27 de maio de 2011

Na sua estante: Here Comes the Sun




#065: Here Comes the Sun
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Little darling
The smiles returning to the faces
Little darling
It seems like years since it's been here

Here comes the sun
Here comes the sun
And I say
It's all right

Dani estava no chão, rabiscando alguma coisa no bloco de desenho, enquanto Sofia dedilhava melodias no piano, volta e meia cantarolando junto. Davi saíra com o tio para o hospital – empolgadíssimo com a idéia de participar de uma cirurgia que o capitão prometera.

As duas tinham tido uma manhã tranqüila, cada uma absorta em suas próprias criações – uma vez que Sofia descobrira o talento da prima, acalmara-se substancialmente quanto aos prolongados silêncios da mais nova, habituando-se à companhia calma da outra.

Claro que quando você acha que está tudo dentro dos conformes, que nada pode perturbá-lo e que será um belo e tranqüilo dia, Murphy decide que é o momento de fazê-lo acordar para a vida – no caso de Sofia, com uma estridente e insistente campainha.

Os cachorros lá fora começaram a latir, fazendo festas a quem quer que estivesse no portão. Uma voz conhecida saudou-os alegremente. Sofia suspirou, encarando a expressão curiosa de Dani, que se voltara para ela.

- E eu que cheguei a acreditar que esse dia nunca chegaria depois de tantos planos abortados...

A prima piscou os olhos, como se estivesse a se perguntar do que diabos a mais velha estava falando.

- SOFIA! Dá para vir abrir logo esse portão?

- Esteja preparada. – Sofia anunciou para uma confusa Dani, enquanto se levantava do banquinho e sumia no jardim.

Beatriz estava com uma mão para dentro do portão, afagando alternadamente Bingley e Tilney II – ou Bingo e Tino, de acordo com sua pronúncia na infância, quando eles tinham chegado a casa. A amiga sorriu de orelha a orelha ao vê-la.

- Vim pedir asilo político.

- Asilo político? – Sofia arqueou uma sobrancelha – O quê...

- Estão querendo levar uma múmia lá pra casa.

- Perdão?

- Estão querendo levar uma múmia lá pra casa. – Beatriz repetiu pacientemente – Ou, pelo menos, meu pai está tentando convencer um chinês esquisito que faz parte da comissão que minha mãe está... bem, eu não tenho idéia do que ela está fazendo com eles. O caso é que meu pai quer convencer esse chinês a deixá-lo estudar uma múmia lá em casa.

- Isso não é alguma espécie de crime? E seu pai não deveria estar em repouso absoluto? – Sofia questionou, abrindo o portão e deixando a amiga passar.

- Vá dizer isso para ele. Minha mãe estava cuidando para que ele obedecesse às ordens médicas, mas ela perde um pouco a noção de resto do mundo quando se envolve num novo projeto. Claro que se papai conseguir o impensável, ela vai ter de se tocar de que há um cadáver embalsamado contrabandeado na sala de jantar. Ou na geladeira... depende de como seja necessário conservá-la. Não que eu acredite que alguém se deixe convencer a levar uma múmia para ser estudada num apartamento, mas se já chegamos a esse nível de argumento, eu não quero estar em casa para descobrir o que vão aprontar a seguir. Assim, estou pedindo asilo político.

- E sua mãe sabe disso?

Bia deu de ombros.

- Eu falei com ela. Mas não tenho certeza se estávamos falando a mesma língua. Na verdade, eu tenho quase certeza que não estávamos.

- André?

- Deu no pé quando o primeiro par de olhinhos puxados apareceu. Ele está em período de provas.

Sofia assentiu.

- Ok. Você pode ficar aqui, Bia. Mas, por favor, não mate meus primos de susto. Especialmente a Dani. Ela é muito tímida.

- Não se preocupe, eu serei o espírito da discrição. – Beatriz respondeu, entrando na casa à frente da amiga, largando a mochila sobre o sofá para em seguida deparar-se com a outra ocupante da casa.

Era a primeira vez que Beatriz encontrava um dos primos de Sofia, ainda que eles já estivessem ali há meses. A questão é que toda vez que marcavam para ela ir conhecê-los, acontecia alguma coisa: viagens, escapar de um pastor ensandecido tentando exorcizá-la, trabalhos de faculdade, seu pai sofrer um acidente...

- Olá! Você deve ser a Dani. Eu sou a Beatriz. Mas pode me chamar de Bia. – ela se aproximou da garota no chão, estendendo a mão para ela – Sou a irmã postiça da Sofia, então você pode me considerar da família também.

Sofia apenas balançou a cabeça, sorrindo por trás de Bia, enquanto Dani aceitava a mão oferecida pela recém-chegada.

- Muito prazer. – ela respondeu de forma tímida, embora com um meio sorriso em reflexo ao da recém-chegada.

- Espero que não se importe, mas vim passar a semana com vocês, até que meu pai tire o gesso e desista de colocar uma múmia na geladeira. Ele é arqueólogo. – ela se deixou sentar ao lado da mais nova no chão, roubando um olhar do bloco que repousava no colo dela – Nossa, você desenha muito bem. Posso ver?

Dani assentiu, entregando o bloco para Bia, enquanto trocava um olhar com Sofia, que apenas deu de ombros, algo resignada. Tanto para ser ‘o espírito da discrição’...

O desenho mostrava Sofia debruçada sobre o piano, o jardim aparecendo pela janela um pouco à esquerda da cabeça dela, a expressão atenta sobre as partituras. Beatriz sorriu, reconhecendo em cada linha a própria personalidade da amiga: tranqüila, concentrada, delicada.

- Você realmente desenha muito bem. – Beatriz disse, devolvendo o bloco – Mesmo se você não tivesse desenhado o rosto dela, daria para reconhecer Sofia por inteiro nesse quadro.

- Ela é muito fácil de desenhar. Especialmente quando toca. – Dani murmurou, o sorriso um pouco mais pronunciado.

- Imagino que seria um pesadelo me desenhar então, porque nunca consigo parar quieta num lugar. – Bia riu, levantando-se – Sofia! O que tem para o almoço? Posso ajudar com alguma coisa?

- Deus me livre de deixar você entrar na cozinha, Bia. – Sofia retrucou, colocando as mãos no bolso dos shorts que usava – Na verdade, estou a fim de pedir uma pizza hoje.

- No almoço?

- Por que não?

- Bem, você quem sabe. Eu aceito pizza. Pode ter pizza de chocolate para a sobremesa?

Dani observou as duas discutirem de forma bem humorada. Era óbvio pela postura delas o quanto se sentiam confortáveis uma com a outra. O que era curioso porque até mesmo fisicamente, elas pareciam o oposto uma da outra.

Sofia era pálida, com longos cabelos corridos e olhos escuros, enquanto Bia era corada, de cabelos mais claros e curtos criando cachinhos em torno do rosto sorridente. Elas eram... elas eram como sol e lua, cada qual com seu tipo de brilho, de espírito.

Virando a folha do bloco, Dani começou um novo desenho...

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A Coruja


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Um comentário:

  1. A cada sexta é mais gostoso de ler este folhetim... o jeito da Bia é tão cativante, tão espontâneo que não tem como não se render ao seu charme hehehehe
    estrelinhas coloridas...

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