9 de dezembro de 2016

As Aparências Enganam: Memória, Trauma e Tons de Cinza em Nimona


Não tenho certeza absoluta sobre quando foi a primeira vez que ouvi falar da Noelle Stevenson - creio que em alguma lista da io9 de webcomics que deveriam ser acompanhadas ou então em algum tumblr seguindo debates sobre mulheres e representatividade nos quadrinhos. O fato é que a autora estava no meu radar há tempos, tanto por causa de Nimona quanto por Lumberjanes (que estou aceitando de Natal!) e assim foi uma agradável surpresa descobrir que ambos estavam sendo publicados em português.

À primeira vista, Nimona pode parecer uma história simples, um tanto anacrônica em sua mistura de fantasia medieval e ficção científica, cômica na sanha assassina da metamorfa que dá seu nome ao título, mas a verdade é que nada é o que parece ser nesse quadrinho.

A história gira em torno de Lorde Ballister Coração-Negro, o grande vilão do reino, Nimona, sua ajudante metamorfa e Sir Ambrosius Ouropelvis, herói e campeão da ‘Instituição de Heroísmo e Manutenção da Ordem’. Ballister e Ambrosius foram, no passado, amigos, até que um acidente - que terminou com a perda do braço de Ballister - fez com que seus caminhos se separassem. Nimona, por sua vez, é uma adolescente de origem misteriosa, capaz de se transformar em qualquer outra criatura, cujo ídolo é Lorde Ballister, e que tem por maior desejo aparente botar fogo no reino e matar todo mundo.

Esses vilões e heróis, contudo, vão muito além de aparências e maniqueísmos. Para começar, o Instituto está mais preocupado em manter a ordem dentro do status quo, no qual eles dominam e todo mundo aceita sua palavra como lei. A diretora não se esquiva de manipular, mentir ou realizar experiências científicas de ética duvidosa, contanto que seu poder - e o da Instituição - continuem. Sir Ambrosius, com sua cabeleira loira de comercial de xampu e armadura reluzente, é a personificação do arquétipo de herói e o rosto da Instituição, seu principal trunfo em termos de relações públicas. E, para manter seu cargo e sua importância, Ouropelvis já se mostrou antes disposto a tudo - incluindo atacar pelas costas seu então melhor amigo.

Lorde Ballister Coração-Negro, por sua vez, vive numa área cinzenta de ambiguidade moral. Ele se diz um vilão e se apresenta como um cientista louco, mas segue um rígido código de conduta. Ballister parece ter sido empurrado para uma vida de crime pelo desejo de expor o que está realmente por trás da Instituição - e seu relacionamento com Ambrosius bem como o que aconteceu que o fez perder o braço estão no coração de seus motivos para tanto.

Os quadrinhos deixam suficientemente implícito que Ballister e Ambrosius eram até mais que amigos - especialmente no diálogo em que Ambrosius tenta convencer a diretora a apreender, mas não matar seu arqui-inimigo. Só para não deixar sombra de dúvidas sobre o assunto, a própria autora respondeu em sua página, deixando claro que os dois foram amantes (ou namorados não tão particularmente secretos quanto eles imaginavam ser).


Considerando tal fato, é ainda mais doloroso pensar que Ambrosius escolheu trair Ballister. Ao longo de boa parte da história, o cavaleiro tenta lidar com o trauma das consequências de suas escolhas negando o que aconteceu. Ele se justifica afirmando que tudo foi um acidente e, a certa altura, até mesmo colocando a culpa no próprio Ballister, argumentando que todo mundo achava que, com a personalidade que tinha, ele terminaria em vilania. O que Ambrosius se recusa a enxergar - ao menos de começo - é que ele aceitou participar de um sistema corrupto, que estava totalmente aparelhado para transformá-lo no campeão; algo que ele queria a qualquer custo para provar seu próprio valor. Ao fazê-lo, ele perde de vista seus princípios, aquilo que o fez querer ser um herói.

O rancor justificado de Ballister não se deve ao fato de ter sido colocado de lado, preterido em favor de Ambrosius, algo de que o herói dourado chega a acusá-lo; mas que num único golpe ele tenha perdido basicamente tudo - seu lugar no Instituto, sua carreira como cavaleiro, seu relacionamento com o próprio Ambrosius. Tornar-se um vilão é sua tentativa de superar a dor; mas antes da chegada de Nimona, mesmo nisso Ballister parece ter se acomodado, tornando-se quase complacente.

Nessa situação, ambos têm problemas em lembrar e lidar com o passado. Ouropelvis recorre à negação, enxergando apenas as partes mais róseas dessas memórias, ao passo que Ballister apega-se às lembranças mais dolorosas e esquece do resto. Assim, cada qual mergulhado em sua própria versão da verdade, ambos são presa fácil para a manipulação da diretora - que, ao final das contas, precisa tanto de um herói quanto de um vilão para justificar a continuidade e as decisões da Instituição.

É extremamente interessante observar que os dois personagens são estereótipos completos das figuras que representam, da linguagem que usam à maneira como se vestem. De Ouropelvis é algo a se esperar, afinal, ele é uma escolha consciente da diretora para se tornar uma peça de propaganda. Irônico é que Coração-Negro bata todas as marcações necessárias ao típico vilão do imaginário popular, do nome à barba até a armadura negra e capa vermelha. Mas, ao final das contas, Ballister deve saber tanto sobre manipulação da massa quanto a diretora e sua aparência também é, sem dúvida, uma escolha deliberada.

É no meio desse relacionamento, já bastante tóxico quando a história começa, que entra Nimona, a adolescente metamorfa de passado misterioso.

É bastante claro, desde o início, que Nimona tem seus próprios fantasmas. Ela fabrica histórias para explicar seu passado - talvez até para tentar lidar com o estresse pós-traumático de que sofre. Em algum ponto antes de se apresentar a Ballister, ela foi prisioneira, quem sabe até tenha nascido já como uma cobaia de laboratório, sem nunca conhecer nada de diferente. Sua admiração por Ballister e desejo de ser uma vilã está intimamente ligado à vontade de não querer ser uma vítima, de não permitir que pessoas tirem vantagem de seus poderes - o que também é óbvio que já aconteceu.

Nimona é quase completamente amoral, não porque seja inerentemente maligna, mas porque a lei do mais forte parece ter sido tudo o que ela aprendeu na vida. Mate primeiro e não será machucada é uma regra bastante simples para alguém que passou sua inteira existência conhecendo apenas rejeição. Nimona é uma contradição ambulante e não apenas pela fluidez com que transita por gêneros e espécies, mas porque é, a um tempo, a personagem mais perigosa e poderosa da história e também a mais vulnerável.


No final das contas, Nimona segue todos os estereótipos possíveis para contrariar esses mesmos estereótipos. O herói aqui é mais moralmente ambíguo que o vilão, que, por sua vez, é bússola moral para a ‘mocinha’, que pode ou não ser o verdadeiro monstro embaixo da cama. Se a história termina num confronto explosivo para expor a verdade por trás da Instituição de Heroísmo e Ordem, ela também se foca no confronto das memórias e traumas que cada um desses personagens carrega consigo, e na destruição dos papéis tradicionais em que eles foram escalados. E é isso que faz a obra de Stevenson ser tão subversiva e original.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Nimona
Autor: Noelle Stevenson
Tradução: Flora Pinheiro
Editora: Intrínseca
Ano: 2016

Onde Comprar

Amazon || Cultura || Saraiva || Submarino


A Coruja


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2 comentários:

  1. Amei sua resenha, mandou muito bem nas analogias. Acho incrível como vc enxerga além das palavras e desenhos. O óbvio não basta nunca. :) Parabéns! Beijão.

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    1. Obrigada, Raquel! Às vezes a gente acaba meio que se empolgando por aqui... e é tão legal quando saímos 'escavando', buscando detalhes, conexões não particularmente óbvias... Quero depois ver a sua opinião sobre o livro!

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