11 de outubro de 2016

#AllHallowsRead: Caldeirão, Vassoura e Chapéu Pontudo


Uma das comunidades de escritores de que participo no Facebook lançou um debate entre os participantes questionando qual a nossa percepção de bruxas, qual a referência que possuímos quando pensamos no tema. A primeira imagem que me veio à cabeça foi a da Vovó Cera do Tempo, Esme Weatherwax da série Discworld do Pratchett. A segunda foi a do relato feito em O Queijo e os Vermes, que é um livro fantástico sobre bruxaria em tempos de Idade Média e que nunca me canso de recomendar a leitura.

Já ia começar a responder no debate quando decidi pesquisar no google algumas dúvidas e quando me dei conta do que estava fazendo, tinha me afogado numa espiral de links de sites de antropologia, neopaganismo, história e Harry Potter, e estava cruzando informações sobre druidismo com caça a albinos na África. Em outras palavras, o histórico de pesquisas do meu navegador tornou-se uma coisa estranha, mas, bem, isso não vem ao caso. O fato é que após mastigar todo o dilúvio de informação que saí coletando ao longo da última semana, achei que seria uma boa ideia sintetizar tudo num post para o Coruja - inclusive como parte do especial de All Hallow’s Read.

Quando puxo a memória para pensar numa primeira referência histórica-literária de bruxas, o que me vem à mente é a mitologia grega - é Circe na Odisséia, transformando homens em porcos com a ajuda de suas poções e sua varinha, e Medéia, do mito dos Argonautas e da tragédia de Eurípedes, que usava seu caldeirão para rejuvenescer aliados. Em muitas genealogias divinas, as duas são parentes (irmãs, tia e sobrinha ou mãe e filha) e descendentes de Hécate, a deusa de tripla face, patrona da magia, da necromancia, do conhecimento das ervas e das encruzilhadas. Elas são mulheres poderosas, representadas como desafio e queda de heróis, sedutoras e vingativas. Odisseu consegue escapar e salvar seus companheiros, mas Circe permanece senhora em sua ilha e Jasão perde tudo quando trai Medéia.


Ambas são talvez um dos primeiros arquétipos da ideia de bruxa que passaria para o imaginário popular - entre si elas têm varinha e caldeirão, faltando só chapéu pontudo e vassoura voadora. Mas elas são também algo mais que seres humanos, descendentes de deuses e titãs.

Nosso imaginário coletivo do que seja bruxa e bruxaria, contudo, deriva principalmente da Idade Média e, assim, presta mais homenagem ao Antigo Testamento que a tragédias de poetas gregos: é a bruxa de Endor que sob as ordens do rei Saul, conjura o espírito do profeta Samuel que, por sua vez, amaldiçoa a necromante e seus poderes e o próprio rei, sob ordens divinas. Essa rápida aparição justificou para a Igreja Cristã a identificação de bruxaria com o mal, o culto satânico e a heresia - e todos sabemos qual foi a resposta dada a essa identificação.

O que é realmente hilário, considerando que os santos cristãos estão sempre fazendo milagres e de um certo ponto de vista, eles têm o mesmo tipo de poderes de bruxas e feiticeiros… mas deixa isso pra lá…

O fato é que a Igreja decidiu - em algum ponto após ter conseguido deixar de ser característica para a escolha de carne fresca para o Coliseu - inspirada no Antigo Testamento, que bruxaria era uma espécie de anti-religião ligada a cultos satânicos. Porque todos os deuses que não eram o seu Deus seriam, obviamente, satânicos, e da mesma forma que eles tinham sido perseguidos, agora era o momento de irem à forra. Para se firmarem como legítima e universal instituição, o cristianismo tinha de varrer do mapa o que considerava ser contra seus ensinamentos, e assim é que a Inquisição e a caça às bruxas se tornaram pedras angulares da Igreja.

Marion Zimmer Bradley trabalha muito bem essa transição em As Brumas de Avalon. O reinado de Arthur é aqui dividido entre a fidelidade a uma antiga religião natural, na qual ele teria sido criado e a qual pertencem Morgana le Fay e Merlin, e a nova religião cristã, representada, sobretudo, por Guinevere. As sacerdotisas e os druidas de Avalon, seguidores da Antiga Religião e da Deusa são o molde para os wiccans e neopaganistas de hoje, inspirados no que se acha saber sobre os druidas da civilização celta.


O problema de se apresentar como um druida (algo que muitos dos bruxos modernos farão, a julgar pelos sites que encontramos numa pesquisa rápida no Google) é que… não sabemos, de verdade, o que cargas d’água significa ser um druida. A cultura deles era toda baseada em tradição oral e o que temos sobre sua história são relatos de historiadores gregos pouco antes de Cristo e conquistadores romanos mais preocupados com sua propaganda imperialista que em de fato deixar registrado para a posteridade como eram as sociedades que eles iam anexando a sua.

O principal registro histórico sobre os druidas foi escrito por Júlio César durante suas campanhas militares pela Gália. Os druidas, em suas palavras, eram uma classe de sacerdotes que exerciam as mais importantes funções sociais da comunidade: eram juízes e médicos, poetas e guardiões do conhecimento. E eram também bárbaros praticantes de sacrifícios humanos. Tal fato nunca se confirmou, embora se tenha encontrado valas comuns datando do período de cominação celta na região - valas que poderiam ser tanto de guerreiros tombados em batalha e ritualmente enterrados como de sacrifícios humanos.

Embora se depreenda desses relatos que a classe dos druidas era quase exclusivamente masculina, há menção a algumas druidesas em mitos irlandeses - mas não parece ser uma regra que elas pudessem, também seguir como sacerdotisas.

Isso me faz lembrar o discurso que Pratchett fez sobre porque Gandalf nunca se casou. Não questiono a fé de quem se apresenta hoje como neopaganista, mas considerando que boa parte dos festivais e rituais que eles seguem são inspirados numa sociedade que pouquíssimo deixou em termos de explicações sobre sua religião, é meio que difícil de entender como a coisa toda funciona. Ou não, já que dos relatos escritos pelos romanos se diz que os druidas acreditavam em reencarnação. Sendo assim, é razoável que sacerdotes druidas reencarnados se lembrem de suas tradições e ritos secretos praticados séculos atrás.

Minha opinião pessoal é que toda religião é uma ficção, então, cada um constrói a ficção em que deseja acreditar e a ninguém é dado julgar. Dito isso, deixemos esse desvio do meio do caminho para falar de druidismo e voltemos à estrada da Idade Média.

A Igreja - tanto católicos quanto, posteriormente, protestantes - identificaram praticantes das antigas crenças como inimigos públicos. O isolamento causado pela fragmentação do Império Romano, ajudou a criar pequenas comunidades em que tudo o que não era aceito como status quo era automaticamente taxado como herético. Doenças, como a peste negra, ajudaram a criar um ambiente bastante propício à histeria coletiva. Nesse contexto, vários teólogos propagavam suas ideias sobre quem seriam esses Inimigos de Cristo, e o mais famoso deles foi, sem dúvida, o Malleus Maleficarum, publicado pelos dominicanos Heinrich Kramer e Jacob Sprenger em 1487.

Foi O Martelo das Bruxas que transformou a idéia de bruxaria numa espécie de ideologia religiosa. Antes dele, não havia conceitos ou fronteiras claras, como identificar e como se livrar de tais criaturas. É também a esse tratado que se deve o fato de que, na maior parte das vezes, são as mulheres que são identificadas como bruxas. De acordo com Kramer e Sprenger, o sexo feminino é mais inclinado à tentação: mulheres são mais crédulas, têm um temperamento volúvel, inconstante e a língua solta, além de inclinadas à luxúria. Elas desejam - desejam o marido de outrem, os filhos de outrem, a felicidade de outrem. E assim é que elas utilizam seus poderes, fruto de pactos sombrios com forças demoníacas, para influenciar e manipular mentes e corpos, para obterem aquilo que desejam.

Para além do óbvio - a ânsia por exterminar tudo o que é diferente e não aceito pelo status quo - o problema da caça às bruxas é que ela colocou como um de seus alvos ‘homens e mulheres sábios’, curandeiros e parteiras, praticantes da medicina popular, pessoas cujo conhecimento de ervas, psicologia e do corpo humano era visto como pura magia e não algo de ciência. As bruxas julgadas pelos tribunais religiosos - ao menos as que realmente poderiam se chamar bruxas e não os falsamente acusados por inveja ou vingança de vizinhos ignorantes - são profundas conhecedoras da natureza humana, pessoas que buscaram conhecimento, tendo consciência que conhecimento é poder e também responsabilidade.


Em termos pratchettianos, seriam eles os praticantes da cabeçologia. As bruxas de Pratchett são pois, para mim, a melhor resposta para a questão que iniciou toda a minha pesquisa, sobre qual seja minha referência de ‘bruxas’. Não são as bruxas de contos de fadas, com seus espelhos mágicos e casas feitas de doce; ou as sacerdotisas de uma religião que adora o princípio feminino - embora, claro, elas o possam ser também. Elas não dançam nuas e participam de sabás à luz da lua tendo por convidado de honra o Pés-de-Bode. Em vez disso, elas trabalham duro e seu poder está muito mais no que elas representam dentro da sociedade em que vivem do que propriamente em vassouras e chapéus pontudos.

Poder está na crença e a crença aqui está na questão de que essas pessoas atuam como mediadoras, num limiar entre vida e morte - porque elas são procuradas, principalmente, quando há uma criança para nascer ou alguém está doente e morrendo. Elas ‘invadem’ a esfera espiritual que a Igreja tomou para si ao se fazer presente nesses momentos. Seu conhecimento, ligado, muitas vezes, a crenças de deuses anteriores ao cristianismo, é uma ameaça. Não é uma surpresa que sejam, pois, perseguidos.

Tendo feito toda essa digressão histórica, quando pensamos em bruxo hoje em dia, nosso imaginário coletivo está mais inclinado a Hogwarts que Idade Média - é nossa experiência mais imediata. Ou então aos wiccans e ao neopaganismo e sobre eles já fiz meus comentários quando falei do druidismo. Nenhuma dessas referências está errada. Todos esses personagens, de Circe e Viviane do Lago até a Rainha Má e Hermione, e ainda aos nomes que aparecem nos processos falhos dos tribunais religiosos (Salem, talvez o mais lembrado deles), são partes do caldeirão de histórias que fazem parte da nossa mitologia moderna.


Eu poderia ainda tentar falar aqui sobre estereótipos de contos de fadas, feminismo e visões fora do eixo eurocêntrico do que seja bruxaria (Baba Yaga!), mas vou deixar para fazer isso em outra ocasião...

Até lá, deixem nos comentários quais são as suas referências de bruxas!


A Coruja


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4 comentários:

  1. Muito bom post! Minha referência imediata sempre foi e sempre será a Circe. Isso tudo graças ao livro que eu mais li na vida.

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    1. Circe é ótima! Qual foi o livro que você leu tantas vezes que fez a Circe ser sua referência?

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  2. Sinceramente, estou ansioso para ler todas essas outras matérias que talvez surjam como fruto dessa aqui. Mas acho que as minhas influências sobre bruxas são as mesmas que as suas. Eu imagino mulheres sábias, isoladas da sociedade por seus conhecimentos ancestrais. Eu imagino alguém tentando dar o seu melhor dentro de um mundo hostil que ainda implora por sua ajuda. Eu imagino o quanto essas pequenas comunidades das quais faziam parte lidaram com suas perdas, ou melhor, com a perca de seus conhecimentos. Em como sacerdotes fervorosos reagiram ao perceber que não poderiam substituí-las e que talvez as grandes maldições tenham saido da ignorância desses caras.

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    1. É sempre bom enxergar o tipo de referencial que outras pessoas têm e descobrir se a origem é a mesma. Concordo com seu ponto sobre a perda de conhecimento das pequenas comunidades em função das perseguições a suas mulheres sábias. Espero que tenha gostado dos outros posts do All Hallow's Read desse ano, que trataram de autores específicos - ano que vem tem mais!

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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