21 de dezembro de 2017

Licor de Dente-de-Leão e a memória daqueles dias de verão

– Bem – disse Douglas –, vamos conversar sobre algo.

– Sobre o quê?

– Meu Deus, se você vai embora, temos 1 milhão de coisas para falar! Todas as coisas de que falaríamos no mês que vem e no outro mês! Louva-a-deus, zepelins, acrobatas, engolidores de espada!
Nos primeiros dias do verão de 1928, o jovem Douglas Spaulding se dá conta de que está vivo. É uma descoberta curiosa, especialmente a se considerar que Douglas tem 12 anos, uma idade em que (supõe-se) as pessoas não se perdem muito em devaneios filosóficos ou crises de identidade. Mas esse é um verão especial, um verão em que a vida de Douglas e das pessoas que vivem em Green Town, passarão por grandes mudanças.

Máquinas do Tempo e de produzir felicidade, amigos que partem, amigos que chegam, assassinos à solta, bruxas do tarô, velhas senhoras que talvez nunca tenham chegado a ser jovens… O fantástico, o absurdo, o estranho e o belo se alternam ou dividem a cena ao longo de todo o volume. Bradbury tem uma forma de contar histórias que é única; de transformar o prosaico em mágica, e o medo, em lirismo. Fico impressionada com cada novo título dele que termino, porque, ao chegar à última página, sempre tenho a impressão de que meu mundo real também se tornou um lugar em que tudo torna-se possível.

O estilo fragmentário, característico do autor, pode torná-lo um pouco difícil de acompanhar - os capítulos não seguem uma narrativa linear, são episódicos, como folhear um álbum de retratos e ir recordando o que aconteceu em cada imagem. Embora Douglas seja uma figura proeminente, e sirva como uma espécie de fio condutor, não é o protagonista de todos eles: muitos funcionam tranquilamente como contos independentes (e pelo menos um dos capítulos eu reconheci de A Cidade Inteira Dorme e outros contos) e têm seus próprios personagens centrais. Mas, ainda que pareça algo confuso de princípio, há um ponto em que você começa a entender do que Bradbury está falando e a perceber os temas com que ele permeia todo o livro.

De tudo o que li do autor até o momento, Licor de Dente-de-Leão talvez seja o mais reflexivo. Douglas, seu irmão Tom e os outros meninos da turma vivem várias aventuras de verão, situações típicas de uma cidade de interior; mas há uma abundância de momentos introspectivos - sutis, como nos questionamentos decorrentes das tentativas de Leo Auffmann de construir uma ‘máquina da felicidade’ ou na figura de Jonas, o lixeiro que pode ser um ex-executivos; ou bastante explícitas, como nas anotações de Douglas em seu bloco amarelo. As questões do envelhecimento e da mortalidade são quase onipresentes, nos contrastes entre os personagens idosos e jovens (incluindo um repórter que se apaixonou pela jovem de uma fotografia que é agora uma senhora de mais de noventa anos) bem como nos mortos que vão se somando com o passar do verão.

Nostalgia é também um forte fator dentro da história: embora eu não tenha crescido no interior, passei muitos verões na casa da minha avó e há qualquer coisa aqui que me faz pensar naquelas temporadas - em ir dormir na casa da fazenda, sem energia elétrica, na noite mais verdadeira que já conheci; em ouvir histórias de trancoso sentada na calçada, capturando besouros; mexer na arca de vestidos de tia Socorro e passar tardes tecendo fantasias; comer queijo quente saindo do forno, declarar guerra contra os primos, mergulhar no açude da Quixabeira e andar de trator. São os relacionamentos humanos que são trazidos aqui, as amizades, os amores, as rivalidades: Green Town é uma cidade de antes da internet, dos celulares, até antes da popularização da TV; uma cidade de uma época em que as pessoas tinham tempo de sentar-se no alpendre em cadeiras de balançar e conversar com os vizinhos.

É esse indefinível sentimento dos verões de uma infância ideal - que muitos, hoje em dia, não conhecem nem cogitam; nascidos em cidades, criados em apartamentos e incapazes de se desconectar - que Bradbury captura em seu livro e que o avô de Douglas captura na colheita dos dentes-de-leão, preparando o licor que, nos meses de inverno, trará à lembrança aqueles dias quentes e fantásticos. O licor de dente-de-leão - e falo aqui tanto da bebida quanto do próprio livro - é a própria memória destilada de todas as experiências trazidas pelo verão; a memória de uma época em que tudo parece possível e mágico; que em anos vindouros poderá ser saboreada, aquecendo por um momento corações insensíveis pelo inverno e pela idade.

Um brinde então, senhor Bradbury, um brinde de licor por ter me devolvido a recordação daqueles dias e noites de verão; pela pausa que me fez refletir, como Douglas, sobre o fato de estar viva; e sobre como temos um longo verão pela frente, pronto para embarcarmos em novas aventuras, para novos amigos e despedidas, para sabores diferentes de sorvete e temperos mágicos, para viagens no tempo e pela felicidade. Um brinde, senhor Bradbury! À Green Town!

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Licor de Dente-de-Leão
Autor: Ray Bradbury
Tradução:
Editora:
Ano:

Onde Comprar

Amazon || Saraiva


A Coruja


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2 comentários:

  1. Eu adoro livros com títulos diferentes como este!
    Não conhecia, mas fiquei bem curiosa para ler. Vai pra lista
    Adorei o marcador de corujinha!
    Bjs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu recomendo tudo do Bradbury, Claudia, ele está sempre surpreendendo a gente; passeando por gêneros e trazendo histórias fascinantes... O marcador foi um souvenir de viagem... não posso ver uma coruja que preciso trazê-la na mala... XD

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