mentira, especialmente a se considerar que era bastante provável que a outra moça fosse estar presente pelo resto de sua vida, como sua cunhada – Você a conhece? Sabe se ela está casa? Eu precisava falar com ela urgente.

- Ah, é sobre o trabalho de faculdade que ela estava falando, não é? – ele sorriu – A Mari estava preocupada com isso também. Ela está em casa, sim, eu estou saindo para comprar remédio para ela.

Bia sentiu o sangue fugir do rosto. Remédio? O que poderia ter acontecido? O bebê...

- Ela está bem?

- Ela vai ficar bem depois que a cólica passar. É assim todo mês. Não tenho inveja de vocês, mulheres... A propósito, eu sou o Marcos. – ele estendeu a mão, sem deixar de sorrir – O noivo. Muito prazer.

Aquilo era muita informação para processar de uma vez só, de forma que ela apenas apertou a mão dele de forma automática, repetindo o próprio nome à guisa de apresentação. Cólica. Noivo.

Dane-se conversar e tentar conciliar qualquer coisa que fosse. Ela ia matar alguém.

Algo em seu rosto chamou a atenção do rapaz, que a tomou pelo braço, levando-a para dentro do prédio com um breve olhar resignado para o porteiro, que continuava muito ocupado com seu rádio.

- Você não me parece muito bem. Quer que eu a acompanhe até lá em cima?

- Não, não, foi só... – ela respirou fundo – Foi só uma tontura. Acho que é o sol. Eu estou bem.

Ela sorriu de orelha a orelha de forma radiante. Céus, ela deveria estar nos palcos. Era uma magnífica atriz!

Marcos encarou-a por alguns instantes, parecendo examiná-la para ter certeza que ela não cairia dura ali, para então tirar um par de chaves do bolso, entregando para ela.

- A Mari estava no banho quando eu saí. Por que você não sobre, bebe um pouco de água e se senta para esperar por ela? Eu volto logo.

- Obrigada, acho que vou fazer isso mesmo. – mais que rapidamente ela aceitou as chaves, agradecendo aos céus por aquele encontro fortuito.

Se Marcos estava dizendo a verdade – e não havia porque ele estar mentindo para ela – isso significava que não havia bebê. Talvez nunca tivesse havido bebê, o que confirmava sua teoria de que Mariana era uma psicopata disfarçada que estivera o tempo todo manipulando André.

Portanto, era hora de pôr em prática o conhecimento adquirido em horas de Medical Detectives, CSI, Law & Order e outros seriados investigativos para poder cometer o crime perfeito.

Beatriz subiu o elevador em devaneios homicidas, perguntando-se se seria possível se livrar de um corpo dando descarga nas partes desmembradas. Era algo que valia à pena tentar. Ela teria de fugir depois, claro, fazer uma cirurgia plástica para mudar de rosto e assim trocar completamente de identidade para nunca ser reconhecida.

Talvez sua mãe pudesse ajudar com isso; os contatos dela certamente serviriam para lhe arranjar novos documentos. Quando ela soubesse disso, Bia tinha certeza que a mãe a ajudaria. E se lamentaria por não poder ter participado, ao mesmo tempo em que providenciava uma vasectomia para André.

O mais silenciosamente que podia, ela girou a chave na fechadura. Precisava tentar se controlar. Tentar ouvir primeiro as explicações da bruxa antes de pular no pescoço dela. Talvez houvesse alguma explicação lógica para tudo aquilo, alguma abdução por extraterrestres ou coisa parecida porque, francamente, ela estava cansada de se sentir como se estivesse no roteiro de um folhetim semanal de humor duvidoso.

Com o apartamento aparentemente vazio, Beatriz podia ouvir o som do chuveiro vindo de algum lugar mais para dentro. Bem, talvez ela pudesse investigar um pouco enquanto esperava para confrontar Mariana.

Sua primeira parada foi a cozinha. Havia uma bolsa de água na pia, ainda meio morna, e uma caixa vazia de remédio para cólica no lixo. Isso lhe deu uma idéia, e ela voltou pelo corredor até o pequeno lavabo para verificar o lixo lá também.

Nada nele.

Continuando pelo apartamento, Bia pegou o corredor que ia para os quartos – dois, um de frente para o outro, sendo que o mais distante estava com a porta fechada e era de onde vinha o som do chuveiro. Assim, ela se voltou para o outro, colocando a cabeça para dentro e dando de cara com uma espécie de escritório.

Havia uma outra porta fechada nesse quarto e ela se dirigiu para lá, apostando que seria outro banheiro. Era. E no lixo desse... bingo!

Ok, hora de voltar para a cozinha e procurar a gaveta das facas.

- Marcos? Você já voltou?

Beatriz cerrou os punhos ao ouvir a voz de Mariana. Muito bem, o show tem de continuar... Hora do grand finale.

- Não. É a Beatriz, Mariana. A irmã do André. – ela respondeu enquanto retrocedia para o corredor, parando à porta e sentindo um prazer quase perverso ao perceber que o rosto da outra tomara um tom próximo ao esverdeado – Lembra de mim? Pensei em parar aqui hoje, bater um papo, tricotar um pouco... Você sabe tricotar? Minha avó estava me ensinando da última vez que veio nos visitar. Posso ensinar você enquanto fazemos roupinhas para seu bebê imaginário, o que acha? Tenho certeza que meu irmão vai adorar ajudar. E o Marcos também. Muito simpático seu noivo. Ele já sabe do golpe que você anda tentando dar por aí? Talvez possamos incluí-lo na aula de tricô.

- O que você quer? Mariana perguntou com a voz rouca, encostando-se à parede.

- Você pode começar com a verdade. – ela respondeu.

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A Coruja


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Um comentário:

  1. E dá-lhe Beatriz!!! Cada dia amo mais essa guria... esse capítulo é mesmo oh-oh hehehehehe
    esrelinhas coloridas...

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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