26 de março de 2010

Na sua estante: Contradição





#007: Contradição
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- Bom dia, Penélope. – uma voz masculina a despertou de seu breve devaneio.

A mulher levantou novamente os olhos, sorrindo de leve ao reconhecer seu visitante.

- Professor Arquimedes! Mas que surpresa!

Ele deu um meio sorriso, balançando a cabeça.

- Realmente, Penélope, eu não vejo como pode ser uma surpresa que um professor de literatura freqüente a biblioteca.

- Bem, é uma surpresa que, com seu nome, você seja um professor de literatura. – ela apoiou os cotovelos sobre a mesa, depositando o queixo sobre as mãos cruzadas.

O homem revirou os olhos.

- De novo não...

Ela riu.

- Intimidade é uma droga, não?

- Ao menos você não perguntou dessa vez quando foi a última vez que eu saí correndo nu gritando ‘eureca’ pelas ruas. É um avanço. Essa piada já estava ficando velha.

Penélope riu de novo. Ela e Arquimedes iam de longo tempo – tinham sido vizinhos de bairro, colegas de escola, companheiros de ônibus quando iam para a faculdade e tinham terminado trabalhando no mesmo lugar. Realmente, se havia alguém que ela podia dizer que conhecia a vida inteira, além da própria mãe, era Arquimedes.

E, claro, desde que o conhecia, o nome dele tinha sido uma piada recorrente. Filho de uma professora de matemática, Arquimedes nascera praticamente predestinado a se tornar uma matemático.

Infelizmente, para Dona Roberta, o filho sempre se interessara muito mais por poesia que por números.

- Por mais velha que seja, você continua reagindo da mesma maneira, então, realmente, eu não vejo porque parar. De qualquer forma, o que posso fazer por você nessa bela manhã?

Ele abriu a maleta, tirando de lá uma lista, a qual imediatamente entregou para ela.

- Você pode separar esses livros para mim? Eu venho buscar na hora do almoço.

- Sem problemas, eu estarei com eles aqui.

Arquimedes assentiu.

- Obrigado, Penélope. Até mais tarde então, vou indo que tenho aula agora no primeiro horário.

Ela se despediu com um aceno rápido, antes de dar uma olhada na lista que ele lhe deixara, para então menear a cabeça.

- Como é que alguém que se chama Arquimedes pode ser fã de Baudelaire? – ela suspirou, balançando a cabeça, enquanto refletia sobre as contradições da vida.



A Coruja


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