18 de janeiro de 2017

O Essencial é Invisível aos Olhos ou Lições sobre Luto com O Pequeno Príncipe

“ [...] Vê, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. Para mim, o trigo é inútil. Os campos de trigo não me dizem nada. E isso, sim, é triste! Mas seus cabelos são dourados. Então será maravilhoso quando tiver me cativado! O trigo, que é da cor do ouro, evocará sua lembrança. E me deliciarei com o rumor do vento no trigo...

[...]

Assim, o pequeno príncipe cativou a raposa. E quando chegou a hora da partida:
- Ah! – disse a raposa – Vou chorar.
- Culpa sua. – disse o pequeno príncipe -, eu não lhe queria mal, mas você quis que eu a cativasse...
- Naturalmente – disse a raposa.
- Mas você vai chorar! – disse o pequeno príncipe.
- Naturalmente – disse a raposa.
- Então não ganha nada com isso?
- Ganho – disse a raposa -, por causa da cor do trigo.”
Havia uma edição de O Pequeno Príncipe na estante de D. Mãe antes mesmo de eu nascer. Não sei quando o li pela primeira vez, mas fato é que ele sobreviveu a várias mudanças de apartamento e muitas leituras, até a capa descolar, folhas se soltarem e eu ter de comprar um novo volume que não se desmanchasse nas mãos se tentássemos ler. Por essas coincidências que gostamos de chamar de destino, retirei a edição nova da prateleira - que ainda não tinha sequer folheado - na véspera do fim de ano e encontrei nele as exatas palavras que precisava para lidar com a perda da tia que era uma querida companheira de aventuras, cujo entusiasmo e vibração me inspiravam.

Há quem deteste O Pequeno Príncipe; que enxergue a famosa citação do “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” como justificativa de discurso de posse - especialmente em relacionamentos românticos -, como se Exupéry dissesse que por você ter uma ligação com alguém, isso o obriga pelo resto de sua existência a continuar cuidando dessa relação, ainda que ela se torna abusiva ou doentia. Normalmente parto do princípio que cada um tem direito a sua interpretação, mas acho que essa análise foge completamente do contexto do romance.

Não existe um contrato de exclusividade, não existe uma necessidade ou dependência de ‘ser cativado’. O autor não estava preocupado em falar de namoricos e adjacências. Os principais relacionamentos do livro são de amizade e, mesmo que assim não fosse, enxergo o ‘eterno’ de Exupéry numa interpretação mais próxima do “que seja eterno enquanto dure” de Vinícius de Morais. Ser responsável por aquilo que cativamos não significa dobrar-se às exigências do outro, nem estar 24 horas por dia disponível, mas cuidar dos nossos relacionamentos, cultivá-los e regá-los como a rosa do Príncipe - ouvir, lembrar, apreciar as pessoas de quem, supostamente, já gostamos. Oferecer um ombro amigo quando necessário, celebrar quando houver motivos.

Minha responsabilidade com as pessoas que cativei significa, por vezes, mandar cartas para o outro lado do mundo, escrever uma mensagem quando vejo algo que me fez lembrar delas, ligar no aniversário, me empolgar junto quando há uma conquista, oferecer abraços quando estão triste, chamar de lado para dar um conselho. Na medida do possível, tento cultivar as amizades que faço - porque sei o quanto me faz bem quando essas pessoas demonstram a recíproca como verdadeira. Tive o exemplo disso recentemente: nas últimas semanas da minha tia, eu talvez teria desabado se não fosse pelo apoio que recebi desses amigos tão queridos, às vezes apenas uma palavra no momento certo e um abraço caloroso para dizer que eu não estava sozinha.


Num primeiro momento, a fábula de Saint-Exupéry pode parecer uma história meio bizarra sobre um aviador perdido no Saara que encontra um alienígena - o pequeno príncipe do título -, ou que talvez esteja apenas sofrendo alucinações por conta da insolação, desidratação e do calor, vai se saber. Mas, como bem observa a Raposa, o essencial é invisível aos olhos e esse é um livro mais sério do que aparenta, servindo como crítica afiada à forma como o homem vive nos dias de hoje e trazendo em seu bojo as grandes questões existenciais com que nossa vã filosofia se digladia desde sempre: qual o sentido da vida, que importância temos nós, seres humanos, no grande esquema das coisas, porque, afinal, fomos deixados aqui nesse planetinha azul girando num universo sem fim.

Antes de chegar à Terra, o príncipe passa por diversos planetas conhecendo personagens que ele, com sua inocência infantil, é incapaz de compreender - adultos obcecados com seu trabalho ou poder, tão ocupados que são incapazes de ver a beleza no que os cerca. O Rei, o Vaidoso, o Homem de Negócios, o Geógrafo, são todos eles solitários, isolados por suas noções do que é importante, crendo que o mundo gira em torno deles, cegos e surdos para aquilo que não lhes interessa. O rei, embora um bom homem, preocupa-se em demasia com a aparência de seu poder (o que pode ser visto no contexto da Segunda Guerra, quando o livro foi escrito, como uma referência ao papel das ‘potências’ contra Hitler, especialmente no início do conflito); o Vaidoso entende apenas sua própria necessidade de ser admirado; o Homem de Negócios ‘acumula’ riqueza em forma de estrelas, mas delas não desfruta, vivendo apenas para somá-las ao passo que o Geógrafo conhece toda a teoria, mas nunca sai a viver suas próprias aventuras, esperando que viajantes venham a ele contar suas histórias.

Os dois últimos personagens causam mais compaixão e pena que repulsa - o Bêbado, que bebe para esquecer sua vergonha por beber, está preso num eterno ciclo de miséria; ao passo que o Acendedor de Lampiões, o menos absurdo do grupo de pessoas absurdas que o príncipe visitou em sua jornada, poderia ser um amigo, mas está ocupado demais por seu trabalho.


Os adultos no mundo de O Pequeno Príncipe estão sempre ocupados, andando de um lado para o outro sem saber realmente para onde vão - como na linha de trem -, ignorando tudo aquilo que possa dar sentido real a suas existências. Sem tempo para dedicar ao pôr do sol ou ao cuidado necessário para cativar alguém. Vidas vazias, sem amigos, sem imaginação, uma vida em que apenas os números têm importância.

O príncipe, com sua insistência para receber respostas às suas perguntas, e sua abertura para aprender, empreende uma busca por empatia, encontrando-a na raposa, que lhe ensina aquilo que realmente importa: os homens não nasceram para serem ilhas isoladas, mas não se pode esperar cultivar amizades verdadeiras sem que você seja capaz de dar um pouco de si e de seu tempo - algo de que as pessoas estão cada vez menos dispostas a abrir mão.

Escrito no exílio, O Pequeno Príncipe é todo ele perpassado por melancolia. O entendimento que os personagens ganham - o príncipe, a raposa, o piloto - é acompanhado sempre de um sentimento de perda. Faz sentido que seja dessa maneira: se a única certeza que temos na vida é a morte, então todos os nossos relacionamentos estão fadados a terminar em dor e despedida. Apesar disso, não deixamos de buscar afeto e compreensão; vínculos, família, amigos, amores. Isso porque, a despeito do sofrimento que sabemos que virá, teremos o trigo: a memória dos momentos que passamos juntos.

Há muitos níveis de interpretação em O Pequeno Príncipe, desde uma fábula moral, a uma alegoria repleta de profundo significado simbólico. Qualquer que seja a forma como se escolha enxergá-la, fato é que ele tem algo a dizer a cada pessoa. Pra mim, foi o livro certo na hora certa. Que ele seja assim para vocês também.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: O Pequeno Príncipe
Autor: Antoine de Saint-Exupéry
Tradução: André Telles e Rodrigo Lacerda
Ilustrações: Antoine de Saint-Exupéry
Editora: Zahar
Ano: 2015

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