5 de março de 2010

Na sua estante: Definições


Como hoje é a estréia de Na sua estante, decidi que em vez de publicar apenas uma das historietas que tenho na manga, publicaria um para cada um dos personagens principais da série, totalizando quatro mini-contos (porque André e Beatriz qualificam-se como um só nessa leva).

De certa forma, esse é o momento em que eles estão estendendo a mão para vocês e dizendo “Oi, tudo bem? Muito prazer em te conhecer”. Obviamente, vocês não saberão tudo que há para saber sobre eles só nesse primeiro contato; mas terão, ao menos, como começar a entender a personalidade deles.

Espero que gostem de conhecer esses meus novos “filhotes”. E não esqueçam de comentar. Enquanto isso, eu vou ali me enforcar mais um pouco em prazos do escritório...




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#001: Vocação
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Confere o prazo de devolução. Carimbo. Devolvido. Carrinho.

Às vezes, ela tinha a impressão de que tinha andado, andado, andado e nunca saído do lugar. Que estava presa numa grande redoma, ou talvez num daqueles aquários gigantes em que certas pessoas mantinham formigueiros – ela era uma formiga num formigueiro dentro de um aquário, sob as vistas de algum cientista... ou de um garoto socialmente inepto, que gostava de insetos e lia Kafka com um prazer secreto e quase indecente.

Confere o prazo de devolução. Carimbo. Devolvido. Carrinho.

Nesses momentos, ela sentia um desejo absurdo de sair correndo, sair do formigueiro, ver como o mundo era de verdade, com seus próprios olhos, e com todos os outros sentidos. Comer coisas diferentes, sentir cheiros diferentes, andar descalça ao longo de uma praia paradisíaca, sentindo a areia sob os pés e o vento forte no rosto...

E então, como sempre fazia desde criança quando entrava nesses estranhos estados de humor... ela abria um livro.

Confere o prazo de devolução. Atrasado. Multa. Livro de Ata. Devolvido. Carrinho.

Os livros sempre tinham sido seu refúgio, e a biblioteca, seu lugar favorito. Quando pequena, ela gostava de imaginar a si mesma vivendo em uma espécie de biblioteca mágica, onde os livros sussurravam entre si, mudavam de posição e se escreviam sozinhos, folheando-se enquanto o faziam.

Confere o prazo de devolução. Carimbo. Devolvido. Carrinho.

No final das contas, Penélope pensou consigo mesma, não era surpresa alguma que ela tivesse se tornado bibliotecária.


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#002: Uma rosa é uma rosa, mesmo que responda por outro nome
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Ele não chegaria ao ponto de dizer que odiava seu nome. Não, de forma alguma – era seu nome, sua identidade e, por mais que se esforçasse, não conseguia se imaginar sendo chamado de nenhuma outra maneira.

Contudo – e isso ele podia afirmar sem hesitação – seu nome era uma maldição.

Arquimedes, o gênio matemático que pronunciara um dos princípios fundamentais da hidrostática - ”todo corpo mergulhado num fluido recebe impulso de baixo para cima igual ao peso do volume do fluido deslocado” - e que saíra correndo nu pelas ruas de Siracusa gritando “Eureca” era mais que retrato nos livros de sua mãe: era um fantasma, uma sombra, uma espada sobre sua cabeça.

Ele vivera metade da vida – aquela que passara diretamente sob a asa da mãe, que era (e o que mais poderia ser?) professora de matemática – sob o peso da responsabilidade daquele teorema. Ser um matemático: esse era seu destino desde o momento em que foi batizado.

Havia apenas um pequeno problema nesta sua fabulosa fortuna: ele nunca demonstrara qualquer talento para equações. Em vez de números, amava as palavras.

Em vez de cálculos, fazia poesia.


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#003: Musa
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Desenha sempre fora como... uma segunda natureza. Um escape da pressão do dia-a-dia. Não fossem seus desenhos e os mundos que criava no papel – Luís tinha certeza – há muito teria ido parar na terapia.

O rapaz soltou um ligeiro suspiro, apoiando o queixo sobre uma das mãos em concha, enquanto que, com a outra, terminava de rabiscar traços que já conhecia de cor.

Foi quando a figura dela apareceu à porta da biblioteca.

Imediatamente, ele sentiu o rosto arder, baixando o olhar enquanto jogava o desenho para debaixo das pastas, réguas e materiais de desenho espalhados sobre a mesa – ainda que soubesse não haver qualquer chance de que ela se aproximasse o suficiente para ver o que ele fazia.

Para ver o rosto dela refletido no papel.

Aquilo era quase... patético. Luís balançou a cabeça para si mesmo. Se já chegara ao ponto de começar a conversar consigo mesmo, então, melhor era ser sincero: não era quase; era totalmente.

O que podia fazer, porém? Era dolorosamente tímido – nunca conseguiria se aproximar dela sem cair no ridículo.

E ela... ela era o riso, a doçura, formas perfeitas, nariz aquilino – profusão de adjetivos que demonstravam em quantos níveis ela o conquistara.

Luís suspirou novamente. Ela não era apenas a garota por quem se apaixonara perdidamente à primeira vista... não...

Ela era sua musa.


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#004: Obrigação contratual
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Penélope finalmente perdeu a compostura na oitava bolinha de papel.

- Céus! Será que dá para vocês pararem com isso? Estamos numa biblioteca, não num jardim-de-infância!

Os dois voltaram-se para ela então – Beatriz, corada, obviamente sem graça; André, quase bufando.

- Mas foi ela que começou! – o rapaz resmungou, não parecendo se importar com o fato de que, naquele instante, parecia ter nove e não dezenove anos.

- Você me chutou por debaixo da mesa! – a garota retrucou prontamente.

- Você não respondeu minha pergunta.

- Eu estava com fones nos ouvidos, idiota.

- Pelo amor de Deus, parem vocês dois! – Penélope interrompeu de novo – Do jeito que brigam, nem parece que são irmãos!

Beatriz e André se entreolharam.

- Na verdade... – ele começou – Eu acho que seria de se desconfiar se fomos trocados na maternidade se não brigássemos assim. É como uma... obrigação contratual.

- Eu ainda tenho minhas dúvidas se você não foi trocado na maternidade. – a garota observou, cruzando os braços.

- Ah, cala a boca.

- Por que você não tenta calar?

Penélope suspirou, resignada. E pensar que quando era criança, era louca para que os pais lhe dessem um irmãozinho. Graças a Deus por pequenos milagres: ela era filha única.


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Ok, pessoal, por hoje é só... Sexta-feira que vem tem mais. Enquanto isso... quem de vocês adivinha de onde vieram os nomes dos personagens de Na sua estante? Exceto por André e Mariana (que ainda não sei de que recônditos da minha mente vieram), todos os outros foram batizados em homenagem a figuras histórias, reais ou literárias.

Vocês conseguem identificar?


A Coruja


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8 comentários:

  1. Oi!
    Simplesmente adorei! Os contos ficaram realmente muito bons. Ahn, você quer mesmo que eu me arrisque a responder sobre os nomes? Bom, já aviso que são simplesmente chutes... =D
    Penélope foi da esposa de Ulisses, na lenda grega ou estou sendo muito óbvia?
    É só o que eu arrisco... :D
    Beijos!

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  2. Acertasse a primeira sim, Cathy. Penélope é a esposa de Ulisses na Odisséia de Homero. Estando o marido perdido entre a guerra e o mar há vinte anos, todos o julgam como morto e um monte de pretendentes apareceram em Ítaca para tentar casar com a rainha...

    Para se livrar deles - uma vez que acredita que Ulisses ainda vive - Penélope afirma que escolherá um marido após terminar uma mortalha para o antigo rei.

    Assim, ela passa os dias fiando a mortalha... e de noite, desfaz todo o trabalho, de forma que sua mortalha nunca fica pronta...

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  3. Sim, maaaaass... Se me permite o pitaco, Lulu, Penélope também é o nome da cativante protagonista de Os Catadores de Conchas, de Rosamunde Pilcher ^^

    Adorei esses drops literários. ^^

    Quanto aos prazos... Lulu, faça como o Poetinha... Hihihihihi! XD

    Beijocas!

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  4. Arquimedes "concebeu" o princípio do empuxo, não é? =P

    Eu pensei mesmo na Penélope do mito grego quando vi o nome da bibliotecária...

    Luís me remeteu a Camões e sua musa Dinameme. Corre uma lenda dizendo que durante um naufrágio, entre salvar Os Lusíadas e a amada, Luís de Camões optou por salvar a obra e assim surgiu o poema "Alma minha gentil que te partiste...", sendo a "Alma minha" a própria Dinameme.

    Quanto à Beatriz, eu não consigo pensar em nenhuma personagem, a não ser Bellatrix Lestrange, a comensal da morte, ou então a Beatrix Kiddo, aka "The Bride", do Kill Bill do Tarantino...

    E eu adorei esses drops literários! =D

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  5. Oops, esqueci dos outros:

    Dante seria o sr. Dante Alighieri, criador da Divina Comédia? =P

    Heitor... tem alguma obra grega que me lembra esse nome... Ah é, o filho de Príamo, que aparece na Ilíada.

    E Leonardo poderia ser o Leonardo da Vinci, eu acho.

    (Eu acho que tou virando uma acadêmica chata =P)

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  6. Bem, puxando a sardinha para o lado do meu xará... Há o escritor brasileiro André Vianco, que apesar de estar longe (MUITO longe) das figuras mencionadas nos outros comentários, achei que valeria a pena mencionar. =P

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  7. Ok, vamos para aulinha de história com Lulu...

    Penélope, esposa de Ulisses, personagem da "Odisséia" de Homero (já citada anteriormente). E, como a Régis me ajudou a batizá-la, acho que devo levar em consideração a referência dela a "Os Catadores de Conchas".

    Heitor, irmão de Páris, aquele que raptou Helena e com isso iniciou a Guerra de Tróia. Heitor é o grande campeão de Tróia e é tragicamente trucidado por Aquiles. É meu segundo personagem favorito de "Ilíada" (o primeiro, é claro, é Ulisses...)

    Arquimedes, cientista e matemático grego de antes de Cristo, que saiu nu pelas ruas de Siracusa gritando "Eureca".

    Luís, a Elise acertou em cheio, é o poeta Luis de Camões... E Dante é Dante Alighieri, o escritor da "A Divina Comédia".

    Beatriz, por sua vez, tem a ver com Dante... Quem leu A Comédia, deve se lembrar de Beatriz guiando Dante pelo Céu. Pois bem... existiu uma Beatriz na vida de Dante, ou melhor, uma Beatrice Portinari.

    Dante e Beatrice se conheceram ainda crianças, nove anos depois do primeiro encontro, por volta de 1283, eles se reencontraram e Dante se apaixonou por ela... Mas foi um amor platônico, uma vez que Dante já estava noivo, num casamento arranjado por seu pai. Beatrice morreu em 1290 e assim é que Dante nunca pode agir em seus sentimentos...

    Tanto na Comédia quanto na série de poemas "La Vita Nuova", ele expressa seu amor por Beatrice, fazendo dela sua musa, sua figura feminina ideal.

    Esss são os personagens com os qais fiz escolhas conscientes do significado de seus nomes... Os outros, como eu disse, vieram de abismos inenarráveis da minha mente...

    E, Elise, se você é uma acadêmica chata... eu sou o quê???

    André lembrou o André para dar sentido ao André. Mas meu André não tem nada a ver com vampiros...

    Faltou alguém?

    Ah, sim, eu acho - mas sem ter mita certeza - que Mariana tem alguma coisa a ver com Marília de Dirceu.

    Talvez eu devesse tê-la batizado de Marília... ou de Ana Júlia.

    Vocês entenderão futuramente...

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  8. Então aqui estou eu que de tanto ter gostado do lavagem de capitais resolvi ler desde o começo hehehehe adorei os nomes, meus pitacos sobre os nomes estavam certos, mas não sabia de vários detalhes que tu explicastes aqui nos comentários, adoro nomes com referências literárias hehehehehe...
    estrelinhas coloridas...

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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