6 de dezembro de 2017

Conversas sobre o Tempo: Enquanto esperamos pelo Fim do Mundo... digo, do Ano


Piscamos o olho e, ora vejam, é dezembro. Cá no hemisfério sul estamos nos acabando no calor, com nuvens esparsas e a perspectiva de que a coisa tende a piorar - afinal, o verão ainda não começou oficialmente. Fora isso, não tenho como honrar a boa máxima britânica de começar uma conversa falando sobre o tempo, porque ele não tem mudado muito nos últimos dias e ainda não estou na idade de começar a reclamar que 'os verões eram mais amenos na minha mocidade'. Enfim, pouca meteorologia hoje, mas muitas notas aleatórias para despejar por aqui.

2017 passou voando; ou, pelo menos, a cada ano que passa, temos a impressão de que o tempo passou mais rápido. Talvez, de fato, esse ano tenha sido mais curto que o passado por alguns segundos. Mas o problema é muito mais o acúmulo de trabalho, de informação, a sensação de que nunca conseguimos nos desligar de todo da 'ação' (qualquer que seja ela, se trabalho ou discussões pelas redes sociais da vida...), de estarmos sempre disponíveis (e olha o drama se não responder de imediato no whatsapp!), de nunca pararmos para simplesmente ficar em silêncio sem pensar em nada... a fadiga cresce até a completa exaustão mental e nem isso paramos.

E, claro, todo dia tem uma desgraça nova para assistir no jornal. Porque não basta o cansaço do nosso próprio cotidiano, há também o cansaço moral de ver repetidas, dia após dia, as notícias de corrupção, intolerância, fanatismo, irresponsabilidade, descaso... Ver o noticiário tem sido presenciar um festival diário de horrores; a coisa chegou a um ponto que passei umas duas semanas sem ligar a TV ou ler manchetes, como forma de manter minha saúde mental. Às vezes, é preciso nos dar um pouco de distância de tudo, ou acabamos sob a impressão de que estamos à beira do fim do mundo.

Claro que quando encerrei meu auto-exílio do noticiário, liguei a TV para dar de cara com Trump - num dia, com a declaração de que os Estados Unidos tinham retirado sua assinatura da Declaração de Nova York - um documento da ONU que fora aprovado por unanimidade em 2016 e tinha por objetivo a proteção de migrantes e refugiados -; no outro, com a história de que eles reconheceriam Jerusalém como capital de Israel. Não sei se quero nem imaginar a repercussão que essas duas atitudes vão ter. Somando tudo com o maluco da Coréia do Norte, penso que investir num bunker subterrâneo e pedir divórcio do resto da humanidade é uma alternativa cada vez mais sedutora.

Por essas coincidências que pessoas mais supersticiosas podem até chamar de destino, fiz duas leituras seguidas que parecem talhadas para o momento: Estranhos à Nossa Porta, do Zygmunt Bauman e Diário do Subsolo, do Dostoevsky. Lembro de ter lido Bauman pela primeira vez na faculdade e de ter me sentido virada do avesso com suas palavras em Identidade. Estranhos à Nossa Porta saiu aqui no Brasil no começo do ano, pela mesma época em que ele faleceu e me chamou a atenção de cara pela capa - não era nem preciso ver a sinopse para saber que ele ia falar da questão dos refugiados. Demorei para lê-lo, mas quando o fiz, foi exatamente na época certa.

Bauman trata nesse livro de questões que podem parecer muito óbvias após a leitura, mas que, confesso, eu não tinha chegado a pensar antes de lê-lo. A gente se perde no impacto das imagens - corpos na praia, amontoados em navios, junto a muros, em campos onde a espera parece ser infinita, e em condições cada vez mais degradantes - e nessa espetacularização do desastre, pouco a pouco perdemos a sensibilidade, a própria capacidade de se importar. Torna-se algo normal, talvez nem um capítulo da História, mas apenas uma nota de rodapé. Também não questionamos, não enfrentamos o problema e deixamos a coisa acontecer.

O livro não fala tanto sobre as causas para a crise dos refugiados, talvez porque repetir que o que acontece hoje na África e no Oriente Médio é um reflexo das políticas imperialistas e colonialistas dos séculos passados seja tão batido que se transformou quase em pleonasmo. Bauman até toca na questão da responsabilidade e da culpa, mas não é esse o foco - não se trata de um problema em que podemos apontar os dedos para os réus, mas de um dilema moral que diz respeito a todos, independente de se ter participado das desastrosas decisões que nos levaram a esse ponto.

O que Bauman melhor explora no livro são os usos (e abusos) da crise migratória. O comentário dele sobre a súbita explosão de popularidade de Hollande após os atentados de Paris em 2015 - logo após o presidente francês ter declarado estado de emergência e fechado as fronteiras do país - fez-me lembrar muito de Bush em 2001. São duas situações em que governantes se aproveitaram de situações trágicas para ir a público e usar o discurso da 'securitização' como amostra de força e decisão - e desviar a atenção dos problemas sociais que se somam e eles não conseguem resolver.

A gradual desumanização de imigrantes e demonização de minorias é outro tema do livro e, bem, Bauman faleceu antes de Trump assumir a presidência, mas, olhada, cada uma das palavras dele sobre o assunto parecem talhadas sob medida para o que temos visto dia após dia lá em cima da América.

Aí Bauman fala da substituição do antigo 'proletariado' por um 'precariado' que precisa dos imigrantes para enxergar que o fundo do poço é mais embaixo do que eles, que são também criaturas marginalizadas, imaginam. Como diz o ditado, miséria adora companhia e ver que há gente em situação mais deplorável que a deles aparentemente é bom para a auto-estima. E foi aí que fiz o gancho do Bauman com o longo monólogo de Dostoievsky em Diário do Subsolo - porque o narrador do russo é justamente um desses 'precariados', alguém que se identifica como um homem do subsolo, que se compraz na miséria humana e com sua própria condição degradante. Que se diz mais inteligente que a média, mas se conforma com a mediocridade e se diz vítima do sistema.

Nesse contexto, não é difícil um governante incompetente se tornar herói da pátria. É mais um motivo para dar graças pelo Brasil não ser alvo de organizações terroristas; afinal, num país em que justificamos certas escolhas das urnas com a aplicação da máxima 'rouba, mas faz', se algum fundamentalista decidisse explodir uma bomba por aqui, temeridades teriam possibilidade de serem eleitos ano que vem.

Mas, ok, Lulu, não sejamos tão pessimistas. Tentemos acreditar que 2018 será um ano de mais paz, fraternidade e tolerância; um ano sem muros e sem lamentações. Pandora encontrou esperança no fim da caixa; porque não podemos encontrá-la também no fim desse ano? Vou pedir a Papai Noel um 2018 em que tenhamos momentos de paz para que sejamos capazes de refletir sobre o que estamos fazendo em nossas vidas e sobre o que acontece ao nosso redor, em vez de mais um ano em que passamos como autômatos cirurgicamente conectados a um smartphone, incapazes de dar um 'bom dia' ao entrar no elevador. Que seja um ano em que escolhamos nossos governantes com mais cuidado e responsabilidade. Que entendamos que é necessário consumir com consciência; a gente só tem um planeta plenamente preparado para receber a raça humana até o momento, e um mínimo de cuidado com ele é necessário. Que solidariedade, respeito com o próximo e empatia sejam conceitos um pouco menos abstratos e distantes do nosso dia-a-dia.

Esse post era para ser uma série de notas aleatórias, mas acabou se tornando um espaço para que eu pudesse resmungar sobre a atual conjuntura (também conhecido como 'o samba do crioulo doido'), falar das minhas últimas leituras e, aparentemente, treinar o que vou escrever no cartão de natal. Ou na lista de resoluções para ano que vem. Mas, bem, essa coluna serve exatamente para que eu possa resmungar sobre o que quer que esteja na minha cabeça, então, estamos conversados. E nada me impede de fazer minha lista de comentários aleatórios, então, vamos lá...
1. o ano inteiro é corrido, mas dezembro é sempre pior e meus dias precisavam ter mais de vinte e quatro horas para eu dar conta de tudo. Entre presentes, cartões, confraternizações e até casamento de prima, minha lista de afazeres já passou da minha altura. Nunca fui uma procrastinadora, mas ultimamente, toda vez que olho para a lista, acabo indo jogar paciência...

2. minha sobrinha favorita acaba de completar 11 anos e tive o prazer inenarrável de compartilhar com ela uma das histórias que definiu minha geração. Além do livro, ela também ganhou uma carta de Hogwarts. Só não deu para entregar via coruja.

3. comprei um monte de livros na Black Friday, mas, exceto por um guia de viagem sobre Bruxelas, todos foram para dar de presente para outras pessoas. Minha lista de desejados, dessa vez, sequer foi tocada...

4. falando em Bruxelas, 2018 definitivamente vou atravessar o Atlântico! Afinal, tenho uma promessa a cumprir e um jardim por visitar.

5. a necessidade de comer chocolate anda grande... ou qualquer coisa doce. Estou a ponto de ir ali fazer um furinho numa lata de leite condensado para alimentar as lombrigas...

6. é só por uma questão de educação que não estou cantarolando 'bem-feito, bem-feito' em voz alta. Entendedores entenderão.

7. posso hibernar até o ano acabar? Ouvindo músicas de natal como cantigas de ninar? (aliás, finalmente chegou a época em que posso ouvir músicas de natal o tempo todo, sem ninguém me julgar!).

8. o único presente da minha lista que falta comprar é justamente o mais importante. D. Mãe vetou minha ideia inicial e agora estou tentando descobrir que outra opção tenho de presente para ela. Aceito sugestões!

9. esse tá aqui só por uma questão de simetria, para que eu possa fechar essa lista redondinha com o número...

10. comecei a reler O Silmarillion. Aguardem novidades!


A Coruja


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2 comentários:

  1. Olá!
    Seu post me inspirou a iniciar minha lista de resoluções para 2018... não para por aí!
    Me deu coragem de colocar na lista algo que venho a muito adiando...
    A partir de 1/1/2018 meu celular será desligado todos os dias das 20:00 até as 06:00.
    Ou seja, foi para a lista de compras um despertador para 2018 :)

    Quanto à Bélgica, aproveite... ainda mais por conta dos chocolates.
    Caso Bruges não esteja na sua lista, eu sugiro que inclua. A cidade é linda e vale muito a pena.

    Infelizmente eu sou péssima para presentes e não quero arriscar nossa amizade virtual com uma furada.

    Feliz Natal!

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    Respostas
    1. Que bom que minhas aleatoriedades inspiraram você a começar a organizar suas resoluções, Mariana! Uma excelente pedida a sua resolução, por sinal; ninguém é obrigado a ficar disponível a todo momento, né?

      E sim, Bruges está na minha lista também! Obrigada pela dica ;)

      Excluir

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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