3 de outubro de 2016

Desafio Corujesco 2016 - Um Livro com Título de uma Palavra Só || Possessão

De início, Roland trabalhava com aquela curiosidade concentrada com que sempre lia qualquer coisa escrita por Randolph Ash. Esta curiosidade era um misto de familiaridade e adivinhação; ele sabia como funcionava a mente de Ash, lera as coisas que ele lera, sentia-se como se possuído pelas características da sintaxe e da prosódia do autor. Enquanto lia, ia raciocinando antecipadamente, ouvindo o ritmo do que ainda não lera como se fosse ele que tinha escrito aquele texto, ouvindo no cérebro os ritmos espectrais do que ainda estava por escrever.
Primeira coisa a dizer sobre esse livro: a despeito do título e de algumas referências bastante discretas que têm mais a ver com o estado de espírito de certos personagens que cenas no estilo O Exorcista, o romance mais celebrado de A. S. Byatt não é uma história em que fantasmas de autores mortos possuem o corpo de estudiosos especialistas em suas obras para darem conclusão a sua história de amor (ou talvez seja exatamente isso que tenha acontecido, dependendo da sua escolha de interpretação dos fatos).

Não consigo me lembrar quem me recomendou a leitura desse calhamaço, mas seja lá quem tenha sido, só tenho a agradecer a indicação, porque Possessão foi um dos melhores romances que li esse ano, com romance, mistério e reflexão metalinguística, tudo num único volume.

A história é narrada em diferentes épocas e níveis: em um primeiro momento há a relação entre Roland e Maud, sua busca pela verdade sobre os poetas vitorianos Ash e Beatrice. Essa relação, que começa profissional e intelectual, com vários debates sobre a história dos dois poetas e a simbologia de seus poemas, vai avançando à medida em que as cartas que os dois estudiosos encontram revelam um romance entre os escritores. Num segundo nível, há a narração direta da história de Ash e Beatrice, auxiliada pelas cartas e pelos poemas que eles escreveram. Para completar, num último nível, ainda há toda a intriga do meio acadêmico e mil e uma teorias iconoclastas de interpretação.

Se eu tivesse que escolher uma única palavra para explicar do que se trata a história desse livro, eu diria… beleza. Possessão é uma história sobre literatura e sobre sexo, amor, coincidências e espiritualidade, mas é, sobretudo, um romance sobre a beleza, a beleza própria das palavras, da capacidade de tecer realidades com elas, de trazer ao mundo algo de imaculado, algo que é, simplesmente… belo.

Ash e Beatrice se apaixonam por essa capacidade de criação de beleza que ambos possuem. Eles admiram o talento do outro e se aproximam primeiro atraídos pelas palavras, antes que essa relação possa se tornar carnal. Da mesma forma, Roland e Maud se aproximam pela curiosidade e respeito que sentem pela elegância, pelo cuidado, pela simbologia da obra de seus dois poetas favoritos. Não é uma beleza indolor, para nenhum dos pares - muitas vezes ela é fria, quase áspera e muito, muito breve em seus momentos felizes - mas é sempre inspiradora.

A história, como já disse antes, é interpolada pelas cartas e por trechos dos poemas de Ash e Beatrice - e tenho de dizer que eu jurava que os dois eram personagens reais até ir pesquisar e descobrir que não, eles são personagens da Byatt, que, no processo de escrever esse romance, criou um inteiro corpo poético distinto para cada um dos dois. Ela se inspirou em Robert Browning e Emily Dickson, Coleridge e Tennyson e Christina Rossetti - segundo suas próprias anotações acerca do trabalho por trás de Possessão -, mas as vozes de seus poetas são as vozes próprias e individuais, o que me deixa ainda mais surpresa com a complexa narrativa que ela criou aqui.

Esse não é um romance de final feliz - há uma boa dose de melancolia envolvida -, mas ele não deixa de ser esperançoso. Uma vez que a verdade esteja a descoberto, é possível proteger seu legado e compreender, em todo o seu significado, a beleza das palavras deixadas pelos poetas da história. Não é uma história fácil, mas é infinitamente satisfatória no que se propõe, um tesouro para quem se propor ir até seu final.

O livro, infelizmente, está esgotado aqui no Brasil, após sua publicação em 1992, mas não é difícil encontrá-lo em sebos ou encomendar a edição em inglês. A história foi também adaptada para o cinema e não é difícil encontrar o filme, com muitos rostos conhecidos para quem acompanha as séries e filmes inspirados na obra de Austen (e não acho que essa seja uma coincidência).

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Possessão
Autor: A. S. Byatt
Tradução: Paulo Henriques Britto
Editora: Companhia das Letras
Ano: 1992

Onde Comprar

Amazon || Cultura || Saraiva


A Coruja


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5 comentários:

  1. OI. Indiquei seu blog ao prêmio Dardo 2016 :)
    http://ofantasticomundodaleitura.blogspot.com.br/2016/09/premio-dardo-2016.html

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  2. gente.... agora tenho mais um livro pra ler. Adorei.

    O meu livro para o desafio desse mês foi "Neverwhere"!
    http://leiturasdelaura.blogspot.com.br/2016/10/neverwhere.html

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    Respostas
    1. aliás, cadê o desafio corujesco de setembro? só para constar aqui, eu li "a cor púrpura" :-D
      http://leiturasdelaura.blogspot.com.br/2016/09/the-color-purple-cor-purpura.html

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    2. Lugar Nenhum! Vou lá ver o que achou desse Gaiman.

      Setembro foi um mês complicado, terminei não conseguindo escrever a resenha, embora tenha lido o livro... talvez eu escreva e poste depois XD

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