20 de agosto de 2010

Na sua estante: A Divina Comédia





#024: A Divina Comédia
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- Eu ainda acho que você deveria dar uma chance para ele... – Penélope observou.

Beatriz suspirou. Aquela discussão se tornara algo como... um ritual entre elas. Toda sexta-feira, quando ela ficava até mais tarde na biblioteca para fazer seu trabalho voluntário e pegava carona com Penélope para voltar para casa – passando pelo supermercado para fazer a feira da bibliotecária – ela voltava para aquele assunto.

Estava começando a ficar cansativo...

- Eu realmente não sei porque você se importa tanto com isso. E eu não vou ficar com o Luís só porque você acha que ele gosta de mim. Mesmo se ele gostasse... – ela cruzou os braços sobre o peito, fazendo uma careta, o rosto tomando uma coloração rosada.

Penélope arqueou uma sobrancelha, observando a garota com atenção, esperando que ela continuasse. Como Beatriz não parecia fazer menção de prosseguir, ela se voltou ligeiramente para a outra.

- Mesmo se ele gostasse... – Penélope pressionou.

- Eu já gosto de alguém. – Beatriz confessou por fim, afundando-se ainda mais no assento.

Bem, aquela era nova... Definitivamente, Penélope não esperava por aquela informação – em todos os meses desde que conhecera a garota, ela nunca notara nada de diferente no comportamento de Beatriz, nada que pudesse dizer que a caçula estava apaixonada.

- E esse alguém tem nome? – ela perguntou por fim.

Beatriz respirou fundo.

- Dante. O nome dele é Dante.

- Como em Dante Alighieri? – Penélope perguntou – O Dante Alighieri que escreveu A Divina Comédia e nutria uma paixão platônica por Beatrice? – ela teria cruzado os braços e batido o pé se não estivesse dirigindo – Francamente, Beatriz, você não acha que eu vou acreditar nisso, não é mesmo?

- Mas é verdade! – a garota exclamou, o rosto ainda mais vermelho que antes – Eu não tenho culpa da minha mãe ter me chamado de Beatriz, nem ele tem culpa de ter sido batizado Dante. Eu não estou mentindo!

A mais velha tamborilou os dedos por alguns instantes no volante, antes de virar para entrar no estacionamento do supermercado.

- Muito bem... quando eu vou conhecer esse Dante?

Beatriz a encarou longamente.

- Se depender de mim... nunca.

- Ora, vamos, Bia, o que você acha que eu vou fazer? Oficiar o casamento na biblioteca e declará-los marido e mulher?

- Algo parecido. – ela respondeu – Realmente, Penélope, eu preferiria que você deixasse isso em paz.

- Muito bem... – a mulher suspirou, terminando de estacionar – Eu a deixarei em paz... por agora. Mas não pense que eu vou esquecer disso ou vou desistir de conhecer esse rapaz. Agora... vamos às compras.

Beatriz apenas resmungou baixinho, enquanto saía do carro, já seguindo a outra. Aquilo ainda ia render uma longa história...


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A Coruja


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