25 de março de 2011

Na sua estante: mudez





#056: Mudez
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- Você prefere geléia ou requeijão com as torradas? – Sofia perguntou, encarando a prima com atenção.

Dani levantou os olhos brevemente, inclinou a cabeça na direção do pote de requeijão e voltou para o bloco em seu colo, o lápis quase voando entre seus dedos sujos de tinta.

- Davi? – a musicista voltou-se para o primo.

- E prefiro a geléia, obrigado. – ele respondeu com um aceno de cabeça.

A moça suspirou, empurrando o vidro de geléia na direção dele, para então começar a passar requeijão nas torradas da prima – ela já percebera que se fosse esperar para que a outra cuidasse disso sozinha, acabaria por se esquecer de comer, envolvida que estava... no que quer que ela estivesse rabiscando naquele bendito bloco.

Desde que os primos tinham chegado, Sofia podia contar nos dedos (de uma só mão) quantas vezes ouvira a voz da caçula. Na verdade, se não tivesse a absoluta certeza de que não sofria de alucinações e que, sim, Dani já havia aberto a boca desde que passara a residir no casarão, ela juraria que a menina era muda.

Normalmente, ela não se incomodava com o silêncio. Na verdade, ela o preferia. Mas Dani levava a idéia de ser taciturna a um inteiro outro nível.

Ela terminou de passar o requeijão nas torradas. Seu pai já saíra para o plantão. Precisavam ainda deixar Dani na escola antes de seguirem para a faculdade. Se não saíssem em mais quinze minutos, depois de deixar Davi no departamento de medicina, ela acabaria chegando atrasada.

- Acabei.

Sofia piscou os olhos, voltando-se para Dani. Ela acabara de falar? A caçula sorriu para ela, estendendo o bloco em que estivera tão diligentemente concentrada nas duas últimas semanas.

No papel, havia um retrato perfeito da própria Sofia. Ali estava a figura dela, sentada junto ao piano, cercada de livros e CD’s, a melodia parecendo quase fluir da imagem.

Ela sorriu, finalmente entendendo. Dani era uma artista. Como ela mesma, aliás. E, da mesma maneira que ela falava através de sua música, a prima falava através de seus desenhos.

- Obrigada. – Sofia acenou com a cabeça – E agora, coma suas torradas ou vamos chegar atrasados. E mais tarde, quando sairmos da aula... o que acha de irmos à papelaria e comprar mais material de desenho?

Dani assentiu.

- Sim, senhora!

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A Coruja


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