1 de julho de 2011

Na sua estante: dialetos





#070: Dialetos
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- Você está cianosando. – Davi observou enquanto se sentava à mesa do café da manhã, enchendo sua xícara.

Sofia parou a meio caminho das torradas, enquanto Dani erguia a cabeça para encará-lo, as mãos manchadas de tinta azul interrompendo seu percurso no bloco de desenho.

- Cianose. – ele respondeu – O próximo passo é a morte por asfixia.

- COMO É QUE É?

*****

- O que está passando de interessante na TV? – Bia perguntou, parando ao lado da mesa, surrupiando três pães de queijo antes de seguir para a geladeira atrás do suco.

- Estão tentando decidir se o juiz tem competência para atuar no caso. – André respondeu absorto – Na minha opinião, trata-se de uma incompetência relativa.

Beatriz fechou a geladeira, encarando o irmão com uma careta.

- Por quê? Se ele é relativamente incompetente, isso significa que ele é só relativamente burro? Como esse cara virou juiz afinal?

*****

- Você começa colocando uma clave de sol para indicar o tom de soprano e essa aqui em baixo, mais grave, é uma clave de fá. Ai a partitura começa com um bemol em....

- Eu não posso só desenhar pontinho e tracinho para cima e para baixo? – Dani perguntou.

Sofia arqueou uma sobrancelha.

*****

- Eu não entendi lhufas – Luís confessou.

Beatriz suspirou.

- Ok, então. Certo. – ela respirou fundo – Imagine que você tem um rolo de papel higiênico, certo? – para ilustrar, ela tirou o citado material da bolsa e, com uma caneta, desenhou uma carinha sorridente no papel – Ok, então, essa parte que você vê é a superestrutura, certo? Ela é a parte que você enxerga. É o Estado, a estrutura jurídica, a ideologia que você pode identificar. O rolo por baixo é a infraestrutura, é a base, os fundamentos onde se apóiam as estruturas sociais. São as relações materiais de produção. Então, digamos que sua infraestrutura seja uma relação de feudalismo, vassalo, suserano, etc.: a sua superestrutura será um conjunto de crenças, de ideologias, de Estado, que se fundamentam nessa relação. Entendeu?

O rapaz piscou os olhos.

- Você acaba de me explicar Karl Marx com um rolo de papel higiênico?

A moça deu de ombros.

- Eu faço licenciatura...

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A Coruja


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