28 de fevereiro de 2018

Conversas Sobre o Tempo: O Primeiro Cabelo Branco e outras notas de vaidade aleatória


Descobri meu primeiro fio de cabelo branco. Obra de D. Mãe, que às vezes gosta de relembrar sua vocação tipicamente materna para puxões de madeixas, disfarçada na frase “venha aqui para eu secar seu cabelo”. Como sou uma filha obediente e não tenho paciência para escovas, secadores e outros instrumentos de tortura, lá vou eu deixar que ela me arranque parte do couro e queime a outra parte.

Ok, não é tão ruim, mas exageros são necessários para fins de crônica. Não denunciem D. Mãe para o Conselho Tutelar (nem mandem esse texto para ela…).

Mas, enfim, voltando ao cabelo branco… Ele está meio escondido, por baixo de várias outras camadas, mas está, de fato, : um único e inteiro fio prateado em meio ao castanho. D. Mãe gosta de dizer que os fios brancos dela têm todos o meu nome ou do meu irmão. Na falta de ter a quem culpar o meu, estou pensando em chamá-lo de Jeeves, como o mordomo cheio de bom senso da obra de P. G. Wodehouse.

Supostamente, deve-se respeito às cãs como sinal de idade e sabedoria. Vó, contudo, que ainda é mais gris que branca aos oitenta e sem auxílio de tintas, costuma dizer que se cabelo fosse documento, não nascia no… bem, em lugares onde o sol não brilha. Rendo-me assim à razão de D. Arminda, mesmo porque não me sinto mais sábia, mais merecedora de deferência ou mais experiente após descobrir Jeeves na minha cabeleira.

Tempos atrás, lembro de uma amiga comentar num grupo que estava sofrendo pressão para pintar o cabelo. Ela tem uma mecha inteira de fios brancos bem junto da testa, no estilo Vampira de X-Men. Sei que ela cultiva essa mecha com carinho, usando até xampu próprio para a situação, mas volta e meia o pessoal do trabalho ou da família reclamava dizendo que era descuido, que ficava feio e como é que ela ia arranjar marido daquele jeito?

Essa é a hora de termos aquele momento “em que séculos estamos mesmo?”.

Honestamente, acho cabeleiras brancas um charme e epítome da elegância - Helen Mirren está aí para provar minha opinião. E mesmo que assim não fosse, a melhor política é sempre a de cuidar da própria vida e poupar os outros dos nossos gostos pessoais, porque, ao final das contas, é tudo uma questão de gosto e gosto não se discute. Simples assim.

Volta e meia me pego pensando se o planeta não começou a girar para trás, voltando ao passado (Superman voltou alguns minutos apenas, mas se foi possível, então nada impede que ele desse ainda mais voltas até… a Idade da Pedra talvez…). Vejo esse tipo de comentário, leio notícias, vejo televisão e é como se estivéssemos revivendo fatos de dez, cinquenta, cem anos atrás - questões que pareciam resolvidas e ultrapassadas retornam como zumbis saindo de seus túmulos. Dizem que a História é cíclica e se repete (eu mesma estou me repetindo), mas minha impressão é que estamos desevoluindo, seguindo para o futuro com a mão na marcha ré. Não passamos nem do primeiro trimestre ainda, e 2018 já parece um ano cujo script está sendo escrito por alguém que anda exagerando no consumo de cogumelos.

A ironia é que os escritores do script, aqueles que estão no poder, que tomam as decisões que afetam a vida de todos - no nosso país e no resto mundo - são, em sua maioria, grisalhos. Supostamente, pessoas de experiência, doutas, capazes. Pessoas que não seriam guiadas por seu ego ou sua vaidade. Ao final, mais vale a sabedoria popular de dona vó. Cabelo, de fato, não é documento.


A Coruja


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2 comentários:

  1. Respostas
    1. Depois dessa fiquei com vontade de comer amendoim caramelizado XD Que bom que gostou das minhas ruminações.

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