29 de julho de 2011

Na sua estante: confronto





#074: Confronto
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Beatriz esperou que ela se sentasse no sofá, observando-a fixamente enquanto cruzava os braços. Sentia-se incrivelmente civilizada por ter sido capaz de deixar a moça passar para a sala sem atacá-la no meio do caminho. Ela deveria ganhar um prêmio por seu autocontrole.

Quando aquilo acabasse, praticaria golfe usando a cabeça do irmão como bola.

O rosto de Mariana estava fechado numa expressão miserável e Beatriz poderia até ter sentido alguma compaixão por ela – afinal, era uma garota também, sabia o que eram cólicas – se não fosse por sua desconfiança de que, no final das contas, aquilo também não passava de fingimento.

- O que você quer? – Mariana repetiu, num tom cansado, sem encará-la.

- Por que você inventou tudo isso? – Beatriz perguntou simplesmente – Por que quis destruir a vida do meu irmão?

- Eu não sei do que você está falando.

- Ah, por favor... Você não é burra, Mariana. Pode ter um monte de defeitos, mas sei que não é burra; embora eu não faça idéia de como você pretendia continuar sustentando essa mentira. Você não está grávida e eu tenho agora certeza de que nunca esteve. Se tivesse perdido o bebê, você estaria no hospital agora e certamente usaria isso sobre a cabeça do meu irmão pelo resto da vida, controlando-o pela culpa. – Beatriz sorriu quase maniacamente – Vê? Eu também sou inteligente. Sei somar dois e dois.

Ela respirou fundo, balançando a cabeça. Aquilo era, francamente, sórdido demais, mas, de alguma forma, Beatriz sabia que seria exatamente o que Mariana faria, se tivesse havido a oportunidade. Isso ou ela ainda tinha esperanças de engravidar e continuar levando o teatro à frente – e talvez isso explicasse porque o pobre Marcos continuava por ali, uma vez que André nunca mais passara a noite com ela.

Ou, pelo menos, fora isso que ele lhe dissera.

- Por que você fez isso? – ela perguntou de novo – Por que se prestar a um papel ridículo desses?

- Você nunca gostou de mim. Está inventando histórias para me prejudicar. Eu...

- Pelo amor de deus, Mariana, não seja cínica! Isso não tem nada a ver com o fato de que nunca fui com a sua cara, por mais verdadeiro que isso seja. Jamais entendi o que meu irmão viu em você! Você é falsa, controladora, uma boa bisca, é isso que você é!

- André me ama! – a essa altura, Mariana estava gritando e avançando para cima dela ao mesmo tempo.

Beatriz não se preocupara, ao entrar no apartamento, em fechar a porta, de forma que ela ficara entreaberta, apenas encostada. Sem que nenhuma das duas percebesse, alguém a estava abrindo agora.

- Você percebe o que acaba de dizer? Você não se defende dizendo que ama meu irmão. Sim, o idiota ama você, mas isso vai passar. Assim que ele souber das mentiras que você esteve contando, ele vai se tocar que VOCÊ NÃO VALE À PENA!

- NÃO SE ATREVA!

- Quem vai me impedir? Você? Você acha realmente que eu não vou sair daqui direto para o meu irmão e dizer que você inventou essa gravidez? Ele vai acreditar em mim. Você nunca deu nenhuma prova de que estava grávida e basta ir ao médico para provar que nunca esteve. Então ele estará finalmente livre de você!

- CALA A BOCA!

Beatriz não teve chance de se defender quando a outra a empurrou violentamente para trás. Quase como em câmara lenta, ela deu um passo para trás antes de perder o equilíbrio, desabando sobre a mesa de centro.

O vidro se partiu sob seu peso, lançando lascas em todas as direções. Caída no chão, Beatriz sentiu algo quente escorrer por seu braço e, levantando-o, surpreendeu-se ao perceber que um dos fragmentos maiores tinha feito um talho, alojando-se na pele coberta de pó de vidro.

Quase que imediatamente, a ferida começou a latejar e seus olhos se encheram d’água com a dor. As surpresas, contudo, não tinham acabado. Tanto Beatriz quanto Mariana se voltaram ao ouvir passos.

Sofia parou defronte Mariana ao mesmo tempo em que descia a mão com toda força sobre o rosto da garota. O tapa ecoou no silêncio que se seguira à queda de Bia, violento o suficiente para virar a cabeça da outra.

- Da próxima vez que você voltar a se aproximar de qualquer um dos dois, eu quebro seu nariz. – a pianista disse em voz baixa, quase tremendo de raiva, antes de se voltar para Beatriz e puxá-la, com cuidado, para pô-la de pé.

Mariana observou as duas caminharem até a porta, pela primeira vez percebendo a outra figura daquele drama, parado em silêncio, observando-a sem expressão. Tão logo Sofia e Beatriz passaram, André deu-lhe as costas, fechando a porta do apartamento atrás de si.

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A Coruja


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Um comentário:

  1. Carambolas atômicas que capítulo foi esse?!!!! Eu mesma queria dar um tapão na cara dessa infeliz... confesso que ficarei esperando o próximo capítulo como se não houvesse amanhã.
    estrelinhas coloridas...

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