16 de outubro de 2017

Desafio Corujesco 2017 - Uma História que Combine com o Halloween || Uma Estranha Família

Casa era um quebra-cabeças dentro de um enigma dentro de um mistério, pois ela abarcava silêncios, cada um deles diferente, e camas, cada uma de um tamanho diferente. algumas com tampas. Alguns tetos eram altos o suficiente para permitir vôos com descanso, e ali as sombras podiam se pendurar de ponta-cabeça. A sala de jantar abrigava treze cadeiras, todas elas com o número treze, para que ninguém se sentisse alijado da distinção que esse número implicava. Os candelabros lá em cima eram feitos a partir das lágrimas de almas atormentadas, perdidas no mar havia quinhentos anos de vindimas e estranhos e estranhos nomes nas garrafas guardadas lá dentro e cantinhos vazios para visitantes que não gostassem de camas ou dos poleiros nos tetos altos.
Continuando meu desafio pessoal de ler tudo o que eu achar da bibliografia do Bradbury, peguei esse aqui da estante para aproveitar tanto o tema do mês no Desafio Corujesco quanto o All Hallow’s Read. Uma Estranha Família já estava esperando por aqui faz um tempinho, depois que o consegui numa troca pelo Skoob e foi uma leitura bem rápida e leve.

O livro é narrado de forma fragmentada pelo jovem Timothy, um humano normal que foi abandonado ainda bebê na porta da Casa - um lugar de quartos esquecidos e lareiras incontáveis, onde mora uma família de criaturas estranhas e maravilhosas, os Elliott; vampiros, múmias, fantasmas, adormecidas capazes de levar suas mentes aos confins do mundo. Tim cresce nesse mundo maravilhoso com a missão de ser o narrador das histórias que acontecem ao seu redor - e assim é que cada capítulo do livro funciona como um conto independente (inclusive, ao menos duas histórias já tinham aparecido na antologia O País de Outubro).

Uma Estranha Família pode parecer, à primeira vista, bem simples e até confuso. Mas, como muitas das histórias de Bradbury, essa é uma impressão falsa. Essa é uma história sobre o Estranho, o Outro e o interessante da forma como as coisas se desenrolam é que o ‘estrangeiro’ aqui é Tim, um humano comum em meio a uma família de monstros e outras criaturas imortais. Tim tenta encontrar seu lugar em meio a esses seres maravilhosos, até entender que é sua mortalidade, sua humanidade, faz dele exatamente aquilo que a família precisa: alguém para contar suas histórias.

Isso porque… a família está morrendo. As pessoas estão deixando de acreditar - num mundo de tecnologia e maravilhas modernas, em que não existem mais terras a descobrir e tudo passa pelas explicações da ciência, eles estão perdendo seus poderes.

É um mérito de Bradbury que, mesmo quando está tratando de monstros e criaturas da noite, como aquelas que aparecem nessa história, ele consegue ser incrivelmente poético. A linguagem dele é de uma delicadeza que sempre me impressiona. Aliás, o título original do livro, From the Dust Returned, que faz referência ao bíblico ‘do pó viestes, ao pó voltarás’, combina muito mais com o tom que o livro assume. Por mais estranha que seja a família, não é sua estranheza que é o ponto aqui, mas sim seu lugar em um mundo que não é mais capaz de acreditar no fantástico.

O livro demorou décadas para sair do papel: quando a ideia de A Volta ao Lar - conto que abre a história de Timothy - surgiu, Bradbury sentou-se com Charles Addams, o criador de A Família Addams, que desenhou uma primeira ilustração para ‘vender’ a ideia junto com o escritor. E embora o conto, junto com o desenho, tenham sido publicados numa revista em 1946, nenhum editor comprou a ideia dos Elliott. Assim, Bradbury a guardou na gaveta e Addams continuou com as histórias da família Addams, que de tirinhas satíricas no The New Yorker, foi adaptado para filmes, séries de TV e desenho animado.


Quando Bradbury finalmente publicou From the Dust Returned, em 2001, usou a ilustração de Addams (que então já tinha falecido) como capa. E, embora se possa reconhecer algo dos Addams nos Elliott, são histórias muito diferentes - os Addams foram criado como uma paródia, ao passo de Timothy e sua família existem num limiar entre a prosa e o lírico, naquele mundo de sonho que Bradbury consegue ecoar tão bem em seus contos.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Uma Estranha Família: Lembranças de um Lugar do Passado
Autor: Ray Bradbury
Tradução: Adriana Lisboa
Editora: Ediouro
Ano: 2003


A Coruja


____________________________________

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog