18 de julho de 2016

#LendoSandman: Fim dos Mundos


Assim como Terra dos Sonhos, Espelhos Distantes e Convergência, esse nono arco de Sandman é um compilado de diferentes contos costurados por uma única narrativa: em meio a uma tempestade como poucas vezes se viu igual, um grupo se abriga na estalagem Fim dos Mundos e ali vão se revezando em contar suas histórias como pagamento por sua hospedagem.


Claro que não se trata de uma tempestade natural: é uma tormenta de realidades. O que isso significa e como ela se amarra aos fatos que ocorreram em Vidas Breves não fica suficientemente claro, mas há pistas suficientes para que possamos presumir.

O volume se inicia com a chegada de Brant e Charlene à estalagem, após um acidente de carro devido à nevasca - o que já é bem estranho e Brent só perceberá isso mais tarde, porque eles deveriam estar no auge do verão. Eles são recepcionados por um elenco bem diverso, que inclui de elfos a centauros, criaturas tão antigas quanto o mundo.

E então… as histórias começam a ser contadas.

Uma História de Duas Cidades, à primeira vista, pode parecer uma homenagem ao livro de Dickens, mas é, na realidade, uma homenagem ao universo lovecraftiano. As cidades adormecidas são similares aos antigos deuses ‘que dormem e sonham’ em R’lyeh.


O protagonista desse conto ‘escorrega pelas frestas’ para dentro do sonho de sua cidade - algo que também nos faz lembrar de Lugar Nenhum - e ali se vê preso, vagando por ruas desertas, prédios e becos que são quase familiares, mas sempre com certo grau de estranheza.

A própria maneira como essa história é desenhada causa certa estranheza, diferente do estilo habitual dos quadrinhos. As ilustrações são limpas, quase minimalistas, e ajudam a reforçar o isolamento do narrador.

Gaiman iguala aqui memória e história à capacidade de ser senciente. As cidades têm memória e personalidade; estão vivas, logo, podem sonhar. O que faz muito sentido, considerando que elas passam pelo mesmo ciclo humano de nascimento, crescimento e morte. A cidade de Robert - o narrador desse conto - nem seria o primeiro lugar a adquirir consciência no universo de Sandman - afinal, temos Fiddler’s Green como exemplo logo nos primeiros volumes.

Se a primeira história é uma homenagem a Lovecraft, O Relato de Cluracan é um tributo ao pai dos romances de espada e feitiçaria, Robert E. Howard.

Nós já conhecemos Cluracan em Estação das Brumas, como embaixador de Faërie. Pego pela tempestade retornando de uma missão para sua rainha, o elfo conta sua visita a Aurélia e sua participação na queda do líder político e religioso do reino. Profecias, vítimas que retornam do túmulo para acusar seus assassinos, lutas de espadas - há um pouco de tudo nesse conto, incluindo uma participação de Sonho, que salva o herói da prisão a pedido de Nuala, a irmã que Cluracan deu de presente para o Lorde Moldador quando dos acontecimentos em torno da chave do Inferno.


Aurélia é perceptivelmente uma versão fantasiosa da Roma medieval - o Psicopompo me fez de imediato pensar no Papa Bórgia, embora ele não detenha o monopólio dos papas medievais mais sanguinários e libertinos.

A inspiração por trás de O Leviatã de Hob é também bastante óbvia: o ‘chamem-me Jim’ acena à abertura de Moby Dick de maneira inconfundível. Jim nos descreve aqui uma memorável viagem entre Singapura e Londres; a descoberta de um passageiro clandestino e o encontro com o mais famoso dos mitos náuticos, a serpente gigante do mar.


Além da história de Jim, temos aqui a figura de Rob Gadling, já nosso velho conhecido, encontrando-se por um acaso com outro imortal, o passageiro clandestino do navio, Gunga Din.

Gunga Din narra sua história disfarçada numa lição moral que parece ter saído diretamente de As Mil e Uma Noites - antes um rei poderoso, foi decepcionado pela traição de sua esposa e assim decidiu abdicar de sua riqueza e vagar pelo mundo como um mendigo, não sem antes comer do fruto da imortalidade que iniciou toda a confusão.

O interessante de O Leviatã de Hob não é as situações em que Jim termina se encontrando ao longo da narrativa, mas na dificuldade de compartilhar com o mundo as verdades extraordinárias que presencia - sendo que ela mesma é uma dessas verdades sobre as quais apenas se sussurra e que entra na história como lenda e mito.

Prez Rickard, o protagonista de O Garoto de Ouro, é originalmente um personagem de Joe Simon numa série da DC publicada entre 1973 e 1974. Em The View from the Cheap Seats, Gaiman escreveu sobre ter lido os quadrinhos originais e sobre adaptar a história, inicialmente mais satírica, numa releitura religiosa em que Prez é Jesus e o Rei Arthur numa única figura.


Prez é um idealista, mas é também um arquétipo dentro de uma história e isso faz dele uma criatura do Sonhar - motivo pelo qual Morpheus intervém quando o Sr. Sorriso tenta tomar posse da alma do rapaz.

Mortalhas é o meu conto favorito desse arco, uma história que se desdobra em várias outras - e esse é um tema constante em todo Fim dos Mundos. Petrefax é nosso guia numa viagem por Litargo, a cidade Necrópole e sua narrativa joga luz em muitas questões interessantes para a linha principal de Sandman.

Nós já sabemos que a Desespero original foi destruída e uma nova encarnação dela tomou seu lugar. Aqui encontramos Destruição, que conta sobre uma orgulhosa cidade Necrópole anterior a Litargo, uma cidade que falhou em sua função e foi então destruída, obliterada da própria história.


E também descobrimos sobre um misterioso lugar no fundo das catacumbas de Litargo, onde há ‘seis mortalhas prateadas dependuradas no salão, brilhando nas trevas; e um livro imenso, fechado a chave, sobre um atril’.


Algumas páginas antes, quando Destruição narra sobre a necrópole anterior, Destino diz que ele e seus irmãos tinham ido buscar ‘sua mortalha e os livros de ritual’. É razoável pensar que o que a mestra Veltis descobriu sob as catacumbas foi aquilo que os Perpétuos tinham buscado anteriormente, quando Desespero morreu.

E assim chegamos ao último capítulo, Fim dos Mundos. As histórias foram todas contadas, e a tormenta continua. Quíron, o centauro, observa a certa altura que não lembra de ter visto a estalagem tão cheia e que apenas uma vez em sua longa vida assistiu uma tempestade como aquela - provavelmente, na ocasião da morte da primeira Desespero.

Mas o que é uma tormenta de realidades? O que é o algo tão grandioso que ocorreu, cujas ondas reverberaram ‘através do tempo, do espaço e do mito’?

É então que as figuras começam a cruzar o céu. Nós reconhecemos Destino à frente do cortejo. E, em seguida, vem o caixão.


E então uma infinidade de personagens, personagens que conhecemos no Sonhar, personagens que acompanhamos por todo esse tempo, cujos caminhos se cruzaram com os de Morpheus. Desespero está lá também. Não vemos Desejo nem Destruição, mas fecham o cortejo duas garotas, e nós a conhecemos também, pois são Delírio e Morte.

O arco se encerra com Brant num bar, recontando tudo o que viu e ouviu daquele dia na Estalagem Fim dos Mundos - uma história dentro de uma história, dentro de outra história, ou, usando o termo mais exato, uma narrativa em abismo (como a Fernanda explicou muito bem nesse artigo do The Bookworm Scientist).

Esse arco é o mais experimental da série - tanto na forma quanto no conteúdo. A arte muda de estilo - especialmente para Uma História de Duas Cidades e Gaiman se inspira em diferentes autores, de diferentes gêneros, para criar uma infinidade de universos, tão diversa quanto a multidão refugiada na estalagem.

Muito se fala que Fim dos Mundos é a versão gaimaniana de Os Contos de Cantuária, com peregrinos que se revezam em narrativas enquanto aguardam o momento de continuarem suas viagens - pessoas de diferentes estratos sociais, cada uma trazendo à mesa suas próprias experiências pessoais. Gaiman, é claro, eleva isso a um novo patamar, porque não se trata aqui de um grupo de classes diferentes, mas de épocas e até mundos diversos.

É a mesma tradição de Decamerão e, claro, de As Mil e Uma Noites, todas essas histórias dentro de histórias, livros que exploram o poder da narrativa, como elas nos afetam, como nos transformam - algo que está na própria essência de Sandman. Histórias nos guiam, nos redimem, nos consolam e é esse poder intrínseco a elas que Gaiman explora nessa série e, especialmente, nesses arcos antologias.

Fim dos Mundos é importante por toda essa experimentação, por esse passeio pela história da literatura - pela história literária do Gaiman, que homenageia aqui muitos dos autores que influenciaram sua formação. Mas é também um arco marcante pelo que ele nos diz sobre a linha narrativa principal da história de Morpheus.

Não é preciso ser um gênio para entender o que realmente aconteceu, para saber que a tempestade de realidades que aqui presenciamos é uma ramificação do que ocorreu ao final de Vidas Breves. Não sabemos como aconteceu, mas certamente sabemos quem está no caixão.

Que não haja esclarecimentos nos coloca numa posição parecida com a de Brant - somos espectadores de algo grandioso e compartilhamos do espanto causado por aquelas silhuetas no céu. Mas o choque e as dúvidas nos impedem de aceitar o luto - estamos apenas assistindo, sem realmente compreender.

É uma escolha interessante para como se introduz o que vai acontecer no próximo arco. É quase como se tivéssemos pulado uma página da história.

E mesmo assim, não torna menos dolorosa a certeza de que o final está bem próximo.

Não sei mais bem o que escrever. O último capítulo de Fim dos Mundos me causou uma espécie de amortecimento. Sendo assim, encerro por aqui hoje. Agosto teremos os dois últimos arcos do projeto. Até lá, continuem acompanhando o projeto no Pipoca Musical e também na comunidade All About Gaiman.


A Coruja


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4 comentários:

  1. Suas palavras, como sempre, esclarecedoras e coesas pra contar um pouco mais sobre Sandman para seus leitores. Obrigada você por ter topado essa brincadeira. Agora partiu para os dois últimos arcos pra morrer de chorar, pelo luto e pela despedida. </3 Beeeijo!

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    Respostas
    1. Vou sentir falta quando terminar T.T

      Pois é, eu acho que a gente deveria debater os dois próximos arcos se embebedando para chorar as mágoas. Não tem como não se emocionar, né?

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    2. Como eu tô lendo pela primeira vez: vocês estão me assustando! Vou separar logo a caixa de lenço de papel aqui. xD

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  2. Adoro como sempre acabo descobrindo mais uma porretada de coisas submersas em Sandman sempre que venho aqui, hahaha. Não quero que o projeto termine! T_T

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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