31 de dezembro de 2010

Na sua estante: receita de ano novo





#043: Receita de Ano Novo
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Junte duas matronas mães de filhos únicos de sexos opostos desesperadas por terem netos com um pai que já percebeu toda a história de cara, mas está se divertindo imensamente com a confusão e os dois já mencionados filhos numa mesma casa. Jogue sobre o a mesa de centro algumas revistas sobre noivas que curiosamente apareceram do nada, misture com um elenco de tias solteironas que nada têm de melhor a fazer na vida além de se meter na dos outros e, voilá! Está pronta a receita para o desastre.

Penélope suspirou resignada, enquanto pensava consigo mesma que nada tinha do que reclamar. Ao final das contas, ela era a única culpada daquela situação. Ela e sua boca grande.

E ela que pensara que o Natal fora ruim... Muito pior era sua mãe, que parecia em êxtase com a história toda e observava ela e Arquimedes juntos quase como se estivesse diante de um milagre.

Ela duvidaria de que até o final da noite a mãe não cairia de joelhos e começaria a cantar o Hallellujah. Podia até ver a cena em sua mente – e só de imaginá-la, já sentia as bochechas esquentarem de vergonha.

Ela devia ter jogado pedra na cruz, só podia...

De mais a mais, para ser totalmente sincera, as coisas não estavam tão ruins quanto imaginara que seria a princípio, quando concordara com a idéia maluca de Arquimedes. Até agora, tinha saído juntos duas vezes; as duas para ir ao supermercado e fazer compras, primeiro para a ceia natalina, depois, para o jantar de ano novo.

Penélope achara que seria muito mais esquisito fazer aquilo, mas fora... confortável. Familiar... Ao contrário do que imaginara no começo, ela não se sentira pressionada ou numa situação quase esquizofrênica de estranheza.

- Faltam dois minutos! – a voz de D. Roberta soou um pouco atrás dela.

Cadeiras se arrastaram, enquanto todos conversavam alegremente, seguindo para a varanda onde ela já se encontrava, todos empolgados por ver os fogos de artifício. Penélope sentiu uma mão escorregar por dentro da sua e, virando-se, deu de cara com o sorriso tranqüilo de Arquimedes.

Ela sorriu de volta.

- Um minuto!!!

Ao redor deles, seus familiares começaram a fazer a contagem regressiva. Da sala, vinha o barulho da televisão, que fazia coro à parentela.

- 10... 9... 8...

Ela fez um breve esforço para se lembrar de sua lista de resoluções de ano novo: tentar ter a mente mais aberta, não julgar livros pela capa (nos dois sentidos) e fazer uma bendita dieta. Pequena, simples e direta.

O problema, claro, era apenas cumpri-la.

- ...5... 4... 3... 2...

Ela segurou o fôlego quando os fogos de artifício começaram a estourar. Sempre adorara fogos de artifício. Ao redor deles, os outros se abraçavam, riam, e faziam brindes desajeitados.

Arquimedes se inclinou para ela e Penélope sorriu, alcançando-o para um abraço.

- Feliz ano novo, Penélope. – ele murmurou, contente.

Ela assentiu, rindo e deixando-se levar pela atmosfera festiva pela primeira vez na noite.

- Feliz ano novo, Arquimedes.


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A Coruja


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Um comentário:

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