19 de novembro de 2010

Na sua estante: se conselho fosse bom...





#037: Se conselho fosse bom...
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Ela quase rolou do sofá direto para o chão com o estrépito da porta. Deixando o livro com que estivera tentando se distrair escorregar para o lado, Beatriz levantou meio corpo, deparando-se com a figura do irmão na penumbra da sala.

- Você sabe que são três da manhã e nós temos vizinhos?

André voltou-se para ela, ele mesmo parecendo um tanto surpreso de vê-la ali, antes de se deixar cair pesadamente numa poltrona defronte a ela.

- O que você está fazendo acordada a essa hora, Beatriz?

- Além do motivo óbvio de estar esperando vossa majestade chegar? – ela retrucou com sarcasmo.

O rapaz apenas suspirou, fechando os olhos e encostando-se no espaldar da poltrona.

- Por que as mulheres têm de ser tão complicadas?

Beatriz piscou os olhos.

- Isso foi uma pergunta retórica?

- Não. – ele respondeu, voltando a abrir os olhos para fixá-los sobre a irmã – Eu não faço idéia do que fazer com a Mari.

- E você está pedindo conselhos a mim? – Beatriz perguntou, agora estupefata.

Foi a vez de André lançar mão do sarcasmo, arqueando uma sobrancelha.

- Você está vendo mais alguém nessa sala?

- Meu caríssimo irmão... – Beatriz começou – Você não pede conselhos a mim. E há inúmeros motivos para isso. Primeiro, eu sou apenas o ser bizarro a quem você tem de dar carona e acompanhar à mesa na hora do jantar. Segundo, da última vez que eu ofereci meus serviços na área, você riu tanto que muito literalmente caiu da cama. Terceiro, caso você ainda não tenha percebido, eu não vou muito com a cara dessa Mariana, então, realmente, não é como se eu estivesse nas arquibancadas com uma bandeirinha torcendo para que essa confusão em que você se meteu dê certo. Quarto, você é meu irmão, eu te conheço desde que nasci e, baseada na minha experiência, não posso deixar de pensar que você tem culpa no cartório, seja lá o que aconteceu dessa vez. Quinto, considerando que sou paranóica e desconfiada e nunca tive um relacionamento na vida, eu deveria ser realmente a última pessoa a quem você recorreria, uma vez que não tenho qualquer experiência no assunto. – ela deu uma pausa para respirar, antes de voltar à tirada – E, finalmente, sexto, se você realmente quer meu conselho, eu diria para você terminar tudo com essa moça e ir procurar alguém que, no mínimo, não tenha namorado; conselho, claro, que você não vai seguir.

Por alguns instantes, o rapaz apenas a encarou em silêncio, antes de assentir com a cabeça.

- São argumentos bastante válidos.

Beatriz deu um meio sorriso cansado.

- Eu tento... De qualquer forma, eu não sei exatamente o que você espera que possa vir dessa história toda, André. – ela suspirou – Vamos cogitar que a Mariana terminasse com o noivo para ficar contigo... Você realmente seria capaz de confiar nela, considerando que ela já traiu alguém, com, aliás, ninguém mais que você mesmo?

Ele assentiu.

- Eu já entendi seu ponto.

- Isso é bom. - ela respondeu - Espero que você tome uma decisão sábia.

André se levantou.

- Isso talvez seja um pouco difícil. - ele deu de ombros - É difícil resistir à tentação, especialmente quando um tanto de irracionalidade está jogada na equação.

Beatriz estreitou os olhos.

- Irracionalidade?

Foi a vez dele sorrir, de forma quase resignada.

- O problema todo, Bia, é que eu realmente gosto dela.

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A Coruja


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