30 de abril de 2010

Na sua estante: O lugar de onde vem a inspiração para roteiros de novelas mexicanas





#012: O lugar de onde vem a inspiração para roteiros de novelas mexicanas
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Não pela primeira vez (nem pela última, a julgar pelas últimas duas horas), o telefone vibrou sobre a mesa, sendo solenemente ignorado pela bibliotecária em favor do grosso volume encapado que ela lia naquela tarde.

Beatriz levantou a cabeça, observando a figura do irmão, sentado do outro lado da mesa com ela. Era óbvio pela careta que ele fazia que, embora mantivesse os olhos sobre o calhamaço de legislação comentada à sua frente, André não estava conseguindo se concentrar.

Aquela era apenas a terceira vez que ele aceitava se sentar com ela à biblioteca – de uma forma geral, o irmão preferia ignorá-la solenemente na faculdade. Ela não sabia muito bem como o convencera a acompanhá-la à biblioteca central, em vez da biblioteca do centro de ciências jurídicas, mas fora ele e Penélope se conhecerem e, de alguma forma que ela não fora muito capaz de compreender, se adotarem mutuamente – muito como ela mesma fizera antes.

Ela não sabia muito bem o que considerar dos instintos maternais de Penélope em relação a eles ou como considerar o fato de André ter sido “adotado” por ela tornando-se seu irmão por uma segunda vez.

Aquilo fazia algum sentido?

Não vendo lógica em continuar tal discussão consigo mesma, Beatriz decidiu fazer alguma coisa antes de André perdesse a paciência e fosse sua usual “charmosa persona”.

Um André irritado era raro, mas muito, muito perigoso.

- Penélope? – ela chamou, debruçando-se de lado sobre a cadeira, aproximando-se ligeiramente da mesa da mulher. Ela mordeu os lábios quando a bibliotecária voltou-se para encará-la – Hum... Por que você não atende o telefone?

A morena baixou o olhar brevemente para o aparelho antes de voltar-se para ela mais uma vez.

- É meu noivo.

- Noivo? – Bia estreitou os olhos, não tendo ouvido falar sobre aquilo antes.

- Ex-noivo, na verdade. – Penélope deu de ombros – Eu terminei o noivado.

- Por que você faria isso? – André esqueceu de vez seu código comentado, dando um sorriso quase maroto – Eu não vejo você ficando mais nova, Penélope. Devia ter agarrado o primeiro besta e...

- Ele me traiu com minha melhor amiga. – Penélope o cortou, respondendo com um sorriso próprio, sardônico.

Bia abriu e fechou a boca duas vezes, como um peixinho dourado fora do aquário. André permaneceu um inteiro momento em silêncio, antes de começar a rir com gosto, fazendo algumas pessoas se virarem na direção deles.

- Eu adoraria encorajar seu riso, André, mas devo lembrá-lo que estamos numa biblioteca? – a mulher arqueou uma sobrancelha.

- Desculpa, Penélope... mas é que... acho que de agora em diante vou ter de te chamar de corna.

- ANDRÉ!

- Deixa, Bia, isso é notícia velha. – Penélope apenas balançou a cabeça – Já faz mais de um ano, mas Leonardo continua ligando... Isso é o que me irrita. De resto, vamos convir, tem de rir mesmo. Parece até roteiro de novela mexicana.

Bia suspirou.

- Bem... os roteiristas de novela mexicana têm de encontrar inspiração em algum lugar...


A Coruja


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