3 de julho de 2016

#LendoSandman: Vidas Breves


No oitavo arco de Sandman acompanhamos Delírio e Sonho numa jornada em busca do irmão pródigo - Destruição, o Perpétuo que abandonou sua função e desapareceu do mapa. Essa busca forçará Sonho a confrontar algumas verdades incômodas sobre si mesmo e terminará em despedidas e preparações, encaminhando a série para seu inevitável desfecho.


A história começa com Delírio meio que surtando e decidindo que tudo ficará bem de novo, contanto que ela possa encontrar Destruição. Desejo a encontra a e se nega a ajudar, obviamente; da mesma forma que sua gêmea, ainda que Desespero tivesse uma relação carinhosa com o irmão mais velho e sinta saudades dele. E aí ela decide pedir a ajuda a de Sonho.

Agora, em Convergências, vários dos habitantes do Sonhar citam que o Príncipe das Histórias tem uma nova amada. Pois bem: ao encontrarmos Morpheus no início desse arco, descobrimos que ele foi abandonado e está agora chafurdando em sua miséria e autopiedade, como um herói byroniano. Seus sentimentos se refletem em seu reino, onde uma chuva sem fim paira, carregando tudo para debaixo d’água.

Lucien nos relembra que Sonho sempre reagiu dramaticamente em finais de relacionamentos: foi assim com Nada, com Calíope e com Eleanora (possivelmente uma corruptela do nome Alianora, que encontramos em Um Jogo de Você), e será assim também com esse novo coração partido.


Exceto que Delírio chega para convencer o irmão a ajudá-la e, num momento de inspiração, Sonho decide que, embora não tenha qualquer interesse em reencontrar Destruição, aquela jornada é o melhor remédio para se distrair de sua desilusão amorosa. E claro que não vai dar em nada, não se preocupe, Lucien, eu sei o que faço.

Famosas últimas palavras...

Então que Morpheus e Delírio se põem a caminho, seguindo uma lista de amigos com quem Destruição convivera, encontrando em vez disso um rastro de mortos e desaparecidos que culminam com o de sua motorista, Ruby - uma morte tão sem sentido que incomoda Sonho o suficiente para que ele decida chegar até o final da questão, custe o que custar.

O primeiro tema a se destacar nesse arco é, sem dúvida, a idéia de finais, algo intimamente ligado ao próprio título Vidas Breves. São muitos os desfechos que testemunhamos aqui: o de Bernie, relutante, mesmo após milênios de existência; Ruby, que mal começara a viver; Ishtar, que o abraça apoteoticamente; Orfeu, que por ele tanto ansiou.

Mesmo Desespero, um dos Perpétuos, nem sempre foi o aspecto que conhecemos. Houve outra antes dela, alguém que se foi e ela então teve de decidir, escolher ser a irmã gêmea de Desejo.


E, independente do tempo que tenham tido, todos eles viveram tanto quanto os outros: uma vida inteira. Nem mais, nem menos.

Claro que isso é relativo. Nunca estamos realmente conformados com o tempo que nos é dado - queremos ter mais tempo para experimentar as coisas, mais tempo para estar com as pessoas que amamos, simplesmente mais tempo. Pergunte a qualquer um - exceto, talvez, por Morte - e todos acharão que sua vida foi breve demais. A verdade é que, se a possibilidade nos estivesse aberta, faríamos como Orfeu e não nos resignaríamos ao luto.

Tempus Frangit, diz o relógio quebrado do reino de Delírio. “O Tempo Foge”. O tempo voa e mal nos damos conta de que ele está passando.

Há motivos familiares nessas linhas, em especial na história em torno de Ishtar, deusa babilônica do amor e da guerra, fertilidade e morte - não à toa, antiga amante de Destruição, considerando que ambos representam as duas faces da moeda. Ishtar, que retorna ao mundo do Sonhar após o clímax de sua performance e de sua existência - em contraste a Bast, que se apega às migalhas de seu poder.


O interessante é que esse arco também nos dá muita informação nova sobre os Perpétuos. Sonho e Delírio estão no centro, claro, e Morte aparece rapidamente apenas para puxar as orelhas de Sonho. Mas todos os outros também têm seu papel na história.

Descobrimos sobre o fato de que um Perpétuo já teve de ser substituído antes - Desespero - e que Desejo, agora que vê atendida sua vontade de fazer o irmão derramar sangue da família, não se sente tão à vontade com as consequências do que virá daí; chegando a tentar impedir que tudo aquilo acontecesse.


Destino, tão impassível e preso aos acontecimentos escritos em seu livro também tenta impedir Sonho, sabendo o caminho de dor que se abre para seu irmão - palavras que ecoam na voz do próprio Sonho quando ele se despede de Orfeu.


Entendemos os motivos de Destruição para ter abandonado sua função: ele não quer ser responsável, não quer ser o culpado por todas as formas abomináveis que os seres (humanos) usam para se destruir. Seu interesse pelas ciências, pela física e por Newton, sobre quem ele conversa com Sonho em seu último encontro antes de dizer adeus à família, prenuncia o advento das armas de destruição em massa (os questionamentos de Newton sobre matéria e luz se relacionariam com a equação de Einstein de conversão de matéria em energia que está na base das armas nucleares) - algo pelo que eu também não gostaria de ter responsabilidade.


Finais precedem e são precedidos por mudanças e esse é outro tema central à história desse arco - e de toda a série Sandman. A busca por Destruição, que representa essas duas faces da mesma moeda, é sintomática disso. Assim como o fato de que a guia da jornada que empreendemos em Vidas Breves é Delírio.

Delírio se define por sua mudança: como personificação de um ideal de perfeita felicidade, ela foi Deleite; após um evento que mudou toda o funcionamento da consciência viva do Universo, tornou-se Delírio - afinal, ela é um padrão que precisa representar um estado de consciência.

Ela oscila entre dois estados de espírito como as duas personalidades que foi e é - algo que nos é mais de uma vez lembrado quando encaramos seus olhos, especialmente no momento em que Sonho se revela mais vulnerável, quando ela confronta Destino para protegê-lo.


Tenho uma teoria particular sobre o evento que teria forçado a transformação de Deleite/Delírio. Considerando o papel de Eva, Caim e Abel, Lúcifer e o Criador, especialmente como personagens do que eles chamam de ‘a primeira história’ - um padrão que teria se adequado à necessidade humana e que conhecemos como mitologia judaico-cristã, mas que dentro de Sandman faz parte de algo muito mais antigo e anterior aos seres humanos na Terra - creio que a transformação tenha começado com a Primeira Rebelião, comandada por Lúcifer, cristalizando-se após a expulsão de Adão e Eva do Paraíso.

Antes disso, não havia dissenso, não havia loucura ou mania - tudo era a imagem da perfeição. Com a Queda, essa aparência de felicidade revela sua fragilidade, e com a expulsão do Éden, surge a dor, as doenças, a velhice. Surge a necessidade de escapar da realidade, mesmo que seja para um lugar que exista apenas dentro de sua própria cabeça.

Seja como for, o fato é que Delírio, como guia de Sonho, serve de exemplo e alerta: não é possível escapar da mudança (amadurecimento), por mais dolorosa que ela possa ser, afinal, para que se construa algo novo é necessário primeiro destruir o velho.

Sei que estou parecendo um papagaio repetindo frases feitas, mas tudo isso é algo que precisamos ter em mente quando olhamos para Morpheus e avaliamos tudo o que aconteceu desde que ele escapou de seu cativeiro.

Em vários dos arcos anteriores, Morpheus é confrontado com a noção de que sua prisão o transformou. Sua resposta é sempre uma negação, por mais óbvia que seja a mudança que ocorreu em seu caráter.

O Sonho de antes não se importava com mortais como “algo além de coisas que sonham, criaturas de histórias”. Era egoísta, arrogante e autossuficiente. São características que fizeram Desejo querer sua ruína e Desespero culpá-lo pelo abandono do irmão mais velho - algo de que o próprio Sonho possivelmente se culpa, a julgar pelas palavras de Destruição sobre o assunto.


Foi o que o levou a condenar Nada a uma eternidade de suplício no Inferno e o que o impediu de demonstrar qualquer compaixão pelo filho.

Os anos de prisão lhe deram um pouco mais de humildade e empatia, bem como a chance de reconhecer e consertar seus erros: libertar Nada e Calíope, admitir para Rob que o considerava um amigo, e dar sentido à morte de Ruby - uma humana que nada fizera por ele além de lhe servir como motorista por um tempo muito breve -, o que o leva a Orfeu e mais uma ponte partida de seu passado.

A história da mudança de Sonho é também uma história de redenção. E a redenção de Morpheus tem uma conclusão implacável.


Destruição cita as palavras de Morte em um passado distante, quando os Perpétuos ainda estavam todos juntos e o próprio Universo estava apenas no começo: “Nós todos não apenas podemos saber tudo. Mas sabemos. Só negamos isso a nós mesmos para tornar tudo suportável”.

Essa frase abre a dimensão trágica de toda a jornada de Sonho, porque Sonho sabe o que tem de acontecer. Ele está preparado para isso - desde que vestiu suas armas para invadir o Inferno numa missão suicida para libertar Nada em Estação das Brumas. Por isso é tão notável que na primeira invocação das Moiras, ele escolha chamá-las pelo título de Benevolentes. Por isso Daniel Hall é tão importante. Está escrito no próprio livro de Destino. E por isso Morpheus treme à ideia de reencontrar Orfeu. Ele sabe que não poderá dizer não.


Se tivesse acontecido antes, no Inferno, ao menos ele teria ido em meio à glória da batalha. Lutando por um amor perdido. Mas dessa forma, tendo de derramar o sangue do próprio filho, silêncio, remorso e vergonha?

É uma questão de tempo agora para que as Fúrias o encontrem. Ele sabe disso.

Sonho tem de morrer.


Lembrem-se que o debate continua no Pipoca Musical e na comunidade All About Gaiman. Daqui a duas semanas nos encontramos de novo para falar de Fim dos Mundos.


A Coruja


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