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10 de junho de 2020
As Intermitências da Morte: uma sátira sobre a imortalidade

Apesar de tudo, a morte que agora se está levantando da cadeira é uma imperatriz. Não deveria estar nesta gelada sala subterrânea, como se fosse uma enterrada viva, mas sim no cimo da mais alta montanha presidindo aos destinos do mundo, olhando com benevolência o rebanho humano, vendo como ele se move e agita em todas as direções sem perceber que todas elas vão dar ao mesmo destino, que um passo atrás o aproximará tanto da morte como um passo em frente, que tudo é igual a tudo porque tudo terá um único fim, esse em que uma parte de ti sempre terá de pensar e que é a marca escura da tua irremediável humanidade.
Li esse livro pela primeira vez quando ainda estava na faculdade, acho que logo na época em que ele foi publicado por aqui. Não sei dizer exatamente o que me fez ir atrás do Saramago ou desse título - desconfio que tenha sido por indicação de alguém (talvez a Régis que é muito fã do autor?) -, mas lembro de ter brigado bastante no início com o estilo “estou nem aí para pontuações” do Saramago, mas persistido por achar a história fascinante.
1 de junho de 2018
Desafio Corujesco 2018 - Uma História de Família || Os Maias

Carlos recordava-se bem que nessa tarde, depois da melancólica conversa com o avô, devia ele experimentar uma égua inglesa: e ao jantar não se falou senão da égua, que se chamava Sultana. E a verdade era que daí a dias tinha esquecido a mamã. Nem lhe era possível sentir por esta tragédia senão um interesse vago e como literário. Isto passara-se havia vinte e tantos anos, numa sociedade quase desaparecida. Era como o episódio histórico de uma velha crônica de família, um antepassado morto em Alcácer-Quibir,239 ou uma das suas avós dormindo num leito real. Aquilo não lhe dera uma lágrima, não lhe pusera um rubor na face. Decerto, preferiria poder orgulhar-se de sua mãe, como de uma rara e nobre flor de honra: mas não podia ficar toda a vida a amargurar-se com os seus erros. E por quê? A honra dele não dependia dos impulsos falsos ou torpes que tivera o coração dela. Pecara, morrera, acabou-se. Restava, sim, aquela ideia do pai, findando numa poça de sangue, no desespero dessa traição. Mas não conhecera seu pai: tudo o que possuía dele e da sua memória, para amar, era uma fria tela mal pintada, pendurada no quarto de vestir, representando um moço moreno, de grandes olhos, com luvas de camurça amarelas e um chicote na mão… De sua mãe não ficara nem um daguerreótipo, nem sequer um contorno a lápis. O avô tinha-lhe dito que era loura. Não sabia mais nada. Não os conhecera; não lhes dormira nos braços; nunca recebera o calor da sua ternura. Pai, mãe, eram para ele como símbolos de um culto convencional. O papá, a mamã, os seres amados, estavam ali todos — no avô.”
Eça de Queiroz foi um dos indicados deste ano para as leituras do Clube do Livro de Bolso e, não fosse tal indicação, eu talvez tivesse passado a vida sem ler nada do português. Não porque tivesse algum particular preconceito contra Eça, mas porque tem tanta coisa na minha lista de leituras, que ele nunca me chamou suficiente atenção para se tornar prioridade. Assim é que devo um agradecimento especial a turma do clube por ter eleito esse título, porque essa leitura foi um verdadeiro deleite. E ainda encaixou num dos temas do Desafio Corujesco desse ano, o que me deixou feita na vida...
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